Glória chegou um pouco depois. Beijou Percival, escondendo a raiva e falou: “Que tal amanhã à noite a gente ficar em casa e tomar um vinho, Perci?” Ele nem prestou muita atenção, mas concordou: “Claro meu amor”. Em seguida, ligou a tevê e ficou no sofá até a hora de dormir. Glória tomou banho e foi dormir mais cedo. Precisava estar animada no dia seguinte.
“Seu” Geraldo não pregou o olho a noite toda. Não era uma pessoa ruim, e gostava de Percival, mas aquela era a única maneira de salvar a vida do neto. Precisava fazer aquilo. Não era de religião, mas sempre se lembrava da esposa quando pensava em fazer algo moralmente questionável. Ela sim, ia sempre à igreja e sempre o convidava, mas ele nunca arranjava tempo. Achava que era tudo um jeito de manipular as pessoas.
“Seu” Geraldo já estava na portaria há algum tempo quando ouviu a porta da escada se abrir. Sabia que era Percival. Mas ele estava diferente aquele dia, não estava assobiando nem bateu continência. Apenas acenou e saiu pela portaria.
Quando voltou, Percival já estava com uma expressão melhor. Parou em frente ao balcão, entregou o pãozinho a “Seu” Geraldo e perguntou sobre sua nora. Ele então desmoronou feito castelo de areia. Sentou-se na velha cadeira giratória, respirou fundo e começou a falar. Quando terminou, Percival olhava para ele incrédulo.
- “Seu” Geraldo, isso que o senhor está me falando é muito sério!
- Eu sei, “Seu” Percival. Eu preciso muito desse dinheiro, mas não tenho coragem de fazer isso.
- Não se preocupe. Eu lhe arranjo esse dinheiro, mas vou precisar da sua ajuda.
Beto chegou ao Ed. Coliseu por volta de 10h. Percival já havia saído para trabalhar há algum tempo. Ele entrou, foi direto até “Seu” Geraldo e perguntou.
- Tudo certo para hoje?
- Sim, mas preciso me garantir. Quero que a Dona Glória assine este papel para mim.
E mostrou a Beto uma folha de papel ofício, escrita com tinta “metamo”, que se apaga quando exposta ao calor: “Devo a Geraldo… a quantia de 30 mil”. E embaixo, uma linha para que ela assinasse. Beto leu e falou: “Sem problemas. Na hora que descer, já lhe trago assinado. Lembre-se, preciso que você chegue aqui hoje por volta de 10h da noite. Estarei na esquina te esperando”.
Subiu e combinou tudo com Glória. Ela ficou reticente em assinar o papel para “Seu” Geraldo, mas ele insistiu para que assinasse. Disse que não podiam adiar e que assim que terminassem o serviço, pagariam a dívida e pegariam o papel de volta. Glória concordou. Só queria que aquilo tudo acabasse. Pegou o pequeno vidro que Beto trouxera, assinou o papel e se despediu dele. À noite, se livrariam de Percival.
Percival chegou em casa por volta de 8h da noite. Glória já o esperava com uma garrafa de vinho e uma travessa de “Batata Brava”, um típico prato uruguaio, Não entendia porque ele gostava daquela porcaria apimentada, mas....
Na vitrola de vinil que ele tanto gostava, um velho disco de Elton John. Ela estava com um vestido preto e os cabelos presos em um coque. Era inegável que estava bonita.
Percival disse que ia ao banheiro e ficou espiando pela fresta da porta, enquanto Glória batizava sua taça com cianeto. Só aí acreditou que ela realmente teria coragem para matá-lo. Apertou o botão da descarga, lavou as mãos e voltou à sala.
Glória o esperava com uma taça de vinho em cada mão. Ele pegou a que ela lhe oferecia e, propositalmente, derramou a que ela segurava, molhando seu vestido. Glória nem pensou na hora. Correu para se limpar e trocar a roupa. Quando voltou, Percival já estava no finzinho de sua taça (que trocara enquanto ela estava no banheiro) e já havia lhe servido outra. Ela só conseguia olhar para a taça de Percival quase vazia. Ele então a completou, ergueu um brinde e beberam: “Saúde!!!”.
Completaram novamente as taças e Glória começou a ficar preocupada. Como seria o efeito do veneno que servira a Percival?
Beto chegou na hora marcada ao ponto de encontro. “Seu” Geraldo já o esperava. Caminharam em silêncio até a portaria do Ed. Coliseu e ficaram ali esperando o interfone chamar.
Percival começou a ficar muito sonolento. Sentiu medo do que aconteceria. Tinha trocado o cianeto por um forte sonífero conhecido como “Boa noite, Cinderela”, que já estava fazendo efeito. Sentou-se no sofá e apagou.
Glória interfonou e “Seu” Geraldo atendeu. Ele e Beto subiram. Como haviam combinado, pegaram o corpo inerte de Percival e levaram para o terraço do prédio. o velho se encarregaria do cadáver, como combinado. Faria o serviço junto com um primo que tinha uma caminhonete e que receberia 5 mil para ajudá-lo sem fazer perguntas.
Beto foi embora para casa, assim como “Seu” Geraldo. Glória foi dormir. Sua função agora era dar queixa do sumiço de Percival no dia seguinte. Seria necessário esperar, até que ela pudesse reclamar o prêmio do seguro que, segundo o contrato, só poderia ser pago após 30 dias do desaparecimento. A sorte estava lançada.
Glória continuou mantendo uma rotina normal nas semanas seguintes, assim como Beto. Não se encontravam, falando apenas por telefone e com muito cuidado. “Seu” Geraldo pediu demissão e não apareceu mais no prédio. Ficou de procurá-la dentro de um mês para receber o combinado. O escritório e os pontos de bicho fecharam. Beterraba cuidou de tudo para o “falecido” patrão.
No trigésimo dia, “Seu” Geraldo chegou cedo ao banco, sentou-se à mesa do gerente e entregou a procuração digitada na folha assinada por Glória, que tinha o carimbo de um cartório da cidade, cujo dono era muito amigo de Percival. Fez a transferência do dinheiro para uma conta no nome do filho e saiu.
Glória chegou depois do almoço e ficou furiosa quando o gerente explicou que seu procurador, “Seu” Geraldo, já havia transferido o dinheiro.
“Seu” Geraldo lhe mandou um WhatsApp em seguida, com a gravação da conversa que tivera com Beto e fotos de Percival desacordado. Disse-lhe que ficasse quieta e que cuidasse de seu emprego, pois era o único dinheiro que teria agora. Disse ainda que ficasse feliz por ele não entregar o material à polícia.
Glória não tinha mais o que fazer. Contou tudo a Beto que, depois disso, nunca mais a procurou. Pelo menos sua dívida tinha morrido junto com Percival.
Enquanto isso, em um pequeno quarto alugado no outro lado da cidade, Percival aguardava a visita de “Seu” Geraldo. Estava com Mephisto, que desaperecera na noite de sua “morte”.
A campainha tocou e era o velho porteiro, Contou de sua conversa com Glória e disse que tinha também as suas gravadas. Era melhor Percival continuar morto ou seria um vivo preso. Disse que, em consideração à maneira com que ele sempre o tratara, lhe daria metade do dinheiro do seguro no dia seguinte, quando seu filho chegaria para buscá-lo e poderia sacar. Perguntou: “Tem café aí ?”. Tirou um pãozinho de sua sacola, deixou em cima da mesa e se foi.
No dia seguinte, um motoboy entregou a Percival um pacote com o valor combinado e um bilhete sem assinatura, onde estava escrito: “Boa sorte!”. Ele pegou Mephisto no colo e foi para a janela.
De seu celular, ligou para um número no Uruguai: "Alô, Rosalita? Você pode me buscar no aeroporto amanhã, no horário de sempre? Não, desta vez, vou para ficar mais tempo, muito mais tempo. Un beso, mi amor!"
Fim.
Somente um trocadalho do carilho para dar conta desta cambuta de fidapada!
ResponderExcluirUAU! Incrivel! Amei! Parabénssssssss! Lacrou!
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