Conto "Percival e o gato" - Capítulo 4

Percival chegou em casa por volta das 8h da noite, abriu a geladeira e pegou uma cerveja. Mephisto se aproximou, como fazia sempre, e ele lhe fez um carinho. Encontrou Glória na sala vendo tevê, linda e perfumada. Percival pensou em como tivera sorte ao conhecê-la. Andava meio perdido e, depois dela, tudo havia melhorado. Agora tinha um lar, algo que sempre desejara. Glória era a peça que faltava. Antes que ela dissesse qualquer coisa, ele a beijou ardentemente.

Depois de fazerem amor, Percival se virou para o canto e dormiu um sono pesado. Glória não conseguiu pregar o olho aquela noite. Um misto de inquietação, medo e sentimento de culpa a invadiram. Pensou em esquecer Beto e sossegar de vez com Percival. Sim, era isso que faria no dia seguinte, se encontraria com Beto e terminaria tudo.

“Seu” Geraldo chegou atrasado para trabalhar naquela sexta-feira. Dormira pouco à noite. Queria muito poder ajudar o filho pelo menos uma vez, mas, como conseguir 30 mil se ele não ganhava isso em um ano?

O primeiro morador a descer foi, como sempre, Percival. Passou assobiando, bateu continência e saiu pela portaria. Em menos de 10 minutos, estava de volta: “Trouxe café, Seu Geraldo?”. Percival percebeu logo o semblante preocupado do velho porteiro, que já pegava seu prato embaixo do balcão para colocar o pão quentinho.

- O que houve, “Seu” Geraldo? O senhor parece preocupado.
- Pois é, “Seu” Percival. É um problema com a minha nora.

E contou a história toda. Percival ficou triste com a situação. Queria poder ajudar, mas as coisas não andavam nada fáceis. Tomaram um café e ele subiu para o apartamento.

Estranhou o fato de Glória já estar no banho. O normal seria chamá-la quando tudo estivesse pronto. Mas, seguiu o seu roteiro de toda manhã. Arrumou a mesa com toalha, pratos, xícaras, biscoito, queijo, pão. E pôs-se a passar um café forte.

Quando estava terminando, Glória chegou com uma cara de apressada. Já estava arrumada. Percival a perguntou onde iria tão cedo e ela disse que iria fazer uns exames, mas que não se preocupasse, pois era “coisa de mulher”. Ele então lhe contou sobre a nora de “Seu” Geraldo e de como ficara triste por não poder ajudá-lo. Terminaram o café, ele se despediu e saiu para trabalhar.

Glória só esperou que Percival saísse para ligar para Beto. Estava decidida a resolver as coisas e pediu que ele viesse a sua casa. Precisava de um lugar discreto para falar com ele. Ultimamente, andava com medo de que o “marido” descobrisse sobre o “amante”. Diria a “Seu” Geraldo que ele era advogado do escritório onde trabalhava. Enfim, pensaria em alguma coisa.

Beto chegou ao Ed.Coliseu por volta de 10h. Glória já havia interfonado para “Seu” Geraldo, avisando que deveria deixá-lo subir. E assim ele fez. Achou um pouco estranho, mas ultimamente não prestava atenção nessas coisas como antes. Tinha muitas outras preocupações.

Quando a porta do elevador abriu, Glória já estava na entrada do apartamento aguardando Beto. Ele tentou beijá-la, mas ela se desviou. “Entre” - ela disse - “Precisamos conversar”.

Beto percebeu que seria um diálogo difícil, mas tinha uma carta na manga.

Ouviu Glória calado. Ela falou de seu sentimento por ele, mas também de como se sentia mal por trair Percival. Pontuou que precisava ficar bem com a própria consciência e que só conseguiria isso se não se encontrassem mais.

Quando Glória terminou, Beto pegou o celular e lhe mostrou uma foto de Percival sentado em um bar com uma mulher loira, na casa dos 20 e poucos anos, dona de uma exuberância que Glória nunca tivera.

“Ele já sai com ela há um tempo” - disse Beto.

Glória ficou transtornada “Eu sabia. Essa história de viajar um final de semana todo mês, esse trabalho mal explicado... eu sabia! Consciência pesada. Por isso, ele fez essa porcaria de seguro”.

Beto só registrou a palavra “seguro”. Ele a interrompeu. “Espera aí, que história de seguro é essa?”

Glória então pegou a apólice na bolsa e a mostrou a Beto.

Estava com muita raiva de Percival. No final, ele era como todos os outros, pensou. Foi então que Beto lançou a idéia no ar: “E se acontecesse um acidente?”. Poderiam fugir para o exterior com aquele dinheiro, ninguém nunca descobriria. A palavra “fugir” soou bem aos ouvidos de Glória. Tinha muitos motivos para querer ir embora, começar de novo e, na verdade, nunca fora apaixonada por Percival.

Precisariam de um comparsa para dar sumiço no corpo. Beto sabia que Glória, assim como ele, não conseguiria fazer isso. Sabia também que tinha de fazê-lo, ou seria um homem morto na semana seguinte, quando Beterraba fosse atrás dele para receber o empréstimo.

Glória então se lembrou do porteiro. Não gostava dele, mas Percival havia lhe contado a sua situação e a necessidade de levantar 30 mil para ajudar o filho. Pediu a Beto que falasse com ele. Aquele velho fofoqueiro certamente faria qualquer coisa pelo dinheiro.

“Seu” Geraldo ouviu atentamente a proposta de Beto. Aqueles 30 mil fariam muita diferença na vida de sua família. Salvaria a vida do neto, e recuperaria a admiração e o amor do filho. Mas gostava de Percival, pois era o único morador ali que o tratava como gente. Lembrou do desespero do filho e aceitou a proposta do “amante da antipática”.

A sexta-feira estava tranquila no escritório de Percival. A única preocupação era quanto a dívida de Adalberto. Tinha um pressentimento de que aquilo não acabaria bem. Beterraba chegou e lhe perguntou sobre a loira com quem tinha saído do escritório no final do dia anterior.

- Que pedaço de mau caminho, hein chefe?
- Deixa de bobagem beterraba. Era só uma proposta ruim de negócios. Você sabe que só tenho olhos pra Glória.

Nenhum dos dois sabia que a tal loira recebera 500 reais de Beto para inventar a história da “filial” e fazer participação especial nas fotos de Percival.

Beto e Glória combinaram de resolver a questão no sábado. Beto se encarregaria de comprar o necessário e Glória, de fazer Percival tomar o “drink”. Mas era preciso manter as aparências. Enquanto Beto organizava tudo, Glória iria para o trabalho normalmente.



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