21 de dez. de 2021

Nico.


De Marcelo Espindola:

 Nico estava ansioso, era seu primeiro dia como papai noel do shopping neste ano.

Já fazia esse trabalho há muito tempo e sentia uma alegria genuína em fazê-lo, já nem aparava a barba, agora 

totalmente branca. Se lembrou um pouco constrangido de precisar pintá-la quando começou a fazer o papel do "bom velhinho" antes mesmo de se aposentar,  sentia um orgulho verdadeiro da cada vez mais protuberante pança que ostentava com um grande sorriso no rosto.

Os óculos de aro de metal tinham sido comprados seguindo o modelo que vira em um filme de Natal, e ficavam guardados o ano todo, ele que tinha uma miopia que o acompanhava desde sempre, usava de janeiro a novembro um outro de aro de tartaruga, não achava correto usar os mesmos de Noel, e também não queria ser reconhecido, levava seu trabalho a sério. 


Há alguns anos ele já se convencera de que o melhor que tinha a fazer durante o mês de Dezembro era só sair de casa vestido de bom velhinho, afinal isso lhe poupava as trocas de roupas em pequenos banheiros que não combinavam com sua "circunferência" , também o ajudava a entrar no personagem que cada vez mais ele acreditava ter nascido pra encarnar, este ano então que o shopping havia produzido os cartazes de Natal com uma foto sua do dezembro anterior ele se sentia o Noel verdadeiro!


Ele também ficava todo orgulhoso de ser chamado de papai-noel por adultos e crianças, estas então enchiam seu coração de alegria. 


Nem se incomodava mais com os gaiatos  de plantão que sempre tinham uma piadinha velha na ponta da língua.


E lá ia ele todo paramentado no seu fusquinha 74 "vermelho Ferrari" que os funcionários do shopping haviam apelidado de "trenó" e para o qual já deixavam uma vaga separada nesta época do ano com o mesmo cartaz escrito com lápis de cor vermelho de natais anteriores "TRENÓ DO PAPAI NOEL" Nico olhava para eles com um olhar afetuoso e soltava seu melhor "hô hô hô"...


Naquela manhã ele estacionou seu trenó e se encaminhou para a praça de eventos do shopping, onde ficaria pelas próximas 12 horas atendendo as crianças  distribuindo balas, abraços, sorrisos e tirando incontáveis fotos.


Pensou em como aquilo lhe fazia bem, faria de graça se o shopping lhe pedisse isso.


Ia caminhando lentamente para seu "trono de veludo vermelho" cumprimentando os funcionários das lojas que começavam a chegar, com seu melhor sorriso-noel, alguns respondiam, outros apenas sorriam e havia os que o ignoravam. Ele não se importava, afinal seu trabalho era esse despertar o espírito de natal nas pessoas.


Os duendes só chegariam depois do almoço, mas quem se importava com duendes, as pessoas queriam mesmo era ver o papai noel.


Mas ao chegar a praça de eventos viu que seu trono não estava onde costumava ficar, em seu lugar haviam colocado um grande boneco de papai noel e alguns embrulhos de presente num tamanho desproporcional, era uma decoração que Nico achou de muito mau gosto.


Como não apareceu ninguém para lhe auxiliar, ele resolveu se encaminhar à administração do shopping para saber onde seu trono ficaria neste Natal.


Foi recebido por uma secretária com cara de poucos amigos que mal disfarçou um olhar de deboche ao vê-lo em sua fantasia. 


Aguardou por alguns minutos até que alguém viesse atendê-lo,  olhando preocupado para o relógio temeroso de que o shopping abrisse antes que ele estivesse em sua posição, não queria decepcionar as crianças. 


Depois de algum tempo veio um rapaz que Nico não conhecia para falar com ele.


  • Então seu Nico, meu nome é Júnior quero me desculpar em nome do shopping, a nova administração resolveu não contar com os serviços de um papai noel este ano, sabe como é, né?  Crise , pandemia, enfim houve uma falha e nós acabamos não te avisando,  mas a Gerência me pediu para lhe entregar esta cesta de Natal como agradecimento por tantos anos de bons serviços prestados.


E entregou a Nico uma grande cesta embrulhada em papel celofane vermelho onde ele podia ver castanhas, panetone, uma garrafa de espumante, além de uma lata de goiabada, um pacote de balas sortidas e uma caixa de bombons.


Nico saiu ainda desconcertado pelo shopping com seu "saco de brinquedos" que na verdade era um saco com várias caixas de papelão vazias em uma mão e sua grande cesta, conquistada por bons serviços prestados na outra.


Entrou em seu "trenó" não sem antes depositar no banco traseiro o saco do papai noel e no banco do carona sua cesta. Despediu-se do manobrista com um aceno tímido quando este liberou sua saída sem pagamento e saiu sem muita pressa no velho fusquinha, 


Nico não tinha família, tivera algumas namoradas na juventude mas a vida difícil e o trabalho pesado nunca lhe deixaram muito tempo para estas coisas. Pensava agora se tinha feito o certo, sua última chance com o amor fora alguns anos antes de começar a trabalhar como papai noel, conhecera Vânia em uma festa de fim de ano da construtora na qual trabalhava, ela o convidou para um baile no fim de semana seguinte e ele nunca apareceu, tinha muito medo de se decepcionar, além do mais achava que estava velho pra namorar.


Depois disso só se sentia feliz de verdade nos Dezembros , quando vestia a roupa vermelha e as pessoas o olhavam de uma maneira diferente, na verdade ele se sentia diferente, os adultos sorriam para ele sem reservas e as crianças o abraçavam.

 

Nico esquecia durante um mês como era dura a sua solidão. 


No caminho para casa avistou uma praça aonde algumas crianças brincavam e decidiu ser papai noel uma última vez, quando chegasse em casa tiraria a fantasia que o acompanhara por tantos natais e talvez nunca mais voltasse a vesti-la.


Estacionou seu fusca vermelho e desceu com sua cesta de Natal e seu saco de brinquedos as crianças olhavam com deboche e surpresa para aquele visitante inesperado, era um bairro pobre e elas estavam por ali a maioria sozinhas, algumas estavam acompanhadas dos irmãos mais velhos que jogavam futebol na quadra e outras dos avós que se sentavam em um canto da praça para disputar partidas de damas.


Nico se sentou em um banco e ficou esperando que as crianças fossem até ele, não demorou muito para que os pequenos que estavam no parquinho começassem a chegar, ele os abraçava e distribuía bombons, que tirava de sua cesta, quando estes acabaram passou a distribuir as balas, e cada vez chegavam mais crianças, Nico era só alegria, estava de verdade sendo um pouco papai noel para aquelas crianças, quando os maiores viram as balas, também se aproximaram,  claro sem o mesmo encantamento dos pequenos, mas também crianças.


Quando acabaram todas as balas e chocolates Nico que de tão feliz até se esquecera da demissão do shopping começou a se preparar para ir embora mas neste momento sentiu um leve puxão em seu casaco vermelho, ao olhar para trás viu um garoto pequeno de 6 ou talvez 7 anos de idade com um par de óculos fundo de garrafa e roupas muito simples que não lhe falou nada apenas sorriu em sua direção. 


  • Hô,hô, hô !

Disse Nico para o garoto e olhou para sua cesta procurando algum agrado, mas ele já tinha distribuído todo o seu conteúdo para as outras crianças só restava o espumante que ele pensou em tomar a noite para comemorar aqueles momentos na praça.


  • Meu filho, papai noel já distribuiu todos os presentes, me desculpe.


O garoto então o abraçou e perguntou. 


  • Qual é o seu nome?


  • Papai noel.


  • Não, o seu nome de verdade, pode me falar eu não vou contar para as outras crianças.


Nico então colocou as mãos em concha em volta da boca e falou baixinho no ouvido do garoto.


  • Nicolau, mas fica sendo um segredo nosso.


O garoto então colocou o indicador sobre os lábios em sinal de silêncio e disse.


  • Pode ficar tranquilo, seu segredo está bem guardado comigo, o senhor sabia que Nicolau é o verdadeiro nome do papai noel? Então o senhor deve mesmo ser ele.


Disse isso e lhe deu mais um abraço, já ia saindo quando Nico o chamou. 


  • Espere garoto, você não me disse seu nome.

  • Jesus, mas não o de verdade, minha mãe me contou a história dele e disse que me deu este nome porque ele representa todo o bem que há no mundo, eu não entendi direito mas gosto de me chamar assim, agora eu preciso ir.

Feliz Natal papai noel.

  • Feliz Natal, garoto. Você é mesmo um bom menino!


Nico chegou em casa ainda com um sorriso no rosto, tirou sua roupa de papai noel e a guardou cuidadosamente,  quem sabe o que o próximo Natal lhe reservava, comeu um sanduíche de queijo e abriu o espumante, tomou quase toda a garrafa enquanto olhava de sua janela alguns meninos brincando na rua, estava visivelmente emocionado aquele seria um natal especial, talvez no dia seguinte pegasse o pouco que Restava de seu 13° e comprasse alguns pacotes de balas para distribuir naquela mesma praça ou talvez não, o dia tinha sido tão especial que talvez o melhor fosse encerrar por ali sua carreira de "bom velhinho" pois pela primeira vez em tantos anos ele se sentira de verdade como o papai noel! E aquele era o melhor presente de Natal que ele poderia querer!