5 de out. de 2025

1985 (parte 2)

 De Marcelo Espindola


Entrei em casa sem sequer olhar para trás, tranquei a porta com 2 voltas da chave para garantir que aquele pesadelo permanecesse do lado de fora.

A boca estava muito seca, certamente efeito da bebedeira, mas também do meu espanto diante de tudo o que estava acontecendo. 

Quanto mais eu tentava me lembrar o que havia acontecido, mais me confundia, afinal quem eu era, eu me lembrava de coisas básicas como a escola, os amigos da infância e adolescência e os bailes do clube comercial, onde eu tinha tomado os primeiros porres ainda muito jovem. Na verdade jovem demais…

Tateei os bolsos em busca do meu smartphone e não o encontrei, também não estava em nenhum outro lugar, encontrei apenas minha carteira com a data da primeira habilitação em 1987 e a última renovação em 2024 com validade até 2029.

O rádio relógio que eu confundira com uma “Alexa” continuava ligado e sintonizado na rádio Mundial.

Agora anunciava o mais recente sucesso de Elton John, “Nikita”.

Resolvi procurar nos bolsos da calça que estava ainda jogada ao lado da cama por alguma coisa que me fornecesse uma pista do que estava acontecendo. Minhas lembranças continuavam sendo só as da minha  infância e adolescência. Malditos “Rabos de Galo”!

Encontrei no bolso dianteiro um papel meio amassado com um endereço anotado, Rua dos Correios, 88.

E também uma data,  22/10/1985, 19:37hs.

A rua dos correios era a rua do meu prédio, 88 o número do antigo casarão abandonado a data e a hora eu ainda ia descobrir.

No rádio agora tocava o tema dos Gonnies! De Cyndi Lauper!

Resolvi sair para dar uma volta pela cidade, era como visitar o passado e como eu era do “futuro” desse mesmo lugar, se fosse reconhecido por alguém não saberia como reagir, coloquei um par de óculos escuros e um boné e me aventurei de novo pela porta do saguão que continuava deserto.

Desci a rua observando as pessoas de forma discreta, ainda com muito medo de ser relacionado ao meu eu 40 anos mais jovem.

Eu era como um extraterrestre passeando incógnito num planeta distante, olhava os carros dos anos 70 e 80 nas ruas, rapazes de macacões jeans e tênis Reebok e meninas de calças boca de sino e blusas coloridíssimas!  

No ar aquela alegria e leveza tão típicas dos anos 80. 

O dia passou rápido, parei para almoçar na minha lanchonete preferida que vendia a melhor coxinha do mundo em 1985!

Troquei a refeição por duas delas com catupiry, tudo acompanhado de uma coca-cola na garrafa de vidro (a melhor), a tarde já estava no finalzinho quando saí da lanchonete e caminhei mais um pouco pelo centro da cidade passando por vários rostos conhecidos. 

A noite começava a cair, tratei de me desfazer de parte do meu “disfarce” tirei os óculos escuros mas mantive o boné, me sentei por alguns minutos em um dos bancos de cimento que havia na avenida principal e pensei no quanto era louco o que estava acontecendo!

Agora eu entendia tudo, de alguma forma eu tinha “viajado no tempo” e o portal eram os escombros do velho grupo e por mais que aquele lugar me desse calafrios eu sabia que tinha que entrar lá, e sabia até a hora eu tinha que atravessar o “portal” exatamente as  19:37hs. E eu ia!

Exatamente às 19:36 hs eu estava em frente ao que ainda restava do velho grupo escolar. Contando os segundos…

Quando o relógio marcou o horário exato eu entrei, do outro lado não estavam as paredes semi-demolidas do grupo nem o saguão moderno e vazio do meu futuro prédio.

Do “outro lado” estava rolando a festa flashback, a mesma que eu me lembrava da noite anterior. (A da carraspana homérica)! Por impossível que fosse eu tinha voltado a mesma festa, não outra parecida, não uma continuação como se fosse um festival com várias noites, não!

Era sim a mesma festa, as mesmas pessoas, a mesma banda, tudo exatamente como na noite anterior.

Até as músicas estavam se sucedendo na mesma sequência, e como da outra vez eu não reconhecia ninguém ali ao contrário da cidade onde eu vira vários rostos conhecidos da minha juventude.

Aos primeiros acordes de “Shout” do Tears for Fears, avistei a barraca de drinks “Máquina do tempo” eu caminhei decidido para ela mas ela estava diferente de como eu me lembrava. Menor, mais escura e com muito menos opções de bebidas, na verdade assim que eu encostei no balcão o velho que havia me atendido sorridente na noite anterior me serviu um “Rabo de galo” duplo sem me dizer uma palavra, com uma expressão grave ele me olhou e disse apenas:

  •  Boa sorte!

E desapareceu atrás de uma cortina que separava a área interna da barraca.

Sem sequer olhar para o conteúdo do copo, eu o engoli de uma vez só! 

“Love of my life, you've hurt me

You've broken my heart, and now you leave me…”

Acordei na minha velha cama ouvindo a voz inconfundível de Freddie Mercury no rádio, ou seria na “Alexa” estava muito confuso para pensar nisso agora! 

Me levantei com dificuldades, as costas doíam mais que o normal, fui com muito esforço até o banheiro. O xixi saiu sob muitos protestos, mas saiu…

Imaginei que uma bela água fria no rosto me faria bem. 

E assim fiz lavei o rosto vigorosamente, molhei a nuca e os cabelos, que me pareceram ralos.

Depois tateei a parede ao lado do espelho buscando a toalha, assim que enxuguei totalmente o rosto, fitei o espelho, e não acreditei no que vi. Era o rosto de um velho.

Ainda em choque perguntei a “Alexa”:

  • Que dia é hoje Alexa?

Ela respondeu:

  • Dia 22 de outubro.
  • Que ano Alexa? Que ano!!!???
  • 2045…

1985…. (Parte 1)

 


De Marcelo Espindola:


Foi uma noite estranha, além de ter ficado até muito tarde naquela festa flashback eu tinha evidentemente exagerado na bebida, afinal, não era sempre que se tinha uma programação daquele nível na cidade. Banda de sucesso no eixo Rio/ S.P. tocando os grandes clássicos do passado e open bar com uma grande variedade de  drinks retrô (rabo de galo, Hi-Fi e até Keep-cooler um refresco de vinho com uvas e morangos).


Música da melhor qualidade em um evento feito para cinquentões, a banda tocava só as melhores dos anos 80. 

Que, aliás, era minha década preferida em tudo. Cinema, música, acho que até a Coca-Cola dos anos 80 era mais gostosa.


Eu sequer me lembrava de como havia chegado em casa, agora que estava começando a abrir os olhos e ouvir de longe o som da “Alexa” que a propósito também não me lembrava de ter comandado. 


Eu só conseguia distinguir um locutor cuja voz lembrava a do Big Boy, lendário apresentador da rádio mundial, dizendo: 

“Hello crazy people” você está sintonizado na rádio Mundial A.M, ZYJ 463 e vamos de música! Com vocês Madonna com o super som “Material girl”!


E logo começaram os primeiros acordes na voz aguda da rainha do pop! (Benditos programas de flashback)... 


-Alexa, desligar!


Nada, Madonna continuava a plenos pulmões…


-Alexa, já falei pra parar!


 Seguia tocando…


A cabeça, parecia que ia explodir, me levantei para ir ao banheiro, na esperança de que um “xixi” matinal e uma água fria no rosto me trouxessem de volta a condição humana, o xixi foi um sucesso inusitado, agora uma boa água no rosto era tudo que eu queria e precisava.


Abri a torneira do lavatório até o final e a água jorrou com uma força inesperada, respingando em meu pijama (pensei comigo). Eu realmente devo ter chegado em casa muito mal, fazia anos que eu não vestia um pijama para dormir.


Com as mãos em concha, peguei um bocado generoso de água fria e molhei, rosto, cabelo e nuca. Repetindo nem sei quantas vezes esse ritual, quando já estava quase me afogando, tateei a parede até encontrar a toalha que esfreguei vigorosamente no rosto até secar toda a água.


Abri os olhos devagar e ainda bastante zonzo, quase desmaiei ao ver que o rosto no espelho não era o meu mas de um rapaz de 17, 18 anos e eu era um homem de 57, quase 58.


Será que eu ainda estava dormindo sob efeito dos muitos “Rabos de galo” ingeridos na noite anterior e aquilo não passava de um sonho? Só podia ser isso. Tratei de levar meu espírito de volta para a cama, acreditando que meu corpo continuava lá. Que pesadelo…


Dormi por mais nem sei quantas horas, e fui acordado pelos primeiros acordes de “Take on me” tocando alto na Alexa. 

Meio dormindo, meio acordado comecei a me lembrar do estranho pesadelo causado pelo excesso de “rabos de galo” me sentei na beira da cama e fiquei tentando acessar a memória da última vez que tive uma ressaca daquele nível, não pude me lembrar acho que aquela tinha sido uma “carraspana” inédita!


Me apoiei na mesinha de cabeceira para me levantar sem maiores riscos e fui pé por pé até o banheiro. Com a bexiga quase estourando, me preparei para um segundo recorde de vazão matinal, mas, qual nada, tudo tinha voltado ao normal.


Ainda impressionado com o pesadelo que jurava ter tido, acordado, mais cedo. Me aproximei do espelho com as pernas bambas, mas tudo o que vi foram meus cabelos grisalhos e arrepiados e minhas olheiras turbinadas pela ressaca “homérica”.


Pela primeira vez em alguns anos, fiquei feliz de me ver no espelho…

Resolvi então sair para comer alguma coisa e ficar frente a frente com o mundo.


Eu morava em um apartamento pequeno no centro da minha cidade, ela também uma cidade pequena, aquele tipo de cidade que demole qualquer pretensão de privacidade, você sempre encontra alguém conhecido, não importa a que horas ou em que lugar você esteja.

Isso, por um lado, incomoda um pouco. Mas, por outro lado, traz um certo conforto e uma sensação de nunca estar totalmente sozinho!


Entrei no elevador e saí com a expectativa de tomar um café expresso daqueles de levantar defunto e autoestima, já que a minha não estava nos seus melhores dias. 


Por mais que tentasse eu não me lembrava de quase nada da noite anterior a não ser a música muito alta e a barraca de drinks “Máquina do tempo”, onde eu tinha tomado muito mais  “rabos de galo” do que deveria.


Saí na portaria do meu prédio e tive certeza de que estava enlouquecendo! Parecia que eu tinha entrado em outra dimensão, a cidade era outra, ou melhor, era a mesma, mas em outro tempo.


Olhei para trás e o prédio de onde eu acabara de sair tinha desaparecido, em seu lugar estava o casarão abandonado do velho grupo escolar, cujas ruínas haviam permanecido ali por anos desvalorizando o centro da cidade.


Eu me lembrava daquele velho prédio “assombrado”, na minha adolescência eu e meus amigos nos desafiávamos a entrar lá nas madrugadas frias de sábado, depois dos bailes do clube comercial, para provar nossa coragem!


Ainda atordoado comecei a olhar em volta as pessoas em suas roupas antigas, rostos familiares que eu não via há muitos anos e que me olhavam de volta como quem olha para um estranho meio esquisito.


Sem entender o que estava acontecendo e sem saber bem o que fazer, fui acho que instintivamente recuando 1,2,3 passos até que de repente eu estava no saguão do meu prédio de novo! 

O saguão estava do mesmo jeito que eu me lembrava, só que absolutamente vazio. 


Corri para o elevador em pânico, apertei o botão do sétimo andar, (o último do prédio) e rezei para que ele subisse rápido e me levasse de volta a segurança da minha casa.


Das duas uma, ou eu estava ainda dormindo e aquilo era o pesadelo mais real da história ou por algum motivo impossível de se explicar, o tempo voltara 40 anos exceto para mim e para o meu apartamento que continuava exatamente como era (ou seria) em 2025.


Continua…

18 de fev. de 2023

Manhã de carnaval



De Marcelo Espindola:



Tum, tum, tum, tchicumbum…

Tum, tum, tum, tchicumbum…

Tum, tum, tum, pararatchicumbum…

Só podia ser sonho, aquela batucada devia estar apenas na sua cabeça!

Mas não parava e o som ficava cada vez mais alto.

Tum, tum, tchicumbum…

Tum, tum, tchicumbum…


Abriu os olhos com algum esforço e viu que estava deitado numa soleira de loja, não se lembrava de como chegara ali e muito menos quanto tempo se passara depois de ter adormecido.


O sol nos olhos o fez abaixar a cabeça entre as pernas para se proteger da luz , cabeça que aliás latejava em intervalos regulares e em pulsos cada vez mais fortes.


Passaram-se alguns minutos de intensa batucada até que acordasse completamente, ainda atordoado tateou os bolsos em busca do celular e da carteira que ele imaginou estarem ali, mas não estavam.


Conseguiu finalmente se levantar e olhar em volta mas estava muito zonzo para entender qualquer coisa , era uma manhã de sol e ainda havia uma bateria tocando alto e ritmado além de muitos foliões , a maioria com cara de ter passado a noite por ali.


Começou a caminhar quase que instintivamente na direção oposta à que estavam os ritmistas.


A cabeça parecia prestes a explodir a ponto de não conseguir raciocinar direito; pensou que deveria ter tomado um porre homérico para estar naquele estado! 


Enquanto andava, procurava por algum rosto ou lugar conhecido. Qualquer referência familiar cairia muito bem naquele momento, tinha a sensação de que estava em um bairro onde nunca tinha estado antes, mais que isso tinha a sensação de que estava em uma cidade desconhecida, mas como isso podia ser possível?


Pensou, já que estava sem dinheiro e documentos em ir andando para casa, só havia um problema; não fazia a menor ideia de onde morava.


Foi então que teve uma ideia, iria a uma delegacia dar queixa do roubo de seus documentos e eles certamente saberiam como ajudá-lo.


Perguntou a um dos muitos ambulantes que estavam por ali vendendo bebidas onde ficava a delegacia mais próxima, segundo o rapaz era uma caminhada de uns 15 minutos até lá.

Estava com muita sede mas de bolsos vazios, pensou então que tudo se resolveria e ele voltaria para pagar sua dívida, se aproveitou então de um descuido do ambulante para pegar uma garrafa de água e sair correndo…


Na verdade nem precisava ter  corrido tanto,  o vendedor aparentemente não se importara com o pequeno furto.

 

Percebendo isso voltou a caminhar normalmente, sua cabeça o impedia de continuar correndo. 


Ao dobrar a esquina deu de cara com a delegacia, era um prédio enorme que ocupava todo um lado da rua, aliviado foi entrando sem muita cerimônia.


Para entrar precisou  empurrar a pesada porta de madeira que rangeu as velhas dobradiças sob o próprio peso, ele então se deparou com um saguão vazio, estranhamente vazio, com muita poeira sobre os móveis velhos como se ninguém entrasse ali a muito tempo!


Dentro do prédio reinava um silêncio absoluto mas da rua ele ainda podia ouvir a batucada,

Tum, tum, tchicumbum…

Tum, tum, tchicumbum…


Viu sobre o balcão empoeirado uma campainha velha e empoeirada, ato contínuo se pôs a toca-lá insistentemente na esperança de que alguém aparecesse!


Atrás do balcão havia uma porta de venezianas que começou a se abrir lentamente, deixando entrar um nesga de Luz no saguão empoeirado .


  • Olá , você até que chegou aqui bem rápido. A água estava gelada?


Não era possível a aparência era de outra pessoa , um homem mais velho de semblante sereno ; mas mesmo assim ele sabia que era o mesmo que lhe apontara o caminho da delegacia e que o deixara levar a água mesmo sem pagar.


  • Sim a água estava ótima, mas o que você está fazendo aqui? E porque parece outra pessoa?


  • Mas eu sou o mesmo, talvez você esteja me vendo com outros olhos, não é Estandárcio?


Estandárcio! O simples som de seu nome sendo dito em voz alta o fez lembrar de tudo, de sua mãe que o batizara assim pelo fato dele ter nascido em uma terça-feira gorda e também por ser ela própria uma foliã entusiasmada, daquelas de desfilar todos os anos e na ala das passistas !


Se lembrou também do seu amigo que trabalhava para o tráfico e lhe ofereceu um servicinho extra no carnaval, ele precisava muito daquele dinheiro e afinal se não o fizesse outra pessoa faria, não dava para mudar isso. Se lembrou de ter aproveitado a noite dos desfiles para levar sua “encomenda”.


Se lembrou também que estava com muito medo e que bebeu algumas doses para conseguir cumprir sua missão. 


Se lembrou de subir o morro com seu pacote e se lembrou dos tiros assim que chegou lá, muitos tiros …


Se lembrou de ter corrido muito sem olhar para trás e se lembrou de ser atingido, se lembrou da vista escurecendo, escurecendo, até não se lembrar de mais nada…

Tum, tum, tum, tchicumbum…

Tum, tum, tum, tchicumbum…

Tum, tum, tum, pararatchicumbum…


Parecia que a batucada era dentro da sua cabeça, abriu os olhos e viu que era de manhã, o sol em seus olhos o fez esconder o rosto. A cabeça doía tanto que mal podia raciocinar; sobressaltado se lembrou de passar a mão na camisa encharcada, constatou aliviado que era apenas suor e bebida derramada ali. 


Saiu caminhando cambaleante e também aliviado, conferiu seus documentos e eles estavam lá onde deveriam; Estandárcio Pereira estava escrito em sua habilitação bem ao lado de uma foto sua bem recente! 


Estava se sentindo muito bem apesar da ressaca, mas que sonho maluco tinha sido aquele… 


Não via a hora de voltar para casa, tomar um banho e dormir até quarta-feira…


A boca continuava seca, então pediu uma garrafinha de água mineral ao primeiro ambulante que viu.


  • Está bem gelada ?

 

Perguntou o vendedor.


Estandárcio arregalou os olhos!


  • É você, não é? Foi com você que eu falei em meu sonho!


  • Que nada rapaz, eu nunca te vi antes. Isso é efeito da bebida, depois de um bom banho e uma boa noite de sono essas coisas saem da sua cabeça!


  • É pode ser, talvez eu só esteja mesmo precisando descansar. E quanto é a garrafinha de água?


  • Essa é por conta da casa…

 

E quando já havia uma distância segura completou.


  • …Estandárcio…






21 de dez. de 2021

Nico.


De Marcelo Espindola:

 Nico estava ansioso, era seu primeiro dia como papai noel do shopping neste ano.

Já fazia esse trabalho há muito tempo e sentia uma alegria genuína em fazê-lo, já nem aparava a barba, agora 

totalmente branca. Se lembrou um pouco constrangido de precisar pintá-la quando começou a fazer o papel do "bom velhinho" antes mesmo de se aposentar,  sentia um orgulho verdadeiro da cada vez mais protuberante pança que ostentava com um grande sorriso no rosto.

Os óculos de aro de metal tinham sido comprados seguindo o modelo que vira em um filme de Natal, e ficavam guardados o ano todo, ele que tinha uma miopia que o acompanhava desde sempre, usava de janeiro a novembro um outro de aro de tartaruga, não achava correto usar os mesmos de Noel, e também não queria ser reconhecido, levava seu trabalho a sério. 


Há alguns anos ele já se convencera de que o melhor que tinha a fazer durante o mês de Dezembro era só sair de casa vestido de bom velhinho, afinal isso lhe poupava as trocas de roupas em pequenos banheiros que não combinavam com sua "circunferência" , também o ajudava a entrar no personagem que cada vez mais ele acreditava ter nascido pra encarnar, este ano então que o shopping havia produzido os cartazes de Natal com uma foto sua do dezembro anterior ele se sentia o Noel verdadeiro!


Ele também ficava todo orgulhoso de ser chamado de papai-noel por adultos e crianças, estas então enchiam seu coração de alegria. 


Nem se incomodava mais com os gaiatos  de plantão que sempre tinham uma piadinha velha na ponta da língua.


E lá ia ele todo paramentado no seu fusquinha 74 "vermelho Ferrari" que os funcionários do shopping haviam apelidado de "trenó" e para o qual já deixavam uma vaga separada nesta época do ano com o mesmo cartaz escrito com lápis de cor vermelho de natais anteriores "TRENÓ DO PAPAI NOEL" Nico olhava para eles com um olhar afetuoso e soltava seu melhor "hô hô hô"...


Naquela manhã ele estacionou seu trenó e se encaminhou para a praça de eventos do shopping, onde ficaria pelas próximas 12 horas atendendo as crianças  distribuindo balas, abraços, sorrisos e tirando incontáveis fotos.


Pensou em como aquilo lhe fazia bem, faria de graça se o shopping lhe pedisse isso.


Ia caminhando lentamente para seu "trono de veludo vermelho" cumprimentando os funcionários das lojas que começavam a chegar, com seu melhor sorriso-noel, alguns respondiam, outros apenas sorriam e havia os que o ignoravam. Ele não se importava, afinal seu trabalho era esse despertar o espírito de natal nas pessoas.


Os duendes só chegariam depois do almoço, mas quem se importava com duendes, as pessoas queriam mesmo era ver o papai noel.


Mas ao chegar a praça de eventos viu que seu trono não estava onde costumava ficar, em seu lugar haviam colocado um grande boneco de papai noel e alguns embrulhos de presente num tamanho desproporcional, era uma decoração que Nico achou de muito mau gosto.


Como não apareceu ninguém para lhe auxiliar, ele resolveu se encaminhar à administração do shopping para saber onde seu trono ficaria neste Natal.


Foi recebido por uma secretária com cara de poucos amigos que mal disfarçou um olhar de deboche ao vê-lo em sua fantasia. 


Aguardou por alguns minutos até que alguém viesse atendê-lo,  olhando preocupado para o relógio temeroso de que o shopping abrisse antes que ele estivesse em sua posição, não queria decepcionar as crianças. 


Depois de algum tempo veio um rapaz que Nico não conhecia para falar com ele.


  • Então seu Nico, meu nome é Júnior quero me desculpar em nome do shopping, a nova administração resolveu não contar com os serviços de um papai noel este ano, sabe como é, né?  Crise , pandemia, enfim houve uma falha e nós acabamos não te avisando,  mas a Gerência me pediu para lhe entregar esta cesta de Natal como agradecimento por tantos anos de bons serviços prestados.


E entregou a Nico uma grande cesta embrulhada em papel celofane vermelho onde ele podia ver castanhas, panetone, uma garrafa de espumante, além de uma lata de goiabada, um pacote de balas sortidas e uma caixa de bombons.


Nico saiu ainda desconcertado pelo shopping com seu "saco de brinquedos" que na verdade era um saco com várias caixas de papelão vazias em uma mão e sua grande cesta, conquistada por bons serviços prestados na outra.


Entrou em seu "trenó" não sem antes depositar no banco traseiro o saco do papai noel e no banco do carona sua cesta. Despediu-se do manobrista com um aceno tímido quando este liberou sua saída sem pagamento e saiu sem muita pressa no velho fusquinha, 


Nico não tinha família, tivera algumas namoradas na juventude mas a vida difícil e o trabalho pesado nunca lhe deixaram muito tempo para estas coisas. Pensava agora se tinha feito o certo, sua última chance com o amor fora alguns anos antes de começar a trabalhar como papai noel, conhecera Vânia em uma festa de fim de ano da construtora na qual trabalhava, ela o convidou para um baile no fim de semana seguinte e ele nunca apareceu, tinha muito medo de se decepcionar, além do mais achava que estava velho pra namorar.


Depois disso só se sentia feliz de verdade nos Dezembros , quando vestia a roupa vermelha e as pessoas o olhavam de uma maneira diferente, na verdade ele se sentia diferente, os adultos sorriam para ele sem reservas e as crianças o abraçavam.

 

Nico esquecia durante um mês como era dura a sua solidão. 


No caminho para casa avistou uma praça aonde algumas crianças brincavam e decidiu ser papai noel uma última vez, quando chegasse em casa tiraria a fantasia que o acompanhara por tantos natais e talvez nunca mais voltasse a vesti-la.


Estacionou seu fusca vermelho e desceu com sua cesta de Natal e seu saco de brinquedos as crianças olhavam com deboche e surpresa para aquele visitante inesperado, era um bairro pobre e elas estavam por ali a maioria sozinhas, algumas estavam acompanhadas dos irmãos mais velhos que jogavam futebol na quadra e outras dos avós que se sentavam em um canto da praça para disputar partidas de damas.


Nico se sentou em um banco e ficou esperando que as crianças fossem até ele, não demorou muito para que os pequenos que estavam no parquinho começassem a chegar, ele os abraçava e distribuía bombons, que tirava de sua cesta, quando estes acabaram passou a distribuir as balas, e cada vez chegavam mais crianças, Nico era só alegria, estava de verdade sendo um pouco papai noel para aquelas crianças, quando os maiores viram as balas, também se aproximaram,  claro sem o mesmo encantamento dos pequenos, mas também crianças.


Quando acabaram todas as balas e chocolates Nico que de tão feliz até se esquecera da demissão do shopping começou a se preparar para ir embora mas neste momento sentiu um leve puxão em seu casaco vermelho, ao olhar para trás viu um garoto pequeno de 6 ou talvez 7 anos de idade com um par de óculos fundo de garrafa e roupas muito simples que não lhe falou nada apenas sorriu em sua direção. 


  • Hô,hô, hô !

Disse Nico para o garoto e olhou para sua cesta procurando algum agrado, mas ele já tinha distribuído todo o seu conteúdo para as outras crianças só restava o espumante que ele pensou em tomar a noite para comemorar aqueles momentos na praça.


  • Meu filho, papai noel já distribuiu todos os presentes, me desculpe.


O garoto então o abraçou e perguntou. 


  • Qual é o seu nome?


  • Papai noel.


  • Não, o seu nome de verdade, pode me falar eu não vou contar para as outras crianças.


Nico então colocou as mãos em concha em volta da boca e falou baixinho no ouvido do garoto.


  • Nicolau, mas fica sendo um segredo nosso.


O garoto então colocou o indicador sobre os lábios em sinal de silêncio e disse.


  • Pode ficar tranquilo, seu segredo está bem guardado comigo, o senhor sabia que Nicolau é o verdadeiro nome do papai noel? Então o senhor deve mesmo ser ele.


Disse isso e lhe deu mais um abraço, já ia saindo quando Nico o chamou. 


  • Espere garoto, você não me disse seu nome.

  • Jesus, mas não o de verdade, minha mãe me contou a história dele e disse que me deu este nome porque ele representa todo o bem que há no mundo, eu não entendi direito mas gosto de me chamar assim, agora eu preciso ir.

Feliz Natal papai noel.

  • Feliz Natal, garoto. Você é mesmo um bom menino!


Nico chegou em casa ainda com um sorriso no rosto, tirou sua roupa de papai noel e a guardou cuidadosamente,  quem sabe o que o próximo Natal lhe reservava, comeu um sanduíche de queijo e abriu o espumante, tomou quase toda a garrafa enquanto olhava de sua janela alguns meninos brincando na rua, estava visivelmente emocionado aquele seria um natal especial, talvez no dia seguinte pegasse o pouco que Restava de seu 13° e comprasse alguns pacotes de balas para distribuir naquela mesma praça ou talvez não, o dia tinha sido tão especial que talvez o melhor fosse encerrar por ali sua carreira de "bom velhinho" pois pela primeira vez em tantos anos ele se sentira de verdade como o papai noel! E aquele era o melhor presente de Natal que ele poderia querer!