De Marcelo Espindola
Entrei em casa sem sequer olhar para trás, tranquei a porta com 2 voltas da chave para garantir que aquele pesadelo permanecesse do lado de fora.
A boca estava muito seca, certamente efeito da bebedeira, mas também do meu espanto diante de tudo o que estava acontecendo.
Quanto mais eu tentava me lembrar o que havia acontecido, mais me confundia, afinal quem eu era, eu me lembrava de coisas básicas como a escola, os amigos da infância e adolescência e os bailes do clube comercial, onde eu tinha tomado os primeiros porres ainda muito jovem. Na verdade jovem demais…
Tateei os bolsos em busca do meu smartphone e não o encontrei, também não estava em nenhum outro lugar, encontrei apenas minha carteira com a data da primeira habilitação em 1987 e a última renovação em 2024 com validade até 2029.
O rádio relógio que eu confundira com uma “Alexa” continuava ligado e sintonizado na rádio Mundial.
Agora anunciava o mais recente sucesso de Elton John, “Nikita”.
Resolvi procurar nos bolsos da calça que estava ainda jogada ao lado da cama por alguma coisa que me fornecesse uma pista do que estava acontecendo. Minhas lembranças continuavam sendo só as da minha infância e adolescência. Malditos “Rabos de Galo”!
Encontrei no bolso dianteiro um papel meio amassado com um endereço anotado, Rua dos Correios, 88.
E também uma data, 22/10/1985, 19:37hs.
A rua dos correios era a rua do meu prédio, 88 o número do antigo casarão abandonado a data e a hora eu ainda ia descobrir.
No rádio agora tocava o tema dos Gonnies! De Cyndi Lauper!
Resolvi sair para dar uma volta pela cidade, era como visitar o passado e como eu era do “futuro” desse mesmo lugar, se fosse reconhecido por alguém não saberia como reagir, coloquei um par de óculos escuros e um boné e me aventurei de novo pela porta do saguão que continuava deserto.
Desci a rua observando as pessoas de forma discreta, ainda com muito medo de ser relacionado ao meu eu 40 anos mais jovem.
Eu era como um extraterrestre passeando incógnito num planeta distante, olhava os carros dos anos 70 e 80 nas ruas, rapazes de macacões jeans e tênis Reebok e meninas de calças boca de sino e blusas coloridíssimas!
No ar aquela alegria e leveza tão típicas dos anos 80.
O dia passou rápido, parei para almoçar na minha lanchonete preferida que vendia a melhor coxinha do mundo em 1985!
Troquei a refeição por duas delas com catupiry, tudo acompanhado de uma coca-cola na garrafa de vidro (a melhor), a tarde já estava no finalzinho quando saí da lanchonete e caminhei mais um pouco pelo centro da cidade passando por vários rostos conhecidos.
A noite começava a cair, tratei de me desfazer de parte do meu “disfarce” tirei os óculos escuros mas mantive o boné, me sentei por alguns minutos em um dos bancos de cimento que havia na avenida principal e pensei no quanto era louco o que estava acontecendo!
Agora eu entendia tudo, de alguma forma eu tinha “viajado no tempo” e o portal eram os escombros do velho grupo e por mais que aquele lugar me desse calafrios eu sabia que tinha que entrar lá, e sabia até a hora eu tinha que atravessar o “portal” exatamente as 19:37hs. E eu ia!
Exatamente às 19:36 hs eu estava em frente ao que ainda restava do velho grupo escolar. Contando os segundos…
Quando o relógio marcou o horário exato eu entrei, do outro lado não estavam as paredes semi-demolidas do grupo nem o saguão moderno e vazio do meu futuro prédio.
Do “outro lado” estava rolando a festa flashback, a mesma que eu me lembrava da noite anterior. (A da carraspana homérica)! Por impossível que fosse eu tinha voltado a mesma festa, não outra parecida, não uma continuação como se fosse um festival com várias noites, não!
Era sim a mesma festa, as mesmas pessoas, a mesma banda, tudo exatamente como na noite anterior.
Até as músicas estavam se sucedendo na mesma sequência, e como da outra vez eu não reconhecia ninguém ali ao contrário da cidade onde eu vira vários rostos conhecidos da minha juventude.
Aos primeiros acordes de “Shout” do Tears for Fears, avistei a barraca de drinks “Máquina do tempo” eu caminhei decidido para ela mas ela estava diferente de como eu me lembrava. Menor, mais escura e com muito menos opções de bebidas, na verdade assim que eu encostei no balcão o velho que havia me atendido sorridente na noite anterior me serviu um “Rabo de galo” duplo sem me dizer uma palavra, com uma expressão grave ele me olhou e disse apenas:
- Boa sorte!
E desapareceu atrás de uma cortina que separava a área interna da barraca.
Sem sequer olhar para o conteúdo do copo, eu o engoli de uma vez só!
“Love of my life, you've hurt me
You've broken my heart, and now you leave me…”
Acordei na minha velha cama ouvindo a voz inconfundível de Freddie Mercury no rádio, ou seria na “Alexa” estava muito confuso para pensar nisso agora!
Me levantei com dificuldades, as costas doíam mais que o normal, fui com muito esforço até o banheiro. O xixi saiu sob muitos protestos, mas saiu…
Imaginei que uma bela água fria no rosto me faria bem.
E assim fiz lavei o rosto vigorosamente, molhei a nuca e os cabelos, que me pareceram ralos.
Depois tateei a parede ao lado do espelho buscando a toalha, assim que enxuguei totalmente o rosto, fitei o espelho, e não acreditei no que vi. Era o rosto de um velho.
Ainda em choque perguntei a “Alexa”:
- Que dia é hoje Alexa?
Ela respondeu:
- Dia 22 de outubro.
- Que ano Alexa? Que ano!!!???
- 2045…
