Conto "Vale da Colina", de Marcelo Espindola




Aprígio gostava do shopping, do ar-condicionado, do cheiro das lojas e da possibilidade de comprar o que precisasse no horário que decidisse, mesmo no fim de semana.

Claro que havia inconvenientes, os corredores cheios de crianças e casais que, evidentemente, mal se suportavam, mas fugiam da própria realidade no cineminha de domingo.

Ultimamente, tinha ficado pior, com a liberação de se levar animais de estimação, o que na cabeça de Aprígio, não fazia nenhum sentido, mas ele também não se incomodava muito com aquilo, desde que não o importunassem.

Naquele domingo, ficou ainda mais aliviado ao entrar no shopping "Pinheiros Gêmeos", que, como o próprio nome indicava, tinha em seu estacionamento dois grandes pinheiros preservados da fazenda que existia ali, antes de sua construção. Os pinheiros, muito comuns na América do Norte, eram representados no Brasil pela família das araucárias, mais vistas no sul, mas também presentes no sudeste. Eram dois pinheiros imponentes, com mais de 20 metros de altura e 2 de diâmetro.

A cidade de Vale da Colina era muito agradável, encravada obviamente em um vale na Serra da Mantiqueira, e muito movimentada por conta de sua localização privilegiada, próxima de duas capitais importantes. Com cerca de 200 mil habitantes, era o que se podia chamar de um bom lugar para se viver.

Aprígio, que tinha morado os últimos anos em Santa Catarina, se acostumara com o clima mais frio do sul e se sentia bastante desconfortável nos dias mais quentes. Aquilo definitivamente mexia com seu humor, mas no Shopping Pinheiros Gêmeos, a temperatura era sempre de 20 graus e ele gostava daquilo.

Havia se aposentado no grande frigorífico onde fora supervisor de logística por 10 anos, no Centro de Distribuição Sul.
Sua primeira decisão foi a de se mudar para Minas, estado que conheceu a trabalho, cerca de 5 anos antes, e onde em sua visita mais recente antes da aposentadoria, conheceu Érica.

Era extremamente reservado. Na verdade, não fazia muita questão de se relacionar além do estritamente necessário. Em suas viagens de trabalho, ia sempre sozinho e como tinha a confiança de seu chefe, isso nunca era questionado.

Não tinha muita paciência para os bate-papos forçados de colegas, nem para ouvir seus pequenos dramas e traições. Aquilo o deixava extremamente enfadado.

Na última dessas viagens solitárias a trabalho, Aprígio, que gostava de rotinas, estava novamente hospedado no apartamento 1407 do Hotel Delorean. E, como sempre, na hora do jantar se encaminhou ao restaurante, que ficava no segundo andar. Mas, chegando lá, verificou que ele estava fechado para reforma e teve que pedir um uber para ir até o restaurante indicado pelo porteiro, o "Bella Donna". Logo que chegou, Aprígio foi recebido por Érica, a dona do lugar, que foi muito solícita e atenciosa, apresentando-lhe o cardápio e indicando um bom vinho para acompanhar seu Fettucine.

Aprígio saiu do restaurante encantado. Érica, além de uma grande anfitriã, era também uma mulher muito atraente, na faixa dos 40 anos. Portanto, pelo menos 10 anos mais jovem que ele.

Voltou na noite seguinte para o jantar. Fez questão de se sentar na mesma mesa da noite anterior, essas coisas tinham uma importância incomum para ele. Mas, naquela noite, Érica não havia ido trabalhar, segundo o garçom que o atendeu. Estava resolvendo problemas particulares. Ele ficou bastante frustrado com aquele desencontro. Jantou rapidamente, pagou a conta e foi para o hotel. No dia seguinte, voltou a Santa Catarina.

Os dias se sucediam sem muitas novidades no sul. Aprígio, que sempre fora avesso à interação social, estava cada vez mais recolhido. Lembrava-se sempre de Érica, de cada detalhe de sua roupa, dos cabelos loiros presos em um coque com um palito de madeira a segurá-los, o avental branco com a logo do restaurante, se lembrava até de seu discreto perfume. Precisava vê-la de novo.

Começou então a planejar a própria aposentadoria. Ele agora tinha um objetivo na vida, Érica. Pensava que se morasse em Vale da Colina, teria uma chance de conquistá-la. Aprígio tinha começado a trabalhar muito jovem para pagar os próprios estudos e, tão logo conseguiu seu primeiro emprego, começou a contribuir para se aposentar.
Tinha valido a pena, pois agora, aos 50 e poucos anos, estava prestes a conseguir seu intento. Juntaria a isso as economias de uma vida de muito trabalho e pouca diversão e, certamente, poderia perseguir seu sonho.

Nunca tivera uma namorada de verdade, apenas alguns encontros, na maioria fiascos. Com isso, se tornara cada vez mais recluso, achava que passaria o resto da vida sozinho, mas Érica aparecera para mudar isso. Pelo menos, era o que ele acreditava. Deu entrada nos papéis da aposentadoria e começou sua contagem regressiva.

Apenas 3 meses após o pedido, sua aposentadoria foi deferida. Levou mais 1 mês organizando a mudança para Vale da Colina e ali estava ele no seu primeiro fim de semana como morador de Minas. Andava pelas lojas em busca de alguns utensílios para a casa nova, que ainda faltavam. Havia despachado sua mudança por uma transportadora e o apartamento que alugara no centro da cidade ainda estava bastante bagunçado, mas o que ele queria mesmo naquele domingo era encontrar um presente para Érica. À noite, ele iria vê-la no "Bella Donna".
Na verdade, ele sonhara com aquele reencontro cada noite dos últimos meses, nada poderia sair errado.

Seu olhar foi fisgado pela vitrine de uma loja, onde reinava um vestido vermelho longo com uma grande fenda na coxa direita e, na parte de cima, duas pequenas tiras de tecido de seda que cobriam os seios da manequim e deixavam as costas nuas. Não pôde conter a excitação ao imaginar Érica usando aquele vestido, sem se importar muito com o preço (bastante salgado, por sinal). Comprou a peça, que foi colocada em uma caixa de presente emoldurada com um grande laço de cetim dourado.
Pediu um uber e foi para casa se preparar para a grande noite.

Chegou ao “Bella Donna” às 20h em ponto. O restaurante estava bastante cheio. Aprígio pediu à moça da recepção que guardasse a sacola com o presente que comprara e seguiu para a única mesa vazia na casa. Não demorou para que ele visse Érica saindo da cozinha com uma garrafa de vinho que entregou ao cliente da mesa do outro lado do salão. Ficou bastante incomodado ao vê-la conversando com aquele cara, mas sabia que fazia parte do trabalho. Ela então se virou e sorriu olhando em sua direção.
Aprígio sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha e se levantou para cumprimentá-la. Então ela veio e lhe deu um abraço muito apertado, que o deixou sem defesas.

- Que bom te ver por aqui de novo, Aprígio! Você esteve aqui na noite seguinte a que nos conhecemos, né? Os meninos me falaram.

- Pois é, no dia seguinte eu voltei a Santa Catarina.

- Então, mas eu tinha certeza que nos veríamos de novo.

Aprígio estava absolutamente encantado por seu novo objeto de adoração. Ficou ali de pé segurando as mãos de Érica e tentando prestar atenção no que ela falava, mas na verdade, só conseguia prestar atenção às próprias sensações, ao cheiro do perfume, ao toque macio das mãos e ao seu hálito de hortelã.

- Vou pedir a alguém para atendê-lo, mas não vá embora depois do jantar. Vamos tomar uma garrafa de vinho juntos para comemorarmos nosso reencontro.

As mesas foram sendo desocupadas uma a uma. Somente Aprígio não dava sinais de se levantar. De vez em quando, Érica passava em frente à sua mesa, lhe lançava um olhar e deixava um rastro de perfume. Aprígio não via a hora de ficarem sozinhos para o tão esperado vinho.

O ponteiro do relógio girava lentamente. Por volta de onze e meia, o casal da última mesa ocupada fora embora e Aprígio, é claro, pediu a conta. Enquanto Érica ia até eles, Aprígio aproveitou para ir à recepção e pegou o presente que havia comprado no shopping naquela tarde. Não pôde deixar de perceber o olhar de Érica o acompanhando enquanto ele fazia isso. Ela então levou o casal até a saída, voltou à cozinha e dispensou o cozinheiro, que saiu rapidamente sem se despedir. Ela entrou em seu escritório, onde estava escrito na porta "Gerência".

Restava só Aprígio na penumbra do salão vazio quando Érica saiu do escritório soltando os cabelos e deixando seu jaleco sobre o balcão, onde pegou uma garrafa de vinho e duas taças e caminhou em sua direção.

- O que temos nessa caixa misteriosa?

- É um presente que comprei pra você hoje à tarde.

Ela então pegou a caixa rapidamente, desmanchou o laço e tirou de lá o vestido. Colocou-o na frente do próprio corpo e disse:

- Nossa! Que lindo! Acho que eu deveria experimentar.

- Eu adoraria vê-la com ele. - disse Aprígio.

- Eu aposto que sim! - respondeu Érica, já puxando-o pela mão.

Ela então abriu uma porta ao lado de seu escritório, que ficava meio oculta atrás de um biombo, sempre puxando Aprígio pela mão. Subiu um lance de escada e abriu uma segunda porta, que dava na sala de sua casa.

Quando a abriu, o olhar de Aprígio foi atraído para uma poltrona de tecido vermelho, que tinha do seu lado uma mesinha redonda com um abajur de luz bem fraca e amarelada, dando uma tonalidade quente à sala que a deixava bastante aconchegante.
Érica o conduziu até a poltrona e lhe disse:

- Me espere aqui. Vou me arrumar e já volto.

Passaram-se não mais que 15 minutos que, para Aprígio, pareceram uma eternidade. Então, a porta do quarto se abriu e ela saiu de lá. Estava estonteante com o vestido que ele lhe comprara, um sapato de salto alto e uma taça de vinho em cada mão.

Ela veio na direção de Aprígio, que se apressou em levantar para abraçá-la. Ela deu um passo atrás e disse: calma apressadinho, primeiro o vinho.
Ele pegou a taça de sua mão e disse olhando-a fixamente, quase sem piscar.

- Você está tão linda quanto eu imaginei que ficaria!

Ergueu sua taça como em um brinde e tomou um generoso gole de vinho.

- Érica, eu deixei tudo para trás para vir ao seu encontro. Agora, nada pode nos separar! Nada mesmo!

Disse isso e virou o restante do conteúdo de sua taça. Na mesma hora, sentiu sua cabeça girar e uma forte sonolência.

Aprígio acordou com a cabeça latejando e sentindo muito frio. Teve a sensação de que não conseguia se mexer.
Olhou para o teto e viu uma calha bastante antiga, com duas lâmpadas fluorescentes de luz muito branca, que ofuscaram sua visão por um momento. Em seguida, começou a olhar em volta. Viu que estava deitado em uma espécie de maca, sem nenhuma roupa e o pior, seus pés e mãos estavam amarrados.

Ele estava apavorado e não conseguia entender porque estava ali nu e preso àquela maca. Na verdade, parecia um pesadelo, só que ele estava cada vez mais acordado.

Olhou em volta e viu que estava em um cômodo todo azulejado de branco e com alguns móveis antigos de metal, que lembravam mobiliário de hospital de filme de terror.

Havia uma bancada com uma bandeja, coberta com um tecido branco e uma pequena portinha na parede atrás dele.
Do outro lado, havia uma pesada porta de metal pintada de verde.

Desesperado, ele tentou gritar, mas a voz não saiu. Só então percebeu que estava também amordaçado. Ouviu um barulho metálico. Era o ferrolho da porta de ferro sendo puxado, e logo em seguida, o som das dobradiças enferrujadas girando lentamente sob o peso da porta.

Foi quando Érica entrou, vestindo um avental de couro marrom, que a cobria até os pés. Os cabelos estavam novamente presos e o afeto que vira em seus olhos havia dado lugar a um misto de desprezo e ódio. Ela caminhou até a maca onde Aprígio estava preso, descobriu a bandeja que estava ao lado e pegou uma seringa, daquelas de vidro com o êmbolo de metal, que continha um líquido transparente. Se aproximou e o virou de lado, sem que ele tivesse como esboçar qualquer reação. Ele só sentiu a fisgada na base da coluna vertebral e uma sensação de queimação no local. Ela o virou de volta bruscamente para a posição em que estava antes, se sentou, pegou o celular e começou a mexer despreocupadamente nele.

Depois de 5 minutos, Aprígio já não sentia frio. Na verdade, não sentia nada. Érica então deixou o celular em cima da mesa e, sem dizer uma palavra, pegou um isqueiro prateado no bolso e o acendeu, aproximando a chama de sua perna. Ele não sentiu absolutamente nada, exceto o cheiro da própria carne queimando.

Érica calçou um par de luvas amarelas, daquelas que se usa para fazer faxina, e começou a procurar alguma coisa na bandeja.

- Você sabe muito bem porque está aqui, e sabe também que merece isso. Na noite em que nos conhecemos, eu tinha certeza que era mais um, igual a todos os outros antes de você. O que lhe fez pensar que tinha o direito de voltar trazendo este vestido de puta e esperando que eu satisfizesse suas taras? Você é só mais um homenzinho patético que pensa que mulheres são objetos. Mas hoje, você vai aprender, apesar de já ser tarde demais.

Érica terminou seu discurso e se virou para Aprígio com uma espécie de arco de serra na mão. Ele não conseguia falar e nem se mexer. Só sentia as lágrimas lhe escorrendo pelo rosto, enquanto era esquartejado vivo.

Ela acabou de colocar as partes de Aprígio no freezer que ficava ao lado da bancada onde estavam seus instrumentos e lavou tudo com água e sabão. Colocou as roupas dele e o vestido que lhe dera com embalagem e tudo em um saco de lixo preto, que colocaria para fora junto com o lixo do restaurante no dia seguinte.

Apagou a luz e fechou a pesada porta de ferro. Depois, empurrou de volta para o lugar a cristaleira que a cobria inteiramente.

Tomou um banho demorado e uma xícara de chocolate quente. Feito isso, se deitou e, pouco antes de adormecer, se lembrou de como ficou nervosa na primeira vez. Esboçou um sorriso e dormiu.

5 comentários:

  1. Simplesmente surpreendente e aterrorizante. Muito bem escrito. Parabéns 👏😘

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  2. Nossaaaaa! Aterrorizante e surpreendente! Arrasou! Parabéns!

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  3. E eu aqui, esperando a descrição de uma tórrida noite de amor!!!!!!
    Muito legal! Parabéns! Sou fã de finais que surpreendem!

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  4. Uau!
    Aterrorizante!
    Parabéns, Marcelo!

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  5. Os homens que se cuidem (rsrs). Psicopatas andam soltas por aí!

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Obrigado!