![]() |
(Sexta-feira)
Abriu os olhos lentamente, como se suas pálpebras estivessem coladas. A cabeça doía muito, aquela dor latejante que atrapalha a pensar. Olhou em volta, fazendo um grande esforço. Era evidente que estava em um quarto de hospital, em uma daquelas camas reclináveis e com alguns eletrodos ligados ao seu corpo, a pergunta era: como tinha ido parar ali?
A boca estava muito seca como se não bebesse água à dias, a memória acendia flashes sobre a névoa que ocultava sua história até ali.
Lembrou-se de um final de tarde quando começou a se sentir mal, lembrou-se também de vários rostos familiares mas ainda sem nomes, a ampará-lo quando teve a sensação de estar apagando.
Havia também algumas lembranças bastante tênues de uma ambulância e uma máscara com um tubo sendo colocada em seu rosto, depois disso mais nada.
Da posição onde estava podia ver uma mesa onde havia uma pequena jarra com água e alguns copos descartáveis, a sede era muito grande e ele resolveu tentar se levantar para ir até lá.
Tirou os eletrodos do seu peito e se apoiando na grade da cama se sentou, a cabeça girou e ele pensou que fosse desmaiar. Esperou um pouco até que o oxigênio chegasse a seu cérebro, e desceu lentamente da cama ainda se apoiando.
Foi palmeando a parede até a mesinha onde serviu-se de um copo com água, derramando mais do que acertando o alvo. Bebeu de um só gole e encheu um segundo copo, a cabeça doía muito e o estômago não recebeu bem aqueles dois copos de água, ele respirou fundo e foi em direção a porta do banheiro.
A sensação que teve ao esvaziar a bexiga foi de alívio e também de dor, aliás todo o seu corpo doía. Se virou para lavar as mãos e viu seu rosto no espelho, mal pôde acreditar no que via, estava diante de um homem de mais de 50 anos, ele não se lembrava de sua idade mas se lembrava do próprio rosto no espelho e aquele definitivamente não era seu rosto.
Passou as mãos molhadas no pescoço, no cabelo e na barba grisalhos e foi em direção à porta do corredor. Tentou girar a maçaneta mas sua mão escorregou e ela nem ameaçou abrir.
De repente se deu conta de que o "hospital" era absurdamente silencioso, na verdade desde o momento que acordou ele não ouviu um só ruído vindo de fora.
Andou trôpego até a persiana da parede ainda se sentindo tonto, e ao abri-la viu que não havia janela ali assim como no banheiro!
Foi tomado por uma sensação de medo. O que estaria acontecendo, porque o teriam trancado ali?
Mas estava muito fraco e cansado, logo se encostou na cama e pegou no sono.
Acordou ainda mais atordoado, fora um sono agitado, a sensação era de que haviam se passado apenas alguns minutos. Era impossível saber a hora, não haviam relógios no quarto ou qualquer fresta por onde se pudesse ver a luz do dia ou a falta dela.
Levantou-se com o corpo todo dolorido e caminhou até a porta que supunha dar para o corredor, bateu tão forte quanto permitiam suas poucas forças. A jarra de água estava seca, então bebeu um gole direto da torneira da pia.
Quem quer que estivesse lá fora devia imaginar que ele estava morto; será que não estava? Era uma possibilidade, ele poderia ter morrido e estava em uma espécie de "purgatório" .
Só tinha um jeito de descobrir, tinha que sair dali.
Pegou a cadeira que ficava ao lado da porta e passou a bater com ela contra a maçaneta na esperança de que esta se quebrasse e o libertasse daquele pesadelo. Ou na pior das hipóteses que alguém ouvisse o barulho e viesse para socorrê-lo, mas para sua decepção não aconteceu nem uma coisa, nem outra.
Tentava não pensar na fome, seu estômago já começava a doer.
Seu único alento era a cama, não sabia quanto tempo tinha passado nela, mas o fato é que seus ossos pareciam se encaixar perfeitamente àquele colchão forrado com lona. Começou a vasculhar as gavetas em busca de alguma coisa para comer, encontrou apenas uma caixa de remédio, que lhe pareceu familiar.
Sabia que já tinha tomado aqueles comprimidos antes, mas não se lembrava quando e nem pra quê eles serviam, abriu então a caixa e começou a ler a bula.
Gostou do que leu era um medicamento indutor do sono, e a bula avisava que só deveria ser usado em caso de insônia severa por ser muito forte, também havia a recomendação de nunca usar mais de um comprimido pois poderia causar queda da pressão arterial e morte súbita …
Morte súbita, aquilo lhe soou muito reconfortante dentro de suas poucas opções, pegou então o último copo descartável na mesinha e o encheu com água da pia do banheiro, foi até a persiana sem janela e a fechou.
Lhe pareceu reconfortante imaginar que havia uma janela por trás dela, pegou todo os seis comprimidos que estavam na caixa e depois de se deitar tomou um a um acompanhados de pequenos goles de água, então apagou a pequena luminária ao lado da cabeceira e ficou esperando que o doce torpor do "indutor de sono" o livrasse de todas as dores e dúvidas, nos últimos instantes começou a se lembrar de rostos sem nome e de lugares que não podia identificar.
Sua última lembrança foi de uma criança linda (talvez sua filha?) Aquela lembrança o encheu de paz e isso era tudo que ele precisava agora.
(Quinta-feira)
Era muito triste ver Pedro ali sem qualquer expectativa de recuperação, Luciana colocou na gaveta da mesinha de cabeceira uma caixa de comprimidos, abraçou Pedro e falou em seu ouvido: liberte-se, sua saída desse sofrimento está na gaveta do seu lado.
Ela teve a certeza que ele a ouvira, apesar de não ter esboçado nenhuma reação, beijou seu rosto delicadamente e se foi com a certeza de que tinha feito o que era certo.
(Sábado)
Jorge era o responsável por fazer a ronda na ala de neurologia todas as manhãs e normalmente era um trabalho tranquilo, os pacientes estavam geralmente dopados e em sono profundo.
Naquela manhã ao entrar no quarto 19 percebeu algo estranho: Pedro não estava dormindo como habitualmente, o quarto estava todo revirado, os eletrodos soltos e sua mão pendia para fora da cama acima de uma pequena caixa de comprimidos. Jorge checou os sinais de Pedro e constatou que ele não tinha pulso.
Da posição onde estava podia ver uma mesa onde havia uma pequena jarra com água e alguns copos descartáveis, a sede era muito grande e ele resolveu tentar se levantar para ir até lá.
Tirou os eletrodos do seu peito e se apoiando na grade da cama se sentou, a cabeça girou e ele pensou que fosse desmaiar. Esperou um pouco até que o oxigênio chegasse a seu cérebro, e desceu lentamente da cama ainda se apoiando.
Foi palmeando a parede até a mesinha onde serviu-se de um copo com água, derramando mais do que acertando o alvo. Bebeu de um só gole e encheu um segundo copo, a cabeça doía muito e o estômago não recebeu bem aqueles dois copos de água, ele respirou fundo e foi em direção a porta do banheiro.
A sensação que teve ao esvaziar a bexiga foi de alívio e também de dor, aliás todo o seu corpo doía. Se virou para lavar as mãos e viu seu rosto no espelho, mal pôde acreditar no que via, estava diante de um homem de mais de 50 anos, ele não se lembrava de sua idade mas se lembrava do próprio rosto no espelho e aquele definitivamente não era seu rosto.
Passou as mãos molhadas no pescoço, no cabelo e na barba grisalhos e foi em direção à porta do corredor. Tentou girar a maçaneta mas sua mão escorregou e ela nem ameaçou abrir.
De repente se deu conta de que o "hospital" era absurdamente silencioso, na verdade desde o momento que acordou ele não ouviu um só ruído vindo de fora.
Andou trôpego até a persiana da parede ainda se sentindo tonto, e ao abri-la viu que não havia janela ali assim como no banheiro!
Foi tomado por uma sensação de medo. O que estaria acontecendo, porque o teriam trancado ali?
Mas estava muito fraco e cansado, logo se encostou na cama e pegou no sono.
Acordou ainda mais atordoado, fora um sono agitado, a sensação era de que haviam se passado apenas alguns minutos. Era impossível saber a hora, não haviam relógios no quarto ou qualquer fresta por onde se pudesse ver a luz do dia ou a falta dela.
Levantou-se com o corpo todo dolorido e caminhou até a porta que supunha dar para o corredor, bateu tão forte quanto permitiam suas poucas forças. A jarra de água estava seca, então bebeu um gole direto da torneira da pia.
Quem quer que estivesse lá fora devia imaginar que ele estava morto; será que não estava? Era uma possibilidade, ele poderia ter morrido e estava em uma espécie de "purgatório" .
Só tinha um jeito de descobrir, tinha que sair dali.
Pegou a cadeira que ficava ao lado da porta e passou a bater com ela contra a maçaneta na esperança de que esta se quebrasse e o libertasse daquele pesadelo. Ou na pior das hipóteses que alguém ouvisse o barulho e viesse para socorrê-lo, mas para sua decepção não aconteceu nem uma coisa, nem outra.
Tentava não pensar na fome, seu estômago já começava a doer.
Seu único alento era a cama, não sabia quanto tempo tinha passado nela, mas o fato é que seus ossos pareciam se encaixar perfeitamente àquele colchão forrado com lona. Começou a vasculhar as gavetas em busca de alguma coisa para comer, encontrou apenas uma caixa de remédio, que lhe pareceu familiar.
Sabia que já tinha tomado aqueles comprimidos antes, mas não se lembrava quando e nem pra quê eles serviam, abriu então a caixa e começou a ler a bula.
Gostou do que leu era um medicamento indutor do sono, e a bula avisava que só deveria ser usado em caso de insônia severa por ser muito forte, também havia a recomendação de nunca usar mais de um comprimido pois poderia causar queda da pressão arterial e morte súbita …
Morte súbita, aquilo lhe soou muito reconfortante dentro de suas poucas opções, pegou então o último copo descartável na mesinha e o encheu com água da pia do banheiro, foi até a persiana sem janela e a fechou.
Lhe pareceu reconfortante imaginar que havia uma janela por trás dela, pegou todo os seis comprimidos que estavam na caixa e depois de se deitar tomou um a um acompanhados de pequenos goles de água, então apagou a pequena luminária ao lado da cabeceira e ficou esperando que o doce torpor do "indutor de sono" o livrasse de todas as dores e dúvidas, nos últimos instantes começou a se lembrar de rostos sem nome e de lugares que não podia identificar.
Sua última lembrança foi de uma criança linda (talvez sua filha?) Aquela lembrança o encheu de paz e isso era tudo que ele precisava agora.
(Quinta-feira)
Era muito triste ver Pedro ali sem qualquer expectativa de recuperação, Luciana colocou na gaveta da mesinha de cabeceira uma caixa de comprimidos, abraçou Pedro e falou em seu ouvido: liberte-se, sua saída desse sofrimento está na gaveta do seu lado.
Ela teve a certeza que ele a ouvira, apesar de não ter esboçado nenhuma reação, beijou seu rosto delicadamente e se foi com a certeza de que tinha feito o que era certo.
(Sábado)
Jorge era o responsável por fazer a ronda na ala de neurologia todas as manhãs e normalmente era um trabalho tranquilo, os pacientes estavam geralmente dopados e em sono profundo.
Naquela manhã ao entrar no quarto 19 percebeu algo estranho: Pedro não estava dormindo como habitualmente, o quarto estava todo revirado, os eletrodos soltos e sua mão pendia para fora da cama acima de uma pequena caixa de comprimidos. Jorge checou os sinais de Pedro e constatou que ele não tinha pulso.
Estava no trabalho há pouco tempo e não queria se complicar.
Então correu à sala da enfermeira-chefe e avisou do ocorrido, ela o tranquilizou e disse que isso era bastante comum naquela ala. Pegou então o telefone e ligou para a filha do paciente 19 a fim de comunicar o óbito, assim que desligou o telefone pediu que fosse feita a remoção do corpo à funerária anexa ao hospital e voltou a preencher seus formulários que eram muitos...
(Domingo)
Fernanda estava triste no funeral, convivera muito pouco com o pai. soube por sua mãe que um dia ele se sentiu mal no escritório onde trabalhava e nunca mais recuperou a consciência, ela tinha visto o pai nesse período pouquíssimas vezes e era sempre uma experiência devastadora, ele estava sempre dopado e nunca a olhava nos olhos, com o tempo ela deixou de ir.
No dia anterior recebeu um telefonema dizendo que o pai sofrera um infarto fulminante durante a noite e fora encontrado sem vida pela enfermagem logo pela manhã.
Ela tinha uma única lembrança dele, era um domingo de sol em um parque, ela corria em sua direção e se atirava em seus braços e aquele abraço foi sempre a melhor definição que pôde imaginar para a palavra amor…
Depositou flores no túmulo da mãe Luciana, que havia morrido três meses antes, ela nunca se recuperara do que havia ocorrido com Pedro. Fernanda esboçou um sorriso e pensou:
- Agora finalmente eles ficarão juntos..
Então correu à sala da enfermeira-chefe e avisou do ocorrido, ela o tranquilizou e disse que isso era bastante comum naquela ala. Pegou então o telefone e ligou para a filha do paciente 19 a fim de comunicar o óbito, assim que desligou o telefone pediu que fosse feita a remoção do corpo à funerária anexa ao hospital e voltou a preencher seus formulários que eram muitos...
(Domingo)
Fernanda estava triste no funeral, convivera muito pouco com o pai. soube por sua mãe que um dia ele se sentiu mal no escritório onde trabalhava e nunca mais recuperou a consciência, ela tinha visto o pai nesse período pouquíssimas vezes e era sempre uma experiência devastadora, ele estava sempre dopado e nunca a olhava nos olhos, com o tempo ela deixou de ir.
No dia anterior recebeu um telefonema dizendo que o pai sofrera um infarto fulminante durante a noite e fora encontrado sem vida pela enfermagem logo pela manhã.
Ela tinha uma única lembrança dele, era um domingo de sol em um parque, ela corria em sua direção e se atirava em seus braços e aquele abraço foi sempre a melhor definição que pôde imaginar para a palavra amor…
Depositou flores no túmulo da mãe Luciana, que havia morrido três meses antes, ela nunca se recuperara do que havia ocorrido com Pedro. Fernanda esboçou um sorriso e pensou:
- Agora finalmente eles ficarão juntos..
