Conto "Percival e o gato" - Capítulo 1

Eram 7h da manhã. A cidade inteira ainda dormia, mas Percival já estava preparando o café. Glória, com quem era casado, ficava sempre muito impressionada com sua animação.

Entre namoro e morar juntos, já eram quase sete anos de convivência e ela nunca o vira desanimado, gripado ou simplesmente com preguiça, como qualquer mortal.

Era sempre a mesma rotina. Quando ela acordava, ele já estava lá com a cozinha arrumada, banho tomado, café na mesa. Parecia nem dormir, pois gostava de ficar assistindo tevê até tarde, mas nunca deixava de cumprir com seus “deveres conjugais”.

De onde vinha tanta energia? - Glória se perguntava. E tome trabalhar. Saía de casa cedo e só voltava tarde da noite, sempre animado. E trabalhava sábado, feriado. Só não trabalhava domingo. Dizia que era o dia de namorarem.

E assim, a vida seguia.

Percival se orgulhava de nunca ter tido a carteira assinada. Dizia: “Não sirvo para ter patrão. Gosto de resolver as coisas do meu jeito”. E assim, ele fazia. Nunca faltava o dinheiro das contas.

Levavam uma vida boa, moravam em um bom apartamento alugado em um bairro perto de tudo. Glória o achava grande para os dois, mas Percival gostava de espaço. Dizia que, se não tivessem espaço, ele e Mephisto o gato que um dia trouxera para casa ainda filhote, brigariam.

No começo, Glória implicou um pouco com o novo morador e até com o nome que Percival inventara. Dizia: “Isso lá é nome de gato, Perci? Li que isso é nome do coisa ruim”.

Ele só ria e falava: “Não tem nada a ver com coisa ruim, nem coisa boa. Eu só vi num filme e gostei do nome”. E riam juntos.

De vez em quando, Percival viajava no fim de semana. Glória já se acostumara. Ele dizia que era a trabalho e isso lhe bastava. Confiava nele, quase sempre. Ela era secretária de um escritório de advocacia e trabalhava meio expediente, sempre à tarde. Fora isso, cuidava da casa, de Percival e de Mephisto. Era uma vida boa.

Eles haviam se conhecido meio por acaso. Glória o vira algumas vezes no supermercado, comprando cerveja, sempre às sextas-feiras. Gostava de seu sorriso largo e da maneira como falava com todos, como se fossem velhos conhecidos.

Percival, por sua vez, sempre que podia esperava para ir às compras nos finais de semana, pois sabia que a veria. Glória era uma mulher bonita de seus 30 e poucos anos, e ele na casa dos 40, pensava: “Com essa eu me casaria”.

Um dia começaram um bate-papo na fila. Ele a convidou para uma cerveja e, em pouco tempo, estavam namorando. Foi tudo muito rápido e se encontravam com frequência. Nenhum dos dois tinha muitos amigos e nem sentia falta disso. Estavam felizes juntos.

Depois de algum tempo assim, resolveram morar juntos. Procuraram um apartamento maior, que ainda assim custava bem menos do que os que moravam, somados. Juntaram o que tinham. Percival fez questão de comprar o que faltava e, em pouco tempo, mudaram-se.

O apartamento era em um prédio antigo, assim como o porteiro, “Seu” Geraldo, que chegava todos os dias cedinho e mantinha tudo organizado. Eram apenas cinco andares com dois apartamentos por andar e um único elevador.

“Seu” Geraldo limpava tudo, separava a correspondência e ainda se encarregava de colocar o lixo para fora. Além disso, sempre tinha uma piada pronta ou um caso pra contar.

A semana começou, como sempre. Logo cedo, o primeiro morador a descer foi Percival. Passou pelo saguão assobiando, como sempre fazia. “Seu” Geraldo nem reparava mais no fato dele passar direto. Era sempre assim quando estava cantarolando ou assobiando.

Provavelmente, voltaria logo com o saco de pães quentinhos.

E, em menos de dez minutos, lá vinha Percival: “Bom dia, “Seu” Geraldo! Trouxe café?”. “Seu” Geraldo já pegava o prato embaixo do balcão e Percival deixava um pão quentinho.

Depois, fofocavam um pouco. Percival dizia: “Jogar conversa fora, quem faz isso, não precisa de terapia”. Em seguida, subia, sempre pela escada. Ele e Glória moravam no último andar e tinham acesso privilegiado ao terraço que, apesar de ser de uso comum, ninguém usava. Quem tinha a chave eram só Percival e o porteiro.

“Seu” Geraldo gostava de Percival, pois lhe lembrava o único filho que morava em São Paulo e quase nunca vinha. Ele entendia. Vida para levar, ainda mais agora que o primeiro neto estava a caminho. Gostaria que sua esposa estivesse viva para o conhecer, mas já estava acostumado com a solidão. Estava aposentado há algum tempo, mas nem pensava em parar de trabalhar. “Ócio mata” - dizia sempre.

Olhou mais uma vez embaixo do balcão a carta do banco endereçada a Percival. Ela já estava ali há alguns dias. Ele sempre dava uma olhada na correspondência que chegava, mais por curiosidade. Gostava de saber da vida dos outros, a sua era muito vazia. Mas, ele nunca as abria. Analisava, via que eram contas em sua maioria e deixava no escaninho para os devedores.

Mas aquela carta o deixou muito curioso. Percival sempre falava que odiava bancos, pagava suas contas em dinheiro, trabalhava muito para não precisar de empréstimos, cartões e etc. Dizia que eram armadilhas, como vender a alma ao diabo. Uma vez que você aceitava um cartão, não se livrava mais dele.


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