Conto "Ed. Palladium" - Capítulo 5

Perceber que o fim da linha está próximo era uma sensação dúbia, de alívio e medo. Não se sabe o que virá depois: talvez o nada!

Heráclito concluía mais um retrato. Colocou os pincéis de lado e contemplou o quadro, perfeito como sempre. De súbito escutou barulho na porta da frente: uma chave girando e o rangido das dobradiças; alguém estava entrando no seu apartamento.

Ele virou e se deparou com uma mulher bonita que o olhava fixo. – Olá,... Senhora ou senhorita?... Como entrou na minha casa uma vez que a porta estava trancada?

- Eu tenho a chave!

- É evidente que a tem, mas como a conseguiu?

- Eu ajudava a senhora que vivia aqui antes, ela me deu.

- Ah, sim! A senhora Iracema: aquela velhinha encantadora com alma escravocrata! E qual seu nome?

- Me chamo Ísis! Sou filha do Doca!

- Hum; muito prazer! Se já estamos apresentados, por favor, devolva-me a chave e pode se retirar! – estendeu-lhe a mão.

Ísis atirou a chave no chão aos seus pés e falou: - Não! Ainda temos contas a acertar, seu assassino! Eu sei que foi você que matou meu pai e meu irmão!

- Oh-ho; isto é uma acusação grave! Até onde sei, seu pai faleceu no hospital, vitima da Covid, e seu irmão foi imprudente ao atravessar a rua. – deu de ombros: - Não tenho nada com isto!

- Não se faça de desentendido; foi você, eu sei! Meu irmão veio aqui falar com você naquela noite.

- Sim, de fato ele esteve aqui e conversamos. Mostrou-me uma declaração do Senador Macieira passando ao Doca a posse de um apartamentinho no térreo deste prédio. Pediu-me ajuda e sugeri que procurasse a justiça. – suspirou: - Ah, mas que coisa lamentável; o bondoso Senador Macieira não passou o documento em cartório; será que esqueceu ou se esquivou da chantagem dando-lhe um papel sem valor só para enganá-lo? – riso. – Como o senador zombou daquilo! Para evitar o escândalo da filha bastarda, Macieira daria ao Doca até uma cobertura na praia, e o pateta vendeu seu silêncio a troco de uma espelunca que fede à a mofo, e ainda juramentada num papel que não serve nem como papel higiênico!

- Meu pai era uma pessoa de boa fé, e acreditou!

Heráclito abanou a cabeça: - De que pai você esta falando? O porteirinho fofoqueiro, chantagista e burro, ou o porco moralista com chancela de senador que roubou milhões deste país, e colecionava amantes? Sua gênese não é muito recomendável, hein ísis? - furiosa, ela lhe apontou uma pistola. – Hei, cuidado! Você pode se machucar moça!

- Ordinário; limpe a boca pra falar do meu pai adotivo! Era um homem bom e honesto, ao contrário de você, que é um psicopata! Ou pensa que o senador não falava de você e sua falta de escrúpulos?

Ele riu: - O senador falando de escrúpulos? Isto é o que chamo de farsa! E abaixe esta arma, está me irritando!

- Chega! Me diga por que matou meu pai e meu irmão!... Ande seu filho da puta!

- Matei porque cruzaram meu caminho! Se o senador lhe passou minha ficha, já sabe que sou um psicopata que não guarda qualquer culpa ou remorso! E se quer saber: tem gente que é tão insignificante que só consigo ter pena de ver o desperdício no espaço que esses seres miseráveis ocupam!

Ela ergueu a arma na intenção de um disparo e gritou: - Canalha...! – então de repente Isis começou a apontar a pistola para sua própria cabeça. Ela tremia a mão tentando resistir, e Heráclito aproximou dizendo: - Então a boa samaritana vinha aqui apenas para auxiliar a doce Senhora Iracema; pobrezinha! – ele chegou mais perto, suas retinas violetas reluziam: - Conte esta lorota para os desavisados. Sei bem que vinha a este prédio, e ia direto à cobertura visitar sua mãe torta: Dona Adelaide! Não é verdade? – apavorada ela assentiu: - E o que a moça ia fazer na casa da mulher que a odiava por ser filha bastarda do seu marido com uma puta?

- Eu,... Eu vinha pedir ajuda,... Por causa do apartamento térreo. Meu irmão ia precisar dele pra morar,...

- Resposta errada! – cortou-a: - Você vinha para bajular a velhota da cobertura, e ver se assim conseguia um pouquinho da herança do papai senador, porque aquele sítio que você vive é mais uma bondade sem papel passado! – ele riu: - E Dona Adelaide me confidenciou que estava toda derretida pela filhota torta. Mais um pouquinho e a moça entrava no bolo da herança! Mas o que deu errado?

- Deu,... Porque você a matou! – respondeu quase em pânico.

- Nova resposta errada! – ele abanou a cabeça: - A moça esqueceu-se de combinar isto com seu irmãozinho drogado, que é filho do porteirinho! Então ele veio falar com dona Adelaide sobre o apartamentinho. Ela ficou muito irritada e mandou-o falar comigo porque sabia que ele poderia criar caso! – riu novamente: - Aí o tolo fui eu, porque a digníssima sabe que não consigo contemporizar com insolência. Ah, este ódio que não controlo! Eu acabei fazendo o trabalho sujo do mesmo modo que fazia para o senador Macieira e, como dizem os jovens, eu passei o rodo geral para puxar a sujeira ao esgoto; é para isto que eu sirvo! – o dedo de Isis começou a tremer no gatilho: - A moça também está me aborrecendo; o que vai me impedir agora de mandá-la ao encontro dos seus entes queridos?

- Eu vou impedir! – Era Adônis que entrara pela porta encostada, de arma em punho apontada à cabeça de Heráclito, que olhou de lado e disse: - Uau! Os mocinhos andam armados por aqui! Isto é coisa de fascistas hein?

- Cale a boca e pare de fazer isso com ela ou lhe enfio uma bala na cabeça!

Heráclito fez um gesto rápido e Isis caiu desacordada numa poltrona. – O aconteceu com ela? – perguntou Adônis aflito.

- A moça está muito nervosa, precisa relaxar! – num relance, Heráclito segurou a arma e a tomou das mãos de Adônis, que se afastou no susto.

- Se não sabe usar armas, não use! Mas este lugar é cada vez mais surpreendente; por que um pacato professor aposentado com pinta de hippie da velha guarda tem um revólver? – apontou a arma á Adônis: - Isto aqui não é coisa de gente de bem! – ele não respondeu e Heráclito continuou: - Você o adquiriu para dar cabo do amante de sua mulher, não foi?

- Não!... Quem lhe disse isto?

- O porteiro! – gargalhou: - Era muito fácil destravar a língua do Doca; bastava lhe arreganhar os dentes!

-... Ele não podia ter feito isto,...

- Para você ver como as pessoas são falsas! Ele contou também que você ficou tão deprimido que tentou se matar com um tiro na cabeça,... E errou! – mais uma gargalhada: - Como se erra um tiro na cabeça? Virando o cano da arma para o lado! Ah amigo: desde que deitei meus olhos em você, só consegui enxergar fracasso e derrota. – aproximou mais: - Porém, logo que cheguei á este predinho infecto, eu notei que você me olhava muito, mas não me pareceu que era gay! – riso: - Então olhava o quê? Responde?

- Eu percebi o psicopata que se esconde por trás desta capa de sucesso! É isto que te incomodou, né? Eu estava vendo a verdade!

- Fantástico, ele percebeu o óbvio! – suspirou: - Vamos, diga-me algo que eu não sei,... Ou melhor, algo que você pensa que eu não sei! – continuaram a se encarar: - Você viu em mim o que você queria ser: rico, bem sucedido, admirado,... Não foi isto que te incomodou? É a burguesia que fede, mas pode comprar perfumes de Paris, invadindo o seu espaço!

Adônis retrucou com raiva: - Eu não sinto inveja de nada disto!... Gosto do que sou.

- É melhor gostar né? Foi o que lhe sobrou!

- Agora é minha vez: o que você veio fazer aqui no nosso prédio infecto, que ao que parece é bastante inferior ao que considera bom. Apenas para matar?

- Inferior? Isto aqui é um lixo que não passa de um mausoléu parado no tempo, repleto de gente medíocre e vazia. É uma caricatura de um passado glamoroso! Mas devo reconhecer que você é astuto: então, vamos a verdade: fui chamado aqui pela Dona Adelaide que me propôs um excelente negócio. Um daqueles que ela aprendeu com o porco do senador. – piscou o olho: - Ela obteve uma informação privilegiada de que toda esta área será desapropriada pelo Governo Federal para abertura de uma malha de viadutos, mas ainda é sigiloso. – riu com zombaria: - Eles adoram esta palavra em Brasília! Então, eu adquiri este e mais dois apartamentos e dona Adelaide botaria para fora seus inquilinos. O resto eu,... Por assim dizer, persuadiria a darem o fora! Quando começassem as obras, o governo nos compraria esse pardieiro pagando o metro quadrado mais caro do que se fosse á orla do Leblon! – deu de ombros: - Alguém nos gabinetes certamente levaria uma rachadinha, para usar um termo da moda!

- Então agora eu também pergunto: O que deu errado no seu acordo com a Dona Adelaide?

- Já começou errado! – abanou a cabeça: - Quando vi Dona Iracema aqui; ah, foi como uma comporta de ódio que depois de aberta eu não consigo mais controlar. Qualquer coisinha me deixa possesso! Odeio que mintam para mim, ou me usem!

- Mas ao que parece você foi bem pago pelo uso do seu ódio, não é, senhor doutor Procurador da República?

- É verdade,... Até uns tempos atrás eu achava que sim,... Mas hoje, percebo que fiz muito barato! – abanou a cabeça: - Me ensinaram a usar, mas não me explicaram como se controla o ódio! – olhou a arma: - Bela pistola, meio antiquada como seu dono! – olhou Adônis: - Mas será eficaz? – apontou o quadro que acabara de fazer, era seu próprio retrato: - Eis o retrato do que você odeia porque representa o mundo que repudia pela frente, mas inveja no íntimo. Eu sei o que sou: um psicopata sem sentimentos. Matar não me diz nada. E você Adônis? Sabe quem é?... Há algo além do homem recalcado e frustrado que viu a esposa se jogar para cima de um sujeito tão fracassado quanto você, e que ainda lhe olhou do mesmo jeito que faço agora; de cima? Um homem que nem conseguiu se matar? – riso: - Nem o suicídio foi capaz de levar adiante porque ficou com medo de morrer?

Adônis até tremia de ódio. – Filho da puta,... Assassino! Me dê a chance de te mostrar!

- Tome a arma! – entregou-lhe o revólver encarando-o: - Mostre-me!

Ele apontou a arma; suas mãos estavam firmes. Viu o mesmo ar de zombaria, não só do homem que sua esposa preferiu, mas de alunos e diretores que lhe olhavam com o mesmo olhar carregado de piedade e deboche por anos. Sua respiração era ofegante, e suor lhe descia as faces. O gatilho estava a espera da ordem ao disparo do projétil certeiro. Porém: - Não, Não!... Eu não sou isto!... Eu sei controlar meu ódio, não sou um doente igual á você! – abaixou a arma: - Eu sou melhor do que você, e isto é fato!

Heráclito abanava a cabeça: - Então, me ensine a controlar o ódio,... Ou acabe comigo!

- Seu tempo de aprender qualquer coisa já acabou seu monstro! – era Isis que segurava um pincel na mão: - Eu também sou pintora! – seus olhos traziam um brilho estranho com lágrimas descendo a face quando começou a fazer retoques no retrato de Heráclito em pinceladas vigorosas: - Meu pai e meu irmão, não eram perfeitos, mas eram minha única família e eu os amava! – suas retinas reluziram um tom violeta: - Você me tomou isto!... E vai me pagar! – e deu um último traço em vermelho na tela

Heráclito levou as mãos à cabeça emitindo um grito abafado enquanto seu corpo paralisava. Fazendo-o cair de uma vez. De suas narinas saía sangue. Isis parecia voltar de um transe, largou o pincel e gritou assustada! – Não!... Eu não queria isto!... Eu não queria!

Caído ao chão, Heráclito a olhou já sem o brilho nas retinas, e disse: - Não moça,... Você queria sim. – estava sem ar: -... Só lhe digo uma última coisa,... Não existe ódio do bem,... Ódio justo, ou ódio redentor,... Existe apenas,... Ódio!... E nada mais,... – e ficou imóvel no sono da morte.

Ísis chorava e foi acudida por Adônis que falou: - Vamos sair daqui!... Acabou!

Adônis e ísis, se olharam com empatia e entenderam o que precisavam fazer. Limparam suas digitais de todo aquele lugar e pegaram para jogar fora as duas armas, a tela, o pincel e a paleta usadas. Depois de limparem todo o apartamento combinaram a história que contariam para a polícia. Isis, viera para o sepultamento do irmão e se desencontrara de Adônis que fora até seu sítio lhe prestar condolências. Depois do sepultamento resolvera visitar o único morador do antigo trabalho do pai adotivo pelo qual ele nutria amizade.

Quando estavam à porta do apartamento de Adônis ouviram um barulho estranho no apartamento em frente e resolveram chamar a polícia que constatou a morte por AVC hemorrágico. Do procurador.

O restante foi ainda mais fácil, como Adelaide nunca tivera filhos, bastou um exame de DNA para Isis ser declarada como única herdeira do senador.

Heráclito foi a única variável não prevista por ísis, uma variável que quase lhe custou a vida.

Ilha de Santorini, Grécia.

Já se passara quase um ano dos eventos do Palladium e Adônis esticado na espreguiçadeira, pensava em como tudo aquilo podia ter dado certo. Quando ĺsis o procurou e falou de seu plano de ficar com a herança do senador, ele não queria participar daquilo, era um sujeito meio medroso como bem percebera Heráclito. Mas fora convencido por ela. E agora aos 55 anos estava vivendo uma vida que nem sabia que existia.

Olhou em direção ao mar absurdamente azul e viu, ísis saindo da água, ela estava linda e bronzeada.

Mas que diabos! Pensou Adônis, finalmente alguma coisa tinha dado certo em sua vida, ele devia merecer aquilo.

Ela chegou e lhe deu um beijo salgado, depois ficaram ali sem trocar uma palavra, apenas apreciando o espetáculo do pôr do sol no Mediterrâneo.

Fim.




2 comentários:

  1. UAU! Incrível! Que reviravolta! Parabéns Marcelo e Ramon!Bravo!

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  2. Sensacional e surpreendente, digno de um roteiro de cinema. Excelente, Marcelo e Ramón 👏👏👏

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Obrigado!