Conto "Ed. Palladium" - Capítulo 1

Já era final de março, e se contavam praticamente duas semanas do início da quarentena. A maioria das pessoas se comportava como se estivesse de férias, mas não Adônis, ele já havia visto muito da vida e sentia que aquilo era muito mais sério do que muita gente avaliava. Era um remanescente da geração 60, se lembrava da guerra do Vietnã e do tricampeonato no México. Ouvia Beatles e sabia de cor as falas de Marlon Brando em "O Poderoso Chefão. Desconfiado que só ele, morava sozinho em um apartamento amplo de um prédio antigo bem perto do centro comercial da cidade!

Solteirão convicto, já fora casado, mas aquilo não era para ele e desde que se separara levava uma vida solitária, seu grande barato era colecionar discos de vinil e DVDs de filmes antigos. Era um amante da música e do cinema.

Adônis também tinha uma curiosidade investigativa desenvolvida durante anos de cinema, amava Hitchcock.

Mas também era fã de Tarantino!

Começou a implicar com o novo vizinho logo que se mudou para o apartamento em frente ao dele.

Heráclito era um tipo muito reservado. Mas sempre cumprimentava Adônis que respondia desconfiado.

O vizinho saia muito pouco durante o dia e o apartamento estava sempre fechado e silencioso. Adônis o vira pelo olho mágico algumas vezes saindo tarde da noite e muitas vezes voltando com o dia clareando. Pensava, ele está muito velho para ir para a balada toda noite e não é possível que tenha uma namorada que ninguém nunca viu. Ainda mais com essas olheiras de quem não dorme há um século.

Depois do início da quarentena Adônis pensou que Heráclito ficaria mais quieto em casa, afinal se ele já era do grupo de risco, imagine o vizinho. Mas qual nada, o esquisitão continuou sua rotina de saídas noturnas, pelo menos 3 vezes por semana e ele não se conformava. "Ainda vou pegar esse camarada no pulo, o que ele faz eu não sei, mas sei que é coisa errada".

Heráclito se espreguiçava na cama, e olhou seu relógio Rolex: 16hs30min. Então se levantou e foi tomar uma ducha. Desde que se aposentou do cargo de procurador da República, abraçou de vez a vida noturna que sempre preferiu aos raios solares. Assim, trocava o dia pelas madrugadas ouvindo jazz de Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Chat Baker e outros do mesmo naipe enquanto pintava quadros abstratos ou lia seus autores favoritos, Jean Genet, Hemingway e os americanos da geração perdida, os beatnik. Era um homem culto, sofisticado e, mesmo aos sessenta e três anos, muito atraente ás mulheres, um pouco pela chancela de “bem sucedido”, e pelo seu olhar penetrante realçando seus olhos azuis quase violeta em olheiras permanentes, até hipnóticas, num rosto másculo onde a passagem do tempo parecia só melhorar.

Após o banho, olhava-se no espelho passando a mão nos cabelos grisalhos cortados bem baixos, e novamente conferia as horas. Estavam no inicio da pandemia da Covid, em março, quando pediam que todos evitassem saídas; mas para ele, ficar em casa durante o dia era fácil, porque quase sempre estava dormindo, Suas saídas se davam preferencialmente ás noites, para compras ou alguma outra atividade. Quanto ás aglomerações, mais fácil ainda evitá-las porque as detestava! Heráclito era um solitário muito discreto; sabia-se apenas que já teria sido casado, sem filhos.

Após o inicio de noite dedicado á pintura de um quadro soturno em cores escuras, Heráclito olhou seu Rolex: 23hs56min. Então foi ao banheiro para mais uma ducha. Depois voltou ao quarto onde buscou seu terno preto, entre outros todos pretos; uma camisa de seda também preta e sapatos e meias idem. 1h22min; hora de sair.

Buscou as chaves do seu Porsche 911 Carrera S negro e abriu a porta do seu apartamento. Deu uma longa respirada como quem busca no ar a liberdade antes de colocar a máscara, e seguiu ao elevador. Ainda olhou para trás com a sensação que alguém o espiava, mas deu de ombros e entrou no elevador.

Tudo começou no final de setembro de 2019 quando Adônis começou a ver movimento no apartamento 502 que ficava de frente para o seu.

Desde que se mudara para o edifício Palladium há quase 3 anos. Depois de sua separação, aquele apartamento sempre estivera fechado. Segundo o porteiro "Seu" Doca, isso se devia ao fato dele ser um apartamento bastante escuro, o que sempre afastava possíveis interessados.

Mas aparentemente seu novo vizinho não se incomodava com estes detalhes. E começou rapidamente uma grande reforma no imóvel, logo Adônis percebeu que o comprador do apartamento não era uma pessoa de poucas posses, o que lhe causou estranheza pois ele próprio, se tivesse recursos, se mudaria dali.

O prédio guardava sim um certo charme, sua fachada em estilo art-déco era sem dúvida imponente, suas escadarias de mármore com corrimãos de ferro cobertos com madeira de boa qualidade, o elevador com porta sanfonada dourada. Enfim era bonito, mas em uma área que com os anos se tornara decadente e tinha o grave problema de ser pouco favorecido pela luz do sol.

O apartamento de Adônis ainda sofria menos com este problema por ser de frente, mas o 502. Ele pensou: - quem será o incauto que comprou este abacaxi?

A reforma se estendeu por quase um mês, sempre de portas fechadas, Adônis até tentava, mas nunca conseguia ver o interior do apartamento.

Foi quando os móveis começaram a chegar, eram móveis antigos e requintados. Os apartamentos ali eram amplos, o que neste caso seria muito útil pois eram muitos móveis. Arcas, baús, estantes e muitas caixas. Um dia Adônis foi pegar seu Jeep Willys 58 para dar uma volta, o que normalmente só fazia aos sábados. Esta era uma vantagem de morar perto do centro, ele quase não usava carro.

A garagem ficava no subsolo e havia uma pequena escada no hall de entrada ao lado da porta do elevador, que levava até ela.

Quando acabou de descer a escada e acendeu a luz da garagem, Adônis quase caiu duro de susto, ao lado do seu Jeep havia um Porsche preto estalando de novo na vaga do apartamento 502 .

Maior ainda foi seu susto quando a porta do Porsche se abriu e saiu de Lá, seu novo vizinho que estava ali na garagem totalmente escura aparentemente chegando em casa, eram sete da manhã, e Adônis ficou impressionado com sua pele muito branca, quase translúcida. Parecia nunca ter tomado sol na vida, e quando ele tirou os óculos escuros para cumprimentá-lo lhe chamaram a atenção as olheiras fundas.

- Bom dia - disse o homem - Você deve ser meu vizinho de porta, Adônis, o seu Doca me falou seu nome, me chamo Heráclito, prazer!

Disse isso, pegou uma pequena valise no banco de trás e subiu a escada.

Adônis ficou muito impressionado com este primeiro encontro. Entrou em seu Jeep e saiu para fazer seu passeio de sábado. Mas durante aquele final de semana pensou em como tudo aquilo era estranho.

Nos meses seguintes via pouquíssimo o novo vizinho, o apartamento estava sempre fechado e o Porsche, sempre na garagem, pelo menos durante o dia.



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