E além disso estava muito ansioso para ler aquele papel amassado e sujo. Leu incrédulo que o falecido marido de Adelaide havia feito de próprio punho um documento onde transferia a posse do pequeno apartamento térreo para Doca. Como este falecera, seus filhos seriam agora os herdeiros.
Mas um deles Havia morrido atropelado na porta do Palladium à apenas alguns minutos, então concluiu Adônis, a filha que morava na "roça" também estava em perigo.
Ele se lembrava que em suas conversas com Doca, este sempre lhe falava da filha que morava em um lugarejo próximo chamado Rio Claro. Adônis estava decidido, sairia no dia seguinte cedo para avisá-la de que sua vida podia estar em risco.
Já era noite, então ele resolveu que iria tomar banho, comer alguma coisa e dormir mais cedo, pois na manhã seguinte se levantaria com o sol.
Por volta das 4 da madrugada Adônis foi acordado com um disparo vindo do apartamento de cima, seguido pelo barulho de um corpo caindo ao chão. Em seguida, outro disparo e outro baque surdo.
Adônis se levantou apavorado. subiu as escadas correndo ainda de pijama, foi o primeiro morador a chegar ao apartamento de Adelaide, não podia acreditar no que via parecia uma cena de Pulp-fiction. A mulher jazia em sua sala sobre uma enorme poça de sangue. Ao lado, o corpo do jovem porteiro que Heráclito agredira a tarde.
Era tudo de uma brutalidade inacreditável. Mas o tempo todo ele só conseguia pensar que o responsável por todos aqueles eventos trágicos era Heráclito. Sim, ele tinha certeza que o mal se mudara para o Palladium e por mais que estivesse apavorado, Adônis sentia que somente ele poderia desmascará-lo, saiu dali antes que a polícia chegasse e o impedisse.
Voltou ao seu apartamento, se vestiu e nem ao menos tomou café da manhã, subiu em uma cadeira e tateou em cima de seu guarda-roupas, rapidamente seus dedos tocaram a caixa empoeirada. Dentro dela estava o Taurus 38 que precisara usar uma única vez na vida. Conferiu se estava carregado, travou e colocou dentro de uma bolsa de couro bem anos 70. Seguiu direto à garagem e saiu com seu Jeep antes mesmo do nascer do sol, o prédio estava um alvoroço só e ele deu um jeito de ir antes que quisessem interrogá-lo, não tinha tempo a perder.
Acreditava que a vida de ísis, filha de Doca estava em perigo e agora dependia dele encontrá-la antes de Heráclito.
Adônis chegou ao pequeno lugarejo por volta de 9 da manhã e parou em uma venda para pedir informações, logo encontrou o sítio da filha de doca, mas ela havia saído cedo para o sepultamento do seu irmão, na cidade.
- Odeio ser traído! – remoia Heráclito naquela sensação de estar sendo enganado e usado novamente.
Ele nunca experimentou culpa, remorso ou qualquer sentimento diante de seus atos homicidas. Era como se o ódio e a vingança fossem ações ungidas de legitimidade. Tinha sido assim desde a adolescência quando percebeu que possuía um dom especial: o de matar com a mente!
Dom útil em Brasília quando chegou como um jovem e ambicioso Procurador da República. Seu poder não passou despercebido ao ilustre Senador Macieira, marido de Dona Adelaide, que logo o apadrinhou. Vieram os encontros secretos numa das mansões do Lago Paranoá onde aperfeiçoou aquele dom maldito mergulhando fundo na magia negra do vodu. Era impressionante; bastava que Heráclito fizesse seu retrato para que um desafeto tivesse seu fim. Um dom maravilhoso e extremamente útil na Capital da República!
Assim, o Doutor Heráclito teve uma brilhante carreira em Brasília em troca dos seus préstimos sobrenaturais. Temido e odiado, mas não o bastante e nem do modo adequado. As paredes de sua sala ostentavam os retratos de suas vitimas mais ilustres como troféus: o ex-presidente que não empossou, e o parlamentar. Talvez os únicos indícios de culpa que deveria ter.
Foi Dona Adelaide que lhe falou do Edifício Palladium. Havia um bom apartamento cuja proprietária estaria reticente em se desfazer, mas quem sabe mudaria de ideia com uma boa oferta?
O que encontrou no apartamento 502 foi Dona Iracema, a mesma mulher que décadas antes expulsou Heráclito e sua família de suas terras mediante grilagem. Obviamente ela o recebeu mal e o insultou ao lembrar-se que antes, Heráclito em criança, foi um de seus boias-frias. Isto o deixou inundando de ódio: assim, a vingança lhe fez justiça, sem qualquer culpa.
Depois foi a vez de Doca que não lhe trazia qualquer sentimento bom ou ruim, até o dia que Dona Adelaide contou que pela frente o recebia com sorrisos, mas fazia intriguinhas pelas costas. Foi muito fácil eliminá-lo! Depois seu filho ao lhe fazer desaforos na porta de seu apartamento. Mais um verme a menos! Contudo, algo não fechava nesta história: Por que Dona Adelaide o colocou ali sabendo do seu ódio pela mulher que tanto mal fez á sua família? É evidente que ela o estava usando. Portanto, usar aquele porteirinho traidor como vingador foi á saída mais fácil.
Este era um lado do doutor Heráclito. O outro, ainda mais obscuro e dúbio, trazia uma alma atormentada pelas culpas que não conseguia sentir, mas sabia que devia. Era evidente o monstro psicopata que se tornara; o mesmo que induziu a esposa ao suicídio ao desconfiar de uma traição. Porém, foi o mesmo que fugiu do ateliê do pobre pintor por medo que seu ódio o destruísse. Ainda havia algum resquício de algo que ele não mensurava, mas desejava: a redenção. Ele sabia como obtê-la, mesmo a custa da própria destruição, e tinha total convicção de que iria para o inferno, ou algum outro lugar reservado aos monstros, mas queria ao menos chegar lá com algum arrependimento na bagagem. No fundo, pressentia que seu fim estaria próximo.
Ísis chegou ao Ed. Palladium por volta de 11h, ela dissera a todos no vilarejo que estava indo para o velório do irmão, que na verdade nem era seu irmão. Doca a criara como filha em nome da amizade que tinha pelo senador, seu pai verdadeiro. Ela era fruto de uma relação do senador com uma garota de programa. Na impossibilidade de assumi-la, ele pedira ao porteiro que a criasse como filha e prometeu prover tudo que a menina precisasse.
Doca relutou, mas acabou aceitando. O senador, lhe prometeu ainda o apartamento térreo no Ed. Palladium onde ele já morava com a esposa e o filho recém-nascido.
A esposa de Doca, não pôde aceitar o compromisso assumido pelo marido e o deixou. Ele, cuidou sozinho dos dois filhos.
Até que quando ísis ficou adulta, Doca convenceu o senador a lhe comprar um sítio, que era o sonho da moça.
Desde essa época, ele contou a ela toda a verdade. Apesar de gostar de Doca, Ísis nunca se conformou com a rejeição do pai verdadeiro.
Ela agora iria atrás do assassino do pai e do irmão, já havia aceitado injustiça suficiente para uma vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado!