Quando abriu a porta do apartamento, foi recebida por Mephisto, com cara de fome. Tinha esquecido de colocar ração para o gato.
Estava muito cansada. Depois de abastecer as tigelinhas de Mephisto com água e ração, tirou a roupa e se enfiou no box para uma chuveirada bem quentinha. Glória amava isso.
Saiu do banho e foi para o quarto se trocar. Parou um pouco em frente ao espelho e gostou do que viu. Continuava bonita, tinha acabado de completar 40 anos e achava que nunca estivera tão bem. Percival já não demonstrava o mesmo entusiasmo de quando começaram a se relacionar. Não a levava para jantar fora nem ao cinema. Ela sentia falta disso.
Às vezes, ficava muito mal por trair Percival. Era para ter sido somente uma aventura de fim de semana. Mas Beto massageava seu ego, lhe dizia sempre o quanto estava bonita e sempre a levava a lugares onde Percival nunca pisaria, como bares e motéis.
Enfim, ele a fazia se sentir viva. Já fazia cinco meses que estavam se encontrando. Pensara inúmeras vezes em terminar tudo, mas Beto a fazia se sentir desejada.
Percival já se preparava para sair quando Beterraba entrou. Ele tinha esse apelido por causa da má circulação que fazia seus dedos ficarem roxos no inverno. Tinha a total confiança do patrão. Ia aos pontos de jogo levar material, pegar dinheiro, fazer acertos com os apontadores. Era de poucas palavras e era também o cobrador dos empréstimos sem garantia.
Era muito grato e fiel a Percival, que o tinha na conta de amigo e não de funcionário. Enfim, sabiam que podiam contar um com o outro. Naquela tarde, ele estava preocupado: “Chefe, sabe aquele rapaz que pediu 50 mil emprestados? Adalberto, né? Já está com quase 30 dias de atraso. Acho que está na hora de bater um papo com ele”.
Percival se lembrou na hora. Primeiro, porque não costumava emprestar valores maiores, gostava do varejo, 2 mil para um, 5 mil para outro. Dava menos dor de cabeça, mas Adalberto já era cliente e sempre pagava em dia. Mas, desta vez, havia lhe feito uma proposta diferente. Precisava de um valor maior, 50 mil, e um prazo maior para fechar o negócio. Disse que lhe pagaria 75 mil depois de 6 meses.
Percival gostou da proposta e deixou bem claras para Adalberto as consequências de não pagar. Não gostava dessa parte do trabalho, mas era trabalho e precisava ser feito. Abriu sua gaveta e pegou no montinho de promissórias a de Adalberto. Era a de maior valor em seu arquivo. Passou a mão no telefone e ligou para o devedor.
Beto, na verdade, vivia de pequenos “negócios”. Comprava um celular aqui, vendia ali. Comprava um carro usado aqui, vendia acolá. Dólares, “Rolex”, enfim tudo que pudesse render um dinheiro fácil. Quando seu amigo lhe falou da oferta de ações, pensou que era sua oportunidade de ficar rico. Compraria por 50 venderia por 500 e adeus aperto, adeus trabalho. Como já tinha crédito com Percival, a quem recorria sempre que precisava de um capital pequeno para seus “negócios”, foi direto a ele.
Na mesma semana em que pediu o empréstimo, “ah, o destino”, se encontrou com um amigo que não via há muito tempo. Ele havia se tornado advogado e tinha um escritório ali perto. Foram até lá tomar um café. Conversa vai, conversa vem, descobriu que seu amigo também era cliente de Percival, que havia lhe pedido o emprego para Glória. Pedira também segredo quanto a seu “ramo de atividade”. Daí, o convite para o chopp e todo o resto. Se algo desse errado...
Glória saiu do banho, vestiu um roupão, preparou uma caneca de cappuccino bem quente e se sentou em frente à tevê. Lembrou-se então do envelope que encontrara no escaninho. Olhou no relógio, ainda levaria mais de uma hora até Percival chegar. Abriu a bolsa e pegou o envelope.
O telefone de Beto tocou. Não tinha dúvida que iria receber essa ligação. Temeu por ela nas últimas semanas, mas precisava atender, sabia disso. Só não sabia o que dizer. Tinha acabado de chegar ao quarto que alugava desde os tempos de faculdade. Nunca conseguira ter dinheiro suficiente para sair dali. Lamentava às vezes, a falta de sorte. Mas Gostava da sensação de se dar bem, levar vantagem. Sempre acreditou que o mundo fosse dos espertos.
Deixou a ligação cair e mandou um WhatsApp: “Estou acabando de levantar seu dinheiro, me desculpe o atraso, mas na segunda-feira levarei tudo em seu escritório. Obrigado!”.
Percival leu a mensagem e a mostrou para Beterraba: “São só 4 dias, vamos esperar”.
“Você que manda chefe” - respondeu o ajudante. Percival lhe disse que precisava sair mais cedo. Iria se encontrar com uma mulher que o procurara para falar sobre montar uma banca em uma cidade vizinha.
“Seu” Geraldo só foi chegar em casa depois de uma hora de viagem. Estava bem cansado. A cada ano, o trajeto lhe parecia mais longo. Assim que entrou, ligou a tevê e foi para a cozinha preparar um café. Nesta hora, seu telefone tocou. Viu que era o número de seu filho, que raramente ligava. “Seu” Geraldo ficou preocupado.
Como suspeitava, não eram notícias boas, sua nora estava tendo problemas com a gravidez e precisava fazer um tratamento para que o bebê não corresse riscos. “Seu” Geraldo não entendeu muito bem. Apenas a parte em que seu filho disse que precisava de 30 mil para pagar o tratamento e não tinha de onde tirar esse dinheiro.
Glória não acreditou quando leu a apólice de seguros. Afinal, 500 mil era dinheiro suficiente para Beto pagar o que devia e poderem ficar juntos.
Pensou: “Por que Percival faria aquilo? Estaria doente? Ou seria só a consciência pesada?”. Sempre acreditou que ele tivesse uma amante, apesar dele não deixar nenhum vestígio. Guardou a apólice na bolsa e ficou ali, com a tevê ligada em vão e o cappuccino esfriando na caneca.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado!