Conto "Percival e o gato" - Capítulo 2

Percival saiu para trabalhar por volta das 8h, passou pelo saguão assobiando, se despediu de “Seu” Geraldo com uma espécie de continência como sempre fazia, e seguiu pela portaria do Ed. Coliseu.

Na esquina, um carro o esperava. Percival entrou e se sentou no banco traseiro, o motorista do Uber o cumprimentou e seguiu para o destino de todos os dias. Percival tinha uma pequena banca de jogo de bicho. Ele também trabalhava com empréstimos para negativados. Costumava dizer que não oferecia dinheiro a ninguém, as pessoas é que o procuravam.

Controlava tudo de um pequeno escritório em um sobrado no centro, tudo muito discreto. Preferia que fosse assim. Não queria que Glória se preocupasse com essas coisas.

Tinham uma vida boa.

Glória terminou de tomar café e começou a ajeitar as coisas. Sempre ficava sozinha nesse horário e gostava disso. Aproveitava para olhar as redes sociais, ajeitar a cozinha do café e se arrumar calmamente para sair. Só pegava no trabalho às 13h e, com isso, sempre tinha tempo.

Mas, naquela manhã precisava ver Beto, com quem tinha um caso há algum tempo. Fora apaixonada por Percival no começo, mas, com o tempo, se afastaram. Havia sido casada antes. Uma relação que trouxera só problemas e dívidas. Quando conheceu Percival, viu que ele levava uma vida simples, mas parecia não ter maiores preocupações com dinheiro. Aparentemente, o trabalho que ele nunca explicava muito bem, lhe proporcionava uma boa renda. E Glória gostava dessa tranquilidade.

Mas, no caminho, apareceu Beto. Ele era amigo do dono do escritório onde ela trabalhava. Um dia, apareceu por lá para um café. Era uma sexta-feira e Percival havia saído cedo com previsão de voltar apenas na segunda. Beto a convidou para um chopp. A vida de casada era boa, mas monótona.

Começaram a se encontrar sempre que Percival viajava, mas neste final de semana, Beto havia lhe mandado uma mensagem dizendo que precisava vê-la com certa urgência.

Combinaram de se encontrar em um hotel na saída da cidade, onde iam sempre que Percival viajava.

Quando chegou, Glória encontrou Beto bastante nervoso. Ele nem esperou se sentarem para começar a falar. Assim que a viu, começou a lhe contar o apuro em que se metera.

Um amigo que mexia com ações lhe dera uma dica. Segundo ele, uma empresa do ramo de tecnologia estava para fechar um contrato com um banco estatal e suas ações multiplicariam o valor em poucos dias. Era dinheiro certo. Como não tinha nada guardado, Beto pegara 50 mil emprestados com um agiota que emprestava sem muitas garantias.

Mas essas coisas nunca são simples e a empresa foi envolvida na Operação Lava Jato apenas alguns dias depois que Beto comprou os papéis. Claro que eles viraram pó. Nem adiantou reclamar com seu amigo, que também havia perdido um bom capital.

Trocando em miúdos, Beto pediu ajuda à Glória para conseguir o dinheiro e pagar a dívida, pois descobrira porque o tal agiota não pedia garantias a seus clientes. Eles simplesmente sumiam se deixavam de pagar.

Glória lhe disse que era muito dinheiro e que nem imaginava onde levantar aquele montante, mas estava com muita pena de Beto e pediu que ele não se desesperasse. Ela iria pensar em alguma coisa.

“Seu” Geraldo ficava muito tempo sozinho na portaria do prédio, principalmente na parte da tarde. Nesses momentos, pensava em como a vida lhe fora madrasta. Perdera a mulher cedo, nunca teve condição de mandar o único filho para a faculdade, o que acreditava ser o motivo de não poder estar perto dele e do neto, que chegaria em breve.

Claro que nessas horas queria ter mais dinheiro. Poderia se mudar para São Paulo, talvez comprar um apartamento onde moraria com o filho e olharia o bebê para que ele e sua esposa pudessem trabalhar com tranquilidade. Sempre tivera jeito com crianças. Mas qual o quê, sua aposentadoria mais o salário do prédio mal davam para pagar as contas e o aluguel do apartamento onde morava.

Olhou mais uma vez para o envelope com o nome de Percival e colocou a chaleira no fogo.

Quando o vapor começou a subir, ele o abriu cuidadosamente, sem rasgar o papel e ficou maravilhado com o que viu. Era uma apólice de seguro que Percival fizera e que tinha como única beneficiária Glória. Não conseguia parar de olhar para o valor que estava escrito.
R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais).

Colou novamente o envelope e o deixou no escaninho do 501, pegou sua mochila e foi embora. Durante todo o trajeto para casa, no ônibus cheio, não conseguia se esquecer dos números em negrito na apólice do banco (R$ 500.000,00).



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado!