Do interior de Minas até Cartagena, seriam mais ou menos 8 mil km, passando por Bolívia, Peru, cortando o Equador, até chegar à Colômbia. Sem dúvida, seria a aventura de uma vida. E eles estavam se divertindo. A cada parada, relembravam histórias, compartilhavam memórias e redescobriam a velha sintonia.
E assim, seguiram viagem. Não tinham pressa. Paravam onde dava vontade, se hospedavam em pequenas cidades pelo caminho, onde saíam à noite para tomar uma cerveja ou simplesmente para caminhar pelas ruas e sentir a esquecida sensação de não estarem sozinhos.
Acordaram naquela manhã de temperatura agradável em Chimoré, na Bolívia. Haviam chegado na pacata cidadezinha de 4 mil habitantes no final da tarde. Se hospedaram no hotel Mirador, que ficava em uma região com muito verde nas imediações da cidade. Era, sem dúvida, um lugar agradável. Desceram para tomar o café da manhã, que era servido em uma espécie de caramanchão no meio de um belo jardim, às margens de um pequeno lago.
O lugar era muito bonito e tranquilo. Helvécio e Antenor se serviram de café e algumas “Humintas”, espécie de pamonha típica da Bolívia, que haviam provado no dia anterior em uma parada da estrada e gostado muito. Se sentaram lado a lado, voltados para o lago e pensaram em como se sentiam felizes naquele momento.
Antenor quase nem se lembrava de seu problema de saúde, exceto na hora dos remédios, que Helvécio não o deixava esquecer. Helvécio, por sua vez, já não se sentia sozinho. Tinha a companhia do velho amigo. E ambos haviam recuperado a vontade de viver. Na semana anterior, tinham ido a um “baile” em Santa Cruz de La Sierra e dançado com duas senhoras “muy guapas”, coisa que já não faziam há algum tempo. Enfim, estavam vivendo uma grande aventura, àquela altura da vida.
- Sabe, Antenor, eu tenho pensado bastante em algumas coisas aí. Depois que a gente pegar esse dinheiro, o que você pretende fazer?
- Não sei até onde posso seguir, Helvécio, mas minha vontade é continuar conhecendo lugares, pessoas. Enfim, viajando por aí. O mundo é muito grande, mas o tempo é muito curto.
Helvécio continuou olhando para o lago e para o bosque além dele.
- Antenor, eu fico pensando que vivi minha vida toda para trabalhar e cuidar da Laura, e ela de mim claro. Quando ela se foi, eu fiquei sozinho. Sabe, sozinho de verdade. Eu só tinha a ela e chorei a sua falta todas as noites, desde quando ela me deixou. E essa dor só minha eu nunca quero deixar de sentir, pois junto com ela vêm todas as lembranças do que vivemos juntos. Sem ela, eu não seria nada do que sou hoje. Mas, reencontrar você e sair nessa viagem me fez perceber que posso ser feliz de novo. E eu acho que ela, de onde estiver, deve estar feliz de me ver assim e falando: “Só o Antenor mesmo…”.
Eles riram juntos, ficaram ali mais um pouco. Depois, pegaram suas mochilas, pagaram a conta e subiram na Harley. Ambos colocaram seus capacetes e seus óculos Rayban. Antenor acelerou pela estrada. Era uma bela manhã para se viajar. O destino já não tinha tanta importância, desde que estivessem juntos.
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