Helvécio acordou mais tarde naquela manhã. Fazia o caminho inverso ao da maioria dos aposentados, desde quando deixou o banco onde trabalhou a vida toda. Nunca gostou de acordar cedo, aliás, horário nunca fora seu forte. Depois da morte de Laura então, nem se esforçava.
Quando ela ainda estava com ele, tinha motivo para acordar cedo. Sempre tinha algo a fazer na rua, mas já fazia quase um ano da sua morte, e ele estava se acostumando à nova rotina. Justo ele que nunca na vida havia morado sozinho. Saíra da casa dos pais para se casar com Laura e vivera a vida toda sob seus cuidados.
Agora, era um solteirão tardio, aos 72 anos, e estava bem. Se cuidava, caminhava todos os dias e cuidava da alimentação. Gostava de fazer a própria comida (o que aprendera com Laura e se sentira mais à vontade para fazer depois de sua partida).
Não tiveram filhos (Laura não podia). Pensaram muitas vezes em adoção, mas o tempo passou… gostavam da companhia um do outro. Viajavam, iam a shows, peças de teatro.
Enfim, eram felizes.
Às vezes, se sentia só, lembrava-se dos pais e pensava: “O destino de todos nós é a solidão”. Morava em um apartamento de dois quartos, o mesmo que ele e Laura haviam comprado para ser o seu refúgio. A decoração ainda era a mesma. Nunca quis mudar, mas não por saudosismo e sim por gosto. Era um bom apartamento e ele gostava de morar ali.
Enquanto fervia a água para o café como em todas as manhãs, pegou o Smartphone e começou a navegar nas redes sociais. Ao abrir o Facebook, se deparou com a solicitação de amizade de Antenor. Helvécio não tinha notícias dele há anos. Tinham sido colegas no banco. Na verdade, tinham sido amigos próximos. Helvécio se lembrou das esticadas depois do trabalho para um chopp e um papo sempre animado.
Antenor estava sempre de bom humor e Helvécio gostava disso. Era otimista, apesar de tudo. Pensava que a vida devia ser encarada com leveza e o antigo colega era assim. Aceitou a solicitação de amizade e mandou uma mensagem: “Que bom que fez contato, amigo! Já faz tempo, hein?”. Mandou também o número de seu celular, acabou de tomar seu café e saiu. Não tinha muito o que fazer na rua, mas detestava ficar preso em casa. Na verdade, estava cansado de ficar sozinho.
A cada dia, sentia mais esta solidão e isso o incomodava. Ele e Laura tinham uma vida social ativa. Clube de vinhos, um grupo de casais que se juntavam para cozinhar, ir a bares, etc. Mas, depois que ela morreu, eles não o procuravam mais. Era como se ele tivesse morrido junto. Achava que era porque não queriam pensar que o mesmo podia acontecer a eles.
Saiu caminhando pelo bairro, vendo as ruas cheias. Gostava daquilo. Principalmente agora que a vacina tinha chegado para todos. Perdera Laura para a pandemia.
Tinha sido um período muito difícil. Agora, via as coisas voltarem ao normal e acreditava que as pessoas saberiam usar com sabedoria essa segunda chance. Parou na padaria para tomar um café.
Era um momento empolgante. A sensação era de renascimento, as idéias e os projetos represados estavam agora sendo colocados em prática. Novos livros, filmes, músicas e tudo feito com uma sensibilidade que julgávamos absolutamente perdida. É, era mesmo um privilégio estar vivo em 2021.
E ali estava ele, Helvécio. Bancário aposentado, vivendo este momento histórico. Quando estava pagando o café, seu telefone tocou. Era um número desconhecido. Costumava ignorar este tipo de ligação, mas que diabos. Era preciso acreditar na mudança do ser humano. Talvez não fosse alguém tentando vender algo de que ele não precisava.
- Alô.
- Alô, Helvécio? É Antenor. Há quanto tempo, meu camarada!
- Antenor? Inacreditável! Deve ter pelo menos 20 anos que a gente não se fala. Por onde você anda?
- Então, amigo. É realmente uma longa história, mas resumindo é o seguinte. Quando eu me aposentei, estava cansado daquela vidinha (trabalho, casa). Você tinha a Laura. Eu não tinha ninguém. Sempre sozinho.
- Pois é, rapaz. A gente tinha a maior inveja. A turma sempre falava: “O Antenor é que sabe das coisas. Uma namorada por ano, só curtindo a vida”.
- Nada disso meu amigo. É porque não tinha que ser mesmo, mas enfim. Eu me aposentei e resolvi dar uma guinada. Comprei uma Harley Davidson e saí por aí. Comecei a ir a todos os encontros de motociclistas que tinha notícia. E fiz muitos amigos, viajei muito, além de ter conhecido meu grande amor.
- Você apaixonado? Por essa eu não esperava, definitivamente!
- Kkk, não é bem assim. A vida dá muitas voltas. Mas é uma longa história. E eu vou te contar tudo pessoalmente.
- Jura? Olha que tem 20 anos de fofoca acumulada.
- Vamos resolver isso. Semana que vem eu chego por aí e te encontro. Você ainda mora no mesmo lugar?
- Você me conhece né, Antenor. Mudar pra quê? Os problemas vão junto…
E riram. Helvécio ficou animado com a possibilidade de rever Antenor. Seria muito bom poder ter um amigo para tomar algumas cervejas e conversar. Ultimamente, só conversava com o porteiro do prédio e os caixas do mercado. Chegou em casa e foi preparar seu almoço. Aquele era um momento do qual gostava. Agora entendia quando Laura falava que cozinhar era uma demonstração de afeto. Já tentava se lembrar o que Antenor gostava de comer.
Os dias seguintes passaram sem muitas novidades. Helvécio se preparava para receber o antigo colega de banco. Queria que ele se sentisse bem-vindo à sua casa. Afinal, já fazia tempo que só ele e a faxineira, D.Lêda, entravam ali. Ele inclusive a chamara para adiantar a faxina do mês. Queria a casa limpa para receber o amigo.
Antenor era mais velho. Quando Helvécio entrou no banco, ele já estava lá, sempre ajudando todo mundo. Ele lhe ensinara muito do trabalho, como lidar com os clientes e superiores, como resolver diferenças de caixa, bater metas de venda, etc. Foi subindo na carreira e chegou a gerente ainda muito moço. Quando veio a informatização, convenceu o amigo de que precisavam entender aquilo. Fizeram cursos juntos e, com sua ajuda, Helvécio acabou chegando a gerência também.
Um dia, Antenor o chamou para uma cerveja depois do expediente. Era uma bela noite de outono. Foram ao bar onde iam sempre ao final do expediente às sextas. Mas era uma terça e Helvécio ficou preocupado. Chegaram ao bar vazio e pediram uma cerveja. Era sempre um momento descontraído, mas dessa vez não.
- Helvécio, vou me aposentar. Quero viver a vida. Acho que vou comprar uma moto e viajar por aí. Já estou até tendo aulas para tirar a habilitação.
- Que bom, Antenor! Fico feliz por você, mas aquele banco não vai ser mais o mesmo.
- Pois é, mas a vida é feita de ciclos, e o meu como bancário está acabando. Agora, vou ser motoqueiro. Disse acelerando com as mãos no ar, como se pilotasse.
- Mas eu lhe desejo toda a felicidade nesta nova fase. Daqui a alguns anos, serei eu. Quem sabe você não me ensina a pilotar também!
- Até parece que a Laura deixaria.
Riram juntos.
- Só vou lhe pedir uma coisa. Mande notícias e, sempre que der, apareça.
Tomaram mais uma cerveja, falaram de futebol e política. No final, se despediram com um abraço. No dia seguinte, Helvécio chegou para trabalhar e a mesa de Antenor estava vazia. Ficou assim por alguns meses, até ser trocada por um terminal de autoatendimento.
Uns seis meses depois, voltaram a se encontrar para mais uma cerveja no bar de sempre. Antenor estava animado. Havia tirado a carteira de moto e comprado uma Harley-Davidson.
Helvécio ficou encantado, não apenas pela moto, que era linda, mas pelo simbolismo contido. Liberdade, uma sensação de ter todas as estradas do mundo para percorrer. Ficou feliz pelo amigo e pensou: “Quem sabe um dia.” Se despediram. Antenor disse que iria pegar estrada no dia seguinte, mas daria notícias. Isso acontecera há exatos 20 anos.
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