Falou com Laura sobre isso algumas vezes. Ela sempre se preocupava com essa possibilidade. Achava que ele teria muitas dificuldades para se adaptar. Mas ele acabou optando pela aposentadoria. Aproveitaram juntos aquela fase. Viajaram, fizeram coisas que antes não tinham tempo. Mas a pandemia a levara prematuramente, não havia muito o que fazer. A vida seguia seu curso sem muitas surpresas, pelo menos até ali.
Helvécio acordou mais cedo naquela manhã. Estava agitado, como quando estamos prestes a embarcar em uma viagem de férias. Estava de pé quando o despertador tocou. Olha que ele já não o usava há algum tempo. Colocou a água para ferver e foi até a sacada. Estava uma manhã bonita de sol, cheia de possibilidades.
O interfone tocou, atendeu e ouviu a voz do seu melhor, talvez único, amigo: “Helvécio, sou eu, Antenor”. Helvécio acionou o interfone e correu para a porta para esperar o velho companheiro. Antenor subiu com bastante agilidade os dois lances de escada e viu o parceiro de tantas histórias o esperando na soleira da porta. Se abraçaram emocionados.
O cheiro do café passando pelo filtro de papel os levou rapidamente à cozinha. No caminho, Antenor deixou a mochila e o capacete no sofá da sala. Helvécio acabou de passar o café, encheu uma garrafa térmica e a levou para a mesa, que já estava posta.
- Me conta, Antenor. Por onde você andou nos últimos anos?
- Conto sim amigo. Se prepare, pois é uma longa história.
Disse isso e se serviu de uma xícara de café. Helvécio não teve como não perceber como o amigo havia envelhecido nesse tempo. Quando se viram pela última vez, Antenor era um quase sessentão que não parecia ter a idade que tinha. Agora, devia ter quase 80. Ainda estava bem, mas era fácil perceber que a idade já lhe pesava. Mas que diabos, chegar aos 78-79 pilotando uma Harley-Davidson não podia ser tão ruim.
- Você sabe que o banco sempre nos pagou muito menos do que merecíamos, né Helvécio?
Esse era o velho Antenor falando. Helvécio se lembrou de como ele sempre reclamava do banco, do horário, dos clientes e principalmente do salário. Ao contrário dele, que achava que não precisava de muito mais para viver. Gostava da estabilidade, de saber que no final do mês o salário cairia na conta, houvesse o que houvesse.
- Depois de chegar à gerência então… - continuou Antenor - aí é que éramos explorados mesmo. Muita responsabilidade para pouca recompensa.
Helvécio só ouvia e concordava com a cabeça.
- Mas, em um daqueles cursos nos anos 80, eu ouvi uma história muito interessante. Desde sempre, as pessoas abandonam contas em bancos por não quererem ou não precisarem mais. E, quase sempre, abandonam essas contas com pequenas sobras de saldo das quais nem se lembram mais. Moral da história: os bancos, que saem sempre ganhando, consomem esses “saldos” em tarifas de contas que já não existem na prática. E ainda geram dívidas a serem cobradas do desavisado ex-correntista.
Continuou Antenor.
- O instrutor do curso falou de um funcionário do setor de informática de um banco americano que descobriu uma maneira de encerrar essas contas, evitando, assim prejuízos maiores aos clientes e cessando a cobrança imoral. De quebra, ele pegava as sobras desses pequenos valores e transferia para uma conta numerada em um paraíso fiscal. Tudo graças à tecnologia. Ele havia criado um sistema que compilava os dados das contas inativas do banco e, “voilá”.
- Que loucura Antenor! A gente ouvia falar dessas coisas, mas eu nunca pensei que fosse possível.
- Pois é, mas a melhor parte vem agora. Como você sabe, eu me interessei muito pela área de tecnologia desde o começo e, quando aprendì o suficiente, comecei a elaborar um sistema para fazer algo parecido com as contas inativas do banco. Na época, os sistemas eram menos confiáveis. Conclusão: eu fiz um sistema que desviava esses valores para uma conta secreta e encerrava essas contas automaticamente.
Helvécio não podia acreditar no que estava ouvindo.
- Antenor, você podia ter sido preso!
- Que nada, amigo. Ladrão que rouba ladrão... Mas, na virada do século, com a história do “bug do milênio”, os sistemas foram todos revisados para evitar problemas. Meu pequeno truque foi descoberto e bloqueado. Só não conseguiram encontrar o dinheiro e nem o ladrão. Na verdade, acho que nem queriam, pois geraria publicidade negativa e prejuízos ainda maiores. Haveria certamente ações na justiça. Pelo sim, pelo não, resolvi me aposentar e viver a vida.
Helvécio estava chocado, e bastante impressionado com a coragem e engenhosidade do antigo colega. Ele nunca faria algo parecido. Não por amarras morais, pois acreditava que bancos não mereciam ser alvo desse tipo de escrúpulo, mas por medo mesmo. Medo de ser pego, medo de decepcionar Laura. Com isso, nunca alçou voos maiores.
Mas, lá estava a prova de que o crime compensava, aparentemente. Antenor não tinha nenhum drama de consciência com o que tinha feito e, certamente, tinha vivido uma vida muito mais emocionante que a sua.
Serviu outro café para si mesmo e para o amigo. E se acomodou na cadeira para ouvir o resto da história.
- Meu amigo Helvécio, a história é mais ou menos essa. Eu viajei pelo mundo. Meu dinheiro ia todo para uma conta em um banco no Panamá, e era muito dinheiro. Eu nunca usava meios eletrônicos para transferir. Eu sempre ia até Cartagena e, de lá, pegava um voo direto que, em uma hora, chegava à Cidade do Panamá. Lá, eu sacava em espécie o que precisava e ia vivendo a vida, sempre pagando minhas contas em dinheiro vivo.
Helvécio, que até então só ouvia, interrompeu o amigo de tantos anos.
- Mas por que você nunca mais deu notícias? Nós éramos amigos. Nesse meio tempo, eu me aposentei, perdi a Laura e nunca recebi um telefonema seu. Quer dizer que só o dinheiro importava? Se eu acreditar nisso, tenho que aceitar também que, no fundo, você é igual aos donos do banco que tanto criticava.
Helvécio continuou:
- Eu tentei encontrar você, sabia? Busquei nas redes sociais, procurei no Google, mas você simplesmente desapareceu. Fiquei muito sozinho depois da morte da Laura. Acho que nunca precisei tanto de um amigo.
Quando Helvécio parou de falar, viu Antenor enxugando os olhos com as costas das mãos.
- Sabe Helvécio, às vezes a gente comete erros. Alguns podem ser consertados, outros não. Você vai ter que viver com eles. Mas, chega um momento em que entendemos que, apesar do tempo não ter volta, sempre podemos corrigir nosso rumo, mesmo que o caminho já esteja chegando ao fim.
Agora era Helvécio que secava as lágrimas. Antenor continuou.
- Eu estou doente, Helvécio. Não falo isso como lamentação. Eu vivi uma vida boa, como diria Sinatra: “I did it my way”. Eu vim te propor uma aventura. Pra mim, talvez a última. Pra você, talvez a primeira. Vem comigo até a rua. Quero lhe mostrar uma coisa.
Desceram pelas escadas rapidamente, ainda com os olhos marejados. Ao saírem na portaria, Helvécio viu a Harley-Davidson com sidekick estacionada. Preso ao guidão com uma pequena corrente, um capacete preto com uma caveira e seu nome “Helvécio”.
- Vamos, meu amigo, cruzar a América do Sul de Harley! E, quando chegarmos a Cartagena, um último voo para o Panamá, onde ainda tenho um bom dinheiro. Suficiente para vivermos confortavelmente o que ainda tivermos de vida.
Helvécio pensou: “Mas que diabos, por que eu não iria?”. Concordou com a cabeça, deu um abraço em Antenor e subiram para que ele arrumasse a mochila para a viagem. Partiriam no dia seguinte logo pela manhã.
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