Conto "Ed. Palladium" - Capítulo 3

O mês de abril estava sendo pesado para Adônis, por duas vezes havia sido voto vencido nas assembléia de condomínio.

Além disso, vira o novo vizinho Heráclito,vencer a eleição de síndico e começar a mandar no "Palladium" com a concordância de todos, especialmente dona Adelaide. Essa então era um caso à parte, se conheciam a anos e ela sabia que ele sempre fora um ótimo condômino, não tinha muitas posses mas recebia uma aposentadoria razoável como ex-professor de história do ensino médio. O dinheiro sempre fora suficiente para arcar com as despesas que tinha mais a prestação do apartamento financiado a perder de vista...

Mas Adônis tinha um irmão mais novo que estava desempregado e a quem vinha ajudando nos últimos meses, daí os atrasos na taxa de condomínio. Ela não tinha o direito de cobrá-lo em público, apesar de todos no prédio conhecerem sua fama de "sovina".

Mas o que mais incomodava Adônis naquele início de outono era outra coisa, a estranha e prematura morte de Doca. Eles haviam conversado algumas vezes desde que o novo vizinho assumira a função de síndico e doca sempre relatava a mesma coisa, não gostava dele. Achava sua atitude arrogante e todos os condôminos sabiam que ele não se sentia confortável com as novas regras.

Naquela semana Doca saiu na sexta e disse que iria visitar a filha na "roça" e que voltaria na segunda, estava visivelmente chateado, Adônis foi o último a falar com ele naquela tarde.

Pois é seu Adônis, aqui era muito bom de trabalhar, mas agora com esse seu Heraclito no meu pé tá difícil. Tô pensando até em pedir conta.

Pensa bem, Doca descansa esse final de semana e avalia, de qualquer forma, a decisão que você tomar eu vou entender. Você é amigo e sabe disso!

Se despediram de soquinho como mandava a nova regra do condomínio e Doca saiu pelo portão. Adônis não podia imaginar que era a última vez que se viam. Na semana seguinte receberam a notícia de seu internamento e alguns dias depois de sua morte. O funeral foi com o caixão lacrado devido a pandemia.

Adônis tinha certeza que alguma coisa ali estava mal explicada.

Sim, havia definitivamente "Algo de podre no reino da Dinamarca".

Naquela tarde, Heráclito descansava no sofá da sala enquanto filosofava: “Pentimento” é o processo artístico no qual o pintor faz uma alteração numa obra. Onde está o oceano, pode ser pintado um campo; se três figuras numa composição parecem demais, elimina-se uma delas. É uma questão de escolha ou adequação. A palavra significa “arrependimento” em italiano.

Na manhã seguinte haveria mais uma reunião de condomínio, quando a maioria dos moradores estaria ciente da decisão de Dona Adelaide em não renovar o contrato de locação dos seus apartamentos, na verdade, quase todos daquele prédio. – Pobre mulher! – pensava: - Ela vivia dos aluguéis daquele prédio decadente, herança do seu falecido marido, enquanto ainda tentava ostentar um fausto há muito perdido! – certamente não seria uma reunião fácil, até porque Heráclito odiava compromissos matinais.

Ele ia correndo os olhos nos quadros seus, pendurados ás paredes; todos eles retratos. Havia dois particularmente importantes que retrataram figuras ilustres da história política do país: O presidente Tancredo Neves e o parlamentar Ulisses Guimarães. O doutor Tancredo, ele não chegou a conhecer pessoalmente, porque faleceu pouco após sua posse na presidência da República em 1985. Heráclito havia chegado á Brasília naquele ano e aquele quadro, de certa forma, marcou uma escolha. Já o doutor Ulisses ele teve o prazer de conhecer, até mesmo frequentando sua residência. Aquele homem corajoso, que enfrentou os anos de chumbo da ditadura, era admirável. Seu retrato em óleo representou também uma escolha. Ele abanou a cabeça ao pensar: – Ah... Se fosse possível um “pentimento”, não só nestas telas, mas também nas nossas escolhas!

De súbito bateram á porta. Só podia ser algum morador, e isto o irritou porque deixou claro a todos que lhe comunicassem apenas por mensagens nas redes, e somente o necessário.

Ao abrir, era um jovem não morador do prédio: - Boa tarde; o senhor é o doutor Heráclito?

- Sim, sou eu. Quem é você, e como entrou?

- Sou Antonio do Carmo Junior; filho do Doca! Eu tenho a chave da portaria.

- Ah sim! – estendeu a mão: - Então, por favor, pode me entregar a chave?

Ele entregou o pequeno chaveiro, e disse: - Desculpe aí se não telefonei. Não tinha seu número.

- Não há problemas meu jovem. Bem, tenha uma boa tarde então. – e ia fechando a porta.

- Espere doutor! Não vim só entregar a chave. Vim falar com a Dona Adelaide, mas ela não tá em casa. Aí vim ver se o doutor me ajuda!

- Em que posso ajudá-lo?

- Bem,... É que estou tendo um probleminha com um documento. É que meu pai morava num apartamento dela, no térreo nos fundos. O doutor sabe disto?

- Sim, sabia. Mas o que eu tenho a ver com isto?

- É que, quando meu pai veio trabalhar aqui, o marido da Dona Adelaide ainda era vivo. Meu pai foi criado na fazenda da família do marido dela, que gostava muito do meu pai. Então antes dele morrer, ele deixou o apartamento para meu pai! – pegou um papel amassado no bolso da jaqueta. – Deixou isso em documento, olha aí: mas agora a Dona Adelaide não quer honrar! Aí eu queria ver se o senhor fala com ela, para aceitar.

- Deixe-me ver. – apanhou o papel com certo asco e riu ao responder: - Meu amigo: isto aqui é apenas uma declaração; um documento de gaveta sem registro em cartório que sequer está datado! – devolveu-o: - Isto não tem qualquer valor jurídico, meu jovem!

- Não! – pegou o papel: - Tem sim; era desejo dele não deixar meu pai no desamparo! Eu tenho meus direitos!

Heráclito se aproximou retirando a máscara: - Olhe aqui rapaz; quer um conselho? Se esqueça disto! Rasgue este papelzinho e suma daqui, para o seu bem!

Mesmo assustado ante aquele olhar frio, o jovem desafiou: - To de boa!... Eu queria fazer na paz; mas se não tem jeito, vai ser na justiça! – e saiu na direção do elevador rapidamente, e desceu.

Heráclito entrou um instante, apanhou um caderno de desenho e um lápis, e seguiu ao elevador de serviços, e enquanto descia, ia desenhando o retrato do jovem com extrema rapidez nos traços e num realismo espantoso. Depois o fitou com raiva, chegando a amassar o caderno. O elevador chegou e ele seguiu pelo saguão do prédio sob o olhar do porteiro. Heráclito parou diante dele e desferiu-lhe um bofetão. – Imbecil!... Não podia tê-lo deixado subir!

Ainda com a mão no rosto ele respondeu: - Mas senhor, ele possuía chave...! – Mal teve tempo de concluir, pois ecoou o silvo de uma freada violenta à entrada do prédio, seguida de um baque e um grito.

Heráclito chegou á portaria. Um caminhão havia atropelado o filho de Doca, que jazia morto no asfalto. Na sua mão aberta, estava o papel guardado com tanto desvelo. Heráclito deu um leve sopro, e o documento flutuou até sumir numa boca de lobo á sarjeta.

O porteiro veio, e Heráclito o agarrou pelo colarinho. – Eu devia acabar com você!... – olhou o corpo ensanguentado: - Chame a polícia. Ele atravessou a rua sem prestar atenção. Entendeu?

- Sim doutor!

- Despesas com sepultamento, serão por minha conta. – largou-o e voltou ao apartamento 502.

Entrou e correu ao banheiro para vomitar.

Adônis estava fazendo um café quando ouviu o baque seco do caminhão batendo contra o corpo do rapaz na portaria do prédio. Na mesma hora ele desligou o fogão e desceu.

Passou pelo porteiro sem reparar o quanto ele estava apavorado.

Mas quando Adônis chegou à portaria, já estavam todos lá o resgate e a polícia. Ele ficou muito assustado com a cena. Deu pra ver que era um rapaz muito jovem, ouviu alguém dizendo que saira correndo do prédio e aparentemente não atentou ao caminhão de refrigerantes que dobrava a esquina.

Adônis voltou ao saguão do edifício Paladium que por ser todo de mármore e com o pé direito duplo sempre era mais fresco mesmo em dias quentes como aquele

Se aproximou do porteiro e perguntou.

- Você viu o que aconteceu?

O porteiro muito jovem, com o rosto ainda marcado pelo safanão de Heráclito olhou para Adônis e começou a falar.

Olha seu Adônis, eu não sei o que aconteceu, este rapaz passou por mim voando e subiu ao quinto andar antes que eu pudesse avisar ao seu Heráclito, logo em seguida desceu correndo.

- Como assim?

Atrás dele veio seu Heráclito, ele chegou a me dar um tapa na cara por eu não ter barrado o rapaz, mas eu não tive culpa!

Passou a mão no rosto que ainda ardia e pensou. Isso não vai ficar assim! E continuou!

Ele me pediu para ligar para todo mundo. Polícia, funerária. Mas nem deu tempo, o resgate chegou logo. Vou ligar para a tal funerária agora, ele me disse que era pra falar que ele pagaria tudo.

Que história mais estranha! Ele não podia ter feito isso com você, ele está louco. Se quiser prestar queixa à polícia eu te ajudo.

Não, seu Adônis, de jeito nenhum, eu preciso do emprego. Uma última coisa. O rapaz estava com este papel na mão.

Pegou um papel todo amassado e sujo, e o entregou a Adônis.

O porteiro do prédio ai do lado estava na porta quando tudo aconteceu, ele viu o seu Heráclito tirar a máscara e soprar este papel para o bueiro aí em frente, e achou muito estranho. Ele pegou o papel e me entregou.

Ele fez muito bem, eu vou dar uma olhada depois. Se precisar de alguma coisa me fale.

Adônis disse isso e subiu, estava ansioso por chegar ao seu apartamento e ler aquele papel amassado e sujo de sangue.

Naquele momento, Heráclito fechou seus olhos e falou: - Rapaz estúpido! – depois sorriu: - Mas pensando bem; vai até me facilitar. – se voltou á tela que pintava e a riscou com um borrão de tinta vermelha: - Não vou mais precisar disto.

Era 2h25min da madrugada, quando Heráclito deixou seu apartamento e desceu á portaria.

O mesmo porteiro da tarde abriu a porta do elevador. Heráclito se colocou diante dele. O rapaz o temeu, mas falou: - Doutor. Sobre o que aconteceu esta tarde; não achei justo o doutor me dar na cara.

Heráclito colocou o dedo nos seus lábios e respondeu: - Shhhhh! Às vezes sou um pouco rude, e peço perdão! – e o encarou mais de perto com suas retinas violetas: - Porém, costumo ser muito mais rude com traidores! – lhe deu tapinhas na bochecha e concluiu: - Que pena. – e saiu.

Ele ia guiando seu belo Porsche negro pela cidade em busca de um lugar específico; o ateliê de um pintor obscuro numa vila, no subúrbio. Lugar ermo que qualquer um teria medo de entrar. Tocou a campainha e logo o artista veio atender; era um homem na meia idade magro, alto e com aparência suja que recebeu Heráclito com mesuras exageradas como quem recebe o redentor: - Seja bem vindo doutor! – havia álcool no seu hálito. – Entre, entre! O doutor achou minha casa fácil?

Cortou-o: - Sim! Mas, por favor, sem delongas; vamos começar?

- Oh sim, claro doutor! Está tudo do jeito que combinamos; sente-se aqui! – mostrou uma cadeira de madeira repleta de nódoas ressecadas de tintas: - Se quiser algo para beber, é só falar doutor. Tenho uísque e água. – Heráclito olhou uma bandeja com alguns copos e uma garrafa de uísque que ele não usaria sequer como desinfetante. Depois o pintor se colocou adiante do seu cavalete onde havia uma tela em branco ao lado de palhetas de tinta cujas cores mal se definiam. – O doutor não vai se arrepender!

- Realmente, eu espero que não!

O homem começou a riscar a tela com fusain na produção do esboço. Olhou-o e perguntou: - O doutor quer ver?

- Ainda não! Só quando estiver pronto.

O artista assentiu com gesto de cabeça e depois seguiu á colocação da tinta. Era rápido. Nas paredes viam-se inúmeras telas, algumas sem conclusão e cobertas de poeira, indicando que jamais seriam. Tinha um recorte de jornal bem antigo trazendo matéria de uma exposição daquele artista em Roma, mostrando que ele já tivera destaque e brilho, que esperava resgatar retratando o ilustre ex-procurador.

Depois de três horas o quadro estava concluído. O pintor até arfava: - Pronto,... Está pronto!... – limpou a testa, afastando os cabelos molhados de suor, e falou: - Veja doutor,... Olhe bem. Se alguma coisa não agradar, é só falar que eu conserto!

Heráclito se colocou diante do quadro: um retrato onde seu rosto pálido aparecia sobre um fundo escuro e ao mesmo tempo bruxuleante. Uma pintura que remetia ao mestre Rembrandt. Decididamente, aquele miserável com olhar de súplica era um artista de talento perdido no anonimato cruel das circunstâncias. Mas era preciso sublimar a admiração e a piedade, e seguir á meta que o levou ali. Ele abanou a cabeça e falou ríspido: - Eu nem posso acreditar que vim aqui neste lugar infecto, que me indicaram como sendo o ateliê de um artista injustiçado pelo mercado, para ver uma coisa tão medíocre e horrenda como esta tela! – o pintor arregalou os olhos enquanto ele prosseguia: - Isto não passa de um pastiche de arte, horroroso e sem qualquer resquício de qualidade! – olhou-o: - Bem que me alertaram que não passava de um bêbado metido a artista. Que pintura de merda! – e continuou olhando-o; sua expressão era colérica, pronto a lhe agredir fisicamente. – me odeie, vamos! – pensava. Então voltou o ar suplicante ao olhar do pintor: - Oh não doutor,... Realmente não ficou muito bom, né?... Olhe, eu posso consertar; onde o doutor acha que ficou ruim? – Furioso Heráclito chutou o cavalete atirando a tela ao chão. O pintor ajoelhou, apanhando a pintura com mãos trêmulas: - Desculpe doutor!... Eu faço outra! – Heráclito não respondeu e seguiu á porta; o homem se levantou e o segurou pelo braço: - Por caridade doutor,... Me ajuda!... Eu faço outro muito melhor! – Ele cerrou os olhos dizendo: - Largue-me!... Não me faça odiá-lo! - e meteu a mão no bolso, atirando algumas cédulas ao chão, ao que o pobre infeliz se jogou para pegar.

Heráclito saiu da casa quase lhe faltando ar, abrindo o colarinho da camisa. Havia um grupo de jovens rodeando seu carro, mas ao verem suas retinas incandescentes se afastaram correndo. Ele entrou e arrancou a toda velocidade.

Então abanou a cabeça ao questionar: - Por que a miséria humana precisa ser tão degradante? – olhou-se no retrovisor e concluiu: - Por que...?

Ao chegar á entrada do Edifício Palladium, havia carros da polícia, ambulância e um burburinho de moradores, que ao verem Heráclito chegando logo o rodearam para relatar mais uma tragédia: o porteiro – o mesmo que ele esbofeteou. – tinha subido ao apartamento de cobertura bateu á porta e dominou dona Adelaide, que gritou por socorro. Alguns moradores ouviram disparos de arma de fogo e chamaram a polícia. Quando entraram no apartamento, ela jazia morta com um tiro no peito. O corpo do rapaz foi encontrado na varanda; ele tinha cometido suicídio atirando na própria cabeça. A arma estava na sua mão.

Estavam todos assustados e consternados.

- Inacreditável! Ele veio trabalhar conosco à pouco; tinha boas referências, eu não consigo imaginar o que o levou à fazer uma barbaridade dessas! – explicava á policia quando alguém aventou a hipótese de uso de drogas. – É possível. Esta praga destrói as pessoas e as faz cometer crimes. – abanou a cabeça. – Sinto-me culpado; fui eu que o contratei! – os moradores o consolaram com palavras de apoio. Menos Adônis.




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