- Liga não “seu” Adonis. Essa véia é nojenta assim mesmo! – disse-lhe Doca.
E de fato, Heráclito cumpria as obrigações do cargo com rara eficácia. Resolveu desavenças pela colocação do lixo; do uso do salão de festas, que clamava por atenção e o novo síndico o deixou com ares de hotel cinco estrelas; e uso das vagas da garagem. Tudo isto se valendo da sua capacidade de persuasão que, como dizia Doca: - Convence até o papa virar aiatolá!
Em março, quando regras mais severas no transito nas dependências comuns do edifício se fizeram necessárias por causa da pandemia, Heráclito deliberou, entre outras coisas, que entregadores de delivery nunca entrassem no saguão do prédio. Qualquer encomenda seria recebida ao portão por Doca, que deveria apresentar-se de máscara, luvas e até avental, substituídos a cada nova entrega. Retirou todos os móveis estofados do saguão a fim de evitar contato social, e mesmo a colocação do lixo, devia obedecer a uma escala para que não fossem todos de uma vez. Até o elevador devia ser limpo a cada uso. Tudo muito sensato.
Porém, Doca considerava as regras exageradas. Na verdade isto lhe criava uma trabalheira tremenda em ter sempre que trocar máscaras e roupas a cada vez que precisava ir a portaria receber encomendas. Sua máquina de lavar simplesmente não dava conta, além da limpeza constante nos elevadores. Assim, ele driblava as regras na encolha.
Contudo, no mês de abril, Doca foi hospitalizado às pressas com pneumonia já em estado crítico, e foi à óbito, obviamente por Covid! Mais um trauma no Edifício Palladium, pois Doca era um dos funcionários mais querido dos moradores. Dona Adelaide abanava a cabeça ao dizer: - Falei tanto para ele sossegar; mas era só ter uma chance para correr ao buteco! – suspiro: - Que lamentável! – Adonis tinha vontade de mandá-la á merda, mas se segurava.
Na reunião dos condôminos, Adonis sugeriu contratar o filho de Doca, que também era porteiro e estava desempregado. Mas Heráclito já havia feito contato com uma conservadora que forneceria dois porteiros, um diurno e um noturno, com custo mais baixo, uma vez que eles não precisariam viver no edifício, como Doca fazia e nem seriam empregados diretos, significando eliminação de encargos trabalhistas. Para tal apresentou várias planilhas de custo que comprovavam sua tese; que foi aceita e aplaudida por todos os moradores; menos por Adonis que ia argumentar, mas novamente a senhora Adelaide interveio com uma pergunta: - O senhor já quitou suas pendências?... Ah, então não pode votar!
– Vontade de esganar essa velha! – pensou.
Os novos porteiros eram de uma eficiência germânica trajando uniformes impecavelmente limpos e ajustados, que em nada lembravam a deselegância discreta de Doca e seu radinho de pilha. O Edifício Palladium parecia até retornar ao seu período áureo!
Num início de noite, Heráclito chegou à portaria; Adonis estava no elevador e apertou o botão do quinto andar rápido para obrigá-lo subir pelo elevador de serviço. Mas o elevador o aguardou, e Heráclito entrou. Carregava uma tela em branco e falava ao celular: - Não me apresse, por favor! Não existe obra bem feita e rápida ao mesmo tempo. A arte, qualquer que seja não é feita assim a toque de caixa!... Eu sei disto; mas tenha um pouco mais de paciência, que eu garanto que não vai se arrepender!... Certo, certo. Falamo-nos depois, um abraço! – e desligou. Depois olhou Adonis, sorriu e disse: - É o meu marchand, como sempre me apressando. Ah, depois que aposentei pude me dedicar as coisas que realmente gosto. E a pintura é uma delas, e minha arte é muito vigorosa, mas extremamente minuciosa! – o elevador chegou ao quinto andar e ele saiu: - Boa noite senhor Adonis!
- Boa noite.
- Um dia lhe convido para ver minhas telas,... Quero dizer, quando acabar esta pandemia infernal! – abriu a porta do apartamento 502, e entrou.
Por volta das 2hs30min, Heráclito saiu novamente, entrando no elevador. Porém, não seguiu á portaria, e sim, á cobertura.
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