Conto "O Indicador" - Capítulo 4

Ao entrarmos, vimos alguns homens descarregando as caminhonetes, e me surpreendeu a facilidade com que levavam as grandes caixas.

Eram seis carregadores. Ao terminarem de esvaziar a segunda caminhonete, pararam um pouco para descansar. Naquele momento, aproveitamos para entrar no galpão e nos esconder
atrás de algumas das caixas.

Ficamos ali encolhidos e em silêncio por um bom tempo. Quando as luzes se apagaram e tudo ficou quieto, ainda esperamos mais. Acho que acabamos cochilando.

Acordei com meu comparsa se levantando e o segui. Afinal, estávamos juntos na empreitada e já havíamos cometido pelo menos meia dúzia de crimes cada um, até aquele momento. Não dava mais para voltar atrás.

Saímos do nosso esconderijo e percebi que ele seguiu, decidido, para um canto do galpão.

Então, meu camarada tirou do bolso um pequeno canivete suíço (alguém se lembra deles?), cortou a fita que lacrava a caixa, puxou apressadamente as abas de papelão para o lado e pudemos ver centenas de caixas de medicamentos, ele pegou quantas couberam em seus bolsos e me entregou outro tanto para que eu guardasse, o que fiz sem pensar.

Naquele momento, ouvimos o portão do depósito se abrir novamente. Vimos que já era manhã e alguns operários chegavam para trabalhar. Eram no máximo dez. Eles foram direto para uma sala no outro lado do galpão, que imaginamos ser o vestiário.

Percebemos que não conseguiríamos sair dali durante o dia, com todo o movimento de trabalhadores. Resolvemos então nos esconder de novo e esperar.

Eu já nem pensava na fome e na sede. O medo de ser encontrado ali era maior, mas eu precisava ir ao banheiro. O que só foi possível na hora do almoço, quando todos foram para o refeitório lá fora.

Combinei com o ladrão de dedos que eu iria primeiro. O banheiro só podia ser dentro do vestiário. Era o único espaço reservado em todo o galpão. Assim fiz. Consegui ir e voltar sem ser visto.

Quando voltei, foi a vez do meu parceiro. Depois que ele voltou, pedi que me contasse tudo, com detalhes.

Enquanto isso, os operários começaram a voltar, abrir as caixas e trocar os comprimidos de embalagem, para depois colocá-los em outra caixa, essa com um aviso em inglês: “Warning! Toxic Materials!”, seguido da indefectível caveirinha, que significa o mesmo em qualquer idioma: “Risco de morte”.

Foi uma longa história, que resumo aqui. Lembram do tal médico, amigo do meu amigo? Pois é, ele era o dono do dedo que usamos para abrir a porta. Ele também era o mesmo com o qual eu havia me consultado um mês antes. Trabalhava para a empresa que importava as cápsulas e as enviava para um pequeno laboratório nos Estados Unidos. Antes de morrer, ele enviou pelos correios um pedido para que meu amigo seguisse o mapa que ele deixara escondido em uma estante de livros no Café. Meu amigo, então, pegou-o enquanto eu buscava uma cerveja, na noite em que tudo começou. Daí, foi só me convencer de que tinha uma pista para o tal galpão que ele disse ter ficado sabendo por um conhecido farmacêutico e, voilà, ele já tinha o cúmplice que precisava para a empreitada.

Quando ele terminou de me contar a nova versão da história, a tarde já chegava ao final e os funcionários do galpão começaram a se encaminhar para o vestiário. Depois de algum tempo, todos saíram praticamente juntos. O mesmo guarda que abriu o portão para eles o fechou assim que o último saiu, não sem antes apagar todas as luzes.

Ah, esqueci de contar para vocês a última parte da história. O médico havia contraído a forma mais severa da COVID-19 e a transmitido para sua esposa. Ele amputou o próprio dedo indicador e o enviou juntamente com a mensagem, onde pedia que pegasse algumas caixas do medicamento e as entregasse para ela, além, é claro, de guardar algumas para o caso de precisar.

Não entendi o porquê do segredo, até que ele me contasse que o vírus havia sido criado em laboratório para uma eventual guerra biológica. Mas, como era pouco letal para essa finalidade, acabara ficando esquecido até o vazamento “acidental”. Claro que o antídoto existia e era distribuído apenas para os poderosos de cada continente, através desses depósitos “secretos”.

Claro também que a vacina, quando surgisse, seria vendida por uma fortuna a governos do mundo todo, mas isso era um problema para depois. Agora, precisávamos escapar dali.

Saímos por uma janela que ficava no vestiário e usamos o dedo que já não cheirava muito bem para abrir o portão por onde havíamos entrado.

Aproveitamos a pouca luminosidade para atravessar o morro sem sermos vistos. Chegando ao carro, nem paramos para respirar. Dei a partida e seguimos em silêncio pela estradinha.

Deixei meu amigo na porta do prédio onde morava e nos despedimos com um breve abraço. Nunca mais voltamos a nos falar, mas ainda tenho minhas caixas de remédio guardadas e, às vezes, eu me pergunto se ele teria guardado o dedo indicador, ou o devolvido para a viúva junto com o remédio que nos arriscamos tanto para conseguir.

Quanto à pandemia? Segue roubando vidas e sonhos, sem nenhuma previsão de acabar.

Quanto a mim, fiz uma denúncia anônima do depósito de medicamentos, que as autoridades afirmaram se tratar de um galpão vazio.

O Café? Bem, o Café continua fechado, aguardando a chegada da vacina para voltar a funcionar. E nós continuamos em casa, com medo.

Fim.



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