Conto "O Indicador" - Capítulo 1

Era uma típica manhã de verão, plena de calor e luz, tão comuns a essa estação.

As pessoas pareciam cansadas, como se estivéssemos no final de um ciclo.

Naquele domingo de março, começaram a surgir as primeiras notícias preocupantes.

Um novo vírus se espalhava pelo mundo, em uma velocidade que desafiava a ciência e colocava governos do hemisfério norte contra a parede.

As primeiras informações eram desencontradas, organismos internacionais ainda não podiam, ou queriam, falar claramente da nossa vulnerabilidade ante o novo inimigo.

Sabia-se que o epicentro da pandemia era mais uma vez a China, país cuja cultura e hábitos muito diferentes dos nossos nos causava sempre estranhamento e, às vezes, certo asco. Mas o fato é que ela estava se espalhando rapidamente.

Acordei cedo naquela manhã, apesar do trabalho ter se estendido até quase 2h da madrugada.

Os primeiros relatos lembravam bastante a SARS, que também havia deixado o mundo apreensivo e ceifado muitas vidas há alguns anos apenas.

Mas até aquele dia, a situação se desenrolava como muitas outras antes. Sabe quando você está meio anestesiado com notícias ruins e elas parecem que nunca vão te afetar?

Por volta de 21h, entrou no ar o noticiário dominical mais assistido do país. E eu, como milhões de outros brasileiros, sentei-me para assistir. (sim, eu ainda acreditava nos noticiários).

Naquela noite, pareceu-me que todos começaram, de certa forma, a perceber que suas vidas insuportavelmente "normais" levariam uma bela sacudida. Falou-se ali, pela primeira vez, a palavra "Quarentena". Fui dormir sentindo um misto de apreensão e incerteza, mas nem de longe poderia prever o pesadelo em que todos mergulharíamos.

Ao me levantar na segunda-feira, me sentia como se tivesse passado a noite em claro, mesmo tendo dormido algumas horas.
No caminho para a padaria, percebi imediatamente que não se falava de outro assunto que não fosse o coronavírus.

E as pessoas começaram a repetir incessantemente duas palavras que ouviríamos muito dali em diante: Pandemia e Quarentena.
Cheguei para trabalhar às 13h30min, como de costume. Olhei em volta, todo o comércio aberto, mas uma sombra pairava no ar. As pessoas pareciam assustadas, como pássaros quando está chegando uma tempestade.

Como fazia todos os dias nos últimos cinco anos, abri normalmente o Café. Naquela noite, havia um evento de turismo programado para acontecer às 19h, e ele reuniu pouquíssima gente. Só se falava da COVID-19.

Ao encerrar o expediente, saí para uma cidade bastante diferente.
No dia seguinte, foi decretada a quarentena, sem previsão para o seu final.

Eram medidas duras. E eu me perguntava como a economia do país, que já não vinha muito bem, aguentaria por 30 dias ou mais de férias forçadas, algo inédito até então.

Já estávamos em meados de junho. Há 90 dias, o país, e por quê não dizer o mundo, haviam parado.

Eu assumira, desde o início, uma rotina de cumprir um horário no trabalho todos os dias, para assim tentar me sentir um pouco menos passivo diante de toda a situação.

Passava as minhas tardes no Café fechado, resolvendo problemas que se agravaram após a proibição do funcionamento, bem como tentando fazer algum dinheiro, Tentativas, em sua maioria, frustradas.

Mas era melhor que ficar em casa hipnotizado em frente à TV assistindo as piores notícias possíveis.

Naquelas tardes e começo de noites, sempre apareciam algumas pessoas para alugar um vídeo, comprar um livro ou mesmo tomar um café.

E, assim, eu revia amigos, o que me trazia algum alento em dias tão difíceis.

Era cada vez mais comum ver pontos comerciais vagos. Eram muitas lojas fechando as portas definitivamente.

Certa tarde, conversando com dois desses amigos que se mostraram mais frequentes naquele período, comecei a questionar alguns fatos que estavam sendo massivamente enfiados goela abaixo de todos como verdade inquestionável.

Já se ouvia aqui e ali alguns argumentos que tentavam desmontar a parede de fatos estranhos que era erguida todos os dias à nossa frente.

Uma teoria era de que o vírus teria sido criado em laboratório para frear o crescimento da economia chinesa, que já ameaçava tirar
dos americanos a supremacia econômica há anos ostentada.

Havia também a teoria de que o patógeno seria uma maneira de instituir uma nova ordem mundial, através do medo.

Eu duvidava de todas, mas também não engolia a versão propagada pela imprensa, que não estaria sendo tendenciosa pela primeira vez.

É claro que com o tempo, que agora sobrava, comecei a pesquisar notícias sobre a pandemia em todos os canais possíveis.

E foi numa dessas noites de insônia e bisbilhotagem virtual que tomei conhecimento pelas redes sociais do caso de um médico recém-chegado da China.

Ele havia viajado de férias com a família, no período dos feriados de carnaval.

E se vira preso em meio ao caos que explodiu enquanto estavam por lá, só conseguindo voltar para casa cerca de 90 dias depois.

Por coincidência, ele era infectologista. E com uma rápida pesquisa no Google, descobri também que, no período de sua viagem, aconteceria em Wuhan um congresso de infectologia na conceituada Wuhan University, congresso esse que, por motivos óbvios, havia sido cancelado.

Fiquei muito curioso com a história e resolvi ligar e marcar uma “consulta”, não foi difícil conseguir um horário. As agendas andavam vazias.


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