Conto "O Indicador" - Capítulo 2

Acordei agitado no dia da consulta. Dentro de algumas horas, teria a oportunidade de fazer algumas perguntas ao médico que estivera no império do dragão bem no momento da explosão da pandemia por lá. Eu só não sabia se iria gostar das respostas.

Ao chegar no consultório, em um sobrado próximo ao centro, logo vi pela placa que ele e a esposa (deduzi pelo sobrenome) dividiam o espaço e, aparentemente, moravam no andar de cima.

Em apenas alguns minutos de espera, fui convidado pelo próprio médico a entrar. Depois de um rápido cumprimento e de me apontar a cadeira com um meneio de cabeça, ele foi direto ao ponto e perguntou o motivo de minha consulta.

Eu, por minha vez, fui mais discreto e comecei perguntando o quanto deveria me preocupar com a pandemia e os cuidados que deveria ter, além, é claro, de perguntar a quais sintomas deveria estar atento.

Enquanto ele enfileirava seus argumentos, eu só conseguia pensar no que ele e a esposa teriam vivenciado.

Quando nossa consulta se encaminhava para o final, eu me enchi de coragem e perguntei a ele o que estava sendo feito na China que era diferente daqui, já que ele ficara retido por lá mais de três meses.

Percebi na hora seu olhar de surpresa com minha pergunta, mas expliquei a ele o contexto. Disse que era proprietário de um Café que organizava eventos, o que implicava em aglomerações, e que gostaria de ter uma noção para poder me preparar para o que viria.

Ele pensou por um momento e me respondeu: “Nada de diferente”. E se levantou, indicando que a consulta havia acabado.

Alguns dias depois, ele e a esposa apareceram no Café para comprar alguns livros. Eu o achei bastante agitado, mas não estranhei. Até onde eu sabia, ele era sempre assim.

Eu me lembrei desse fato semanas depois, quando soube da notícia de que eles haviam se mudado, aparentemente sem deixar vestígios do seu destino.

Mas a vida corria. Nos dias seguintes, ficava cada vez mais evidente que, diante da omissão do poder público, as pessoas estavam retomando suas atividades, mesmo de maneira irregular. Afinal, as contas não haviam parado de chegar.

Era cada vez mais comum ver pontos comerciais vagos. Eram muitas lojas fechando as portas definitivamente.

E o pior evidentemente, era o número de vítimas que não parava de aumentar.

Numa tarde, recebi uma mensagem de um amigo da área de saúde que não via há algum tempo e combinamos de tomar um café no final do dia.

Nós conversamos muito. Foi um bate-papo agradável e falamos sobre tudo. afinal nos conhecíamos há muitos anos.

No meio da nossa conversa ele me contou uma história estranha que tinha ouvido de um colega dono de farmácia.

Um laboratório na zona rural de Juiz de Fora estaria produzindo de forma clandestina uma medicação que, segundo lhe fora dito, era 99% eficaz no combate ao coronavírus.

Fiquei muito curioso. Por que alguém esconderia uma fórmula que, além de salvar milhares de vidas, certamente renderia muito dinheiro para quem a produzisse?

Àquela altura, já havíamos trocado o café pela cerveja. E, lá pelas tantas, decidimos ir até o lugar que o tal farmacêutico havia falado.

Era uma região de difícil acesso, no final de uma estrada de terra muito pouco utilizada. Assim, combinamos nossa aventura para o dia seguinte.



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