5 de out. de 2025

1985…. (Parte 1)

 


De Marcelo Espindola:


Foi uma noite estranha, além de ter ficado até muito tarde naquela festa flashback eu tinha evidentemente exagerado na bebida, afinal, não era sempre que se tinha uma programação daquele nível na cidade. Banda de sucesso no eixo Rio/ S.P. tocando os grandes clássicos do passado e open bar com uma grande variedade de  drinks retrô (rabo de galo, Hi-Fi e até Keep-cooler um refresco de vinho com uvas e morangos).


Música da melhor qualidade em um evento feito para cinquentões, a banda tocava só as melhores dos anos 80. 

Que, aliás, era minha década preferida em tudo. Cinema, música, acho que até a Coca-Cola dos anos 80 era mais gostosa.


Eu sequer me lembrava de como havia chegado em casa, agora que estava começando a abrir os olhos e ouvir de longe o som da “Alexa” que a propósito também não me lembrava de ter comandado. 


Eu só conseguia distinguir um locutor cuja voz lembrava a do Big Boy, lendário apresentador da rádio mundial, dizendo: 

“Hello crazy people” você está sintonizado na rádio Mundial A.M, ZYJ 463 e vamos de música! Com vocês Madonna com o super som “Material girl”!


E logo começaram os primeiros acordes na voz aguda da rainha do pop! (Benditos programas de flashback)... 


-Alexa, desligar!


Nada, Madonna continuava a plenos pulmões…


-Alexa, já falei pra parar!


 Seguia tocando…


A cabeça, parecia que ia explodir, me levantei para ir ao banheiro, na esperança de que um “xixi” matinal e uma água fria no rosto me trouxessem de volta a condição humana, o xixi foi um sucesso inusitado, agora uma boa água no rosto era tudo que eu queria e precisava.


Abri a torneira do lavatório até o final e a água jorrou com uma força inesperada, respingando em meu pijama (pensei comigo). Eu realmente devo ter chegado em casa muito mal, fazia anos que eu não vestia um pijama para dormir.


Com as mãos em concha, peguei um bocado generoso de água fria e molhei, rosto, cabelo e nuca. Repetindo nem sei quantas vezes esse ritual, quando já estava quase me afogando, tateei a parede até encontrar a toalha que esfreguei vigorosamente no rosto até secar toda a água.


Abri os olhos devagar e ainda bastante zonzo, quase desmaiei ao ver que o rosto no espelho não era o meu mas de um rapaz de 17, 18 anos e eu era um homem de 57, quase 58.


Será que eu ainda estava dormindo sob efeito dos muitos “Rabos de galo” ingeridos na noite anterior e aquilo não passava de um sonho? Só podia ser isso. Tratei de levar meu espírito de volta para a cama, acreditando que meu corpo continuava lá. Que pesadelo…


Dormi por mais nem sei quantas horas, e fui acordado pelos primeiros acordes de “Take on me” tocando alto na Alexa. 

Meio dormindo, meio acordado comecei a me lembrar do estranho pesadelo causado pelo excesso de “rabos de galo” me sentei na beira da cama e fiquei tentando acessar a memória da última vez que tive uma ressaca daquele nível, não pude me lembrar acho que aquela tinha sido uma “carraspana” inédita!


Me apoiei na mesinha de cabeceira para me levantar sem maiores riscos e fui pé por pé até o banheiro. Com a bexiga quase estourando, me preparei para um segundo recorde de vazão matinal, mas, qual nada, tudo tinha voltado ao normal.


Ainda impressionado com o pesadelo que jurava ter tido, acordado, mais cedo. Me aproximei do espelho com as pernas bambas, mas tudo o que vi foram meus cabelos grisalhos e arrepiados e minhas olheiras turbinadas pela ressaca “homérica”.


Pela primeira vez em alguns anos, fiquei feliz de me ver no espelho…

Resolvi então sair para comer alguma coisa e ficar frente a frente com o mundo.


Eu morava em um apartamento pequeno no centro da minha cidade, ela também uma cidade pequena, aquele tipo de cidade que demole qualquer pretensão de privacidade, você sempre encontra alguém conhecido, não importa a que horas ou em que lugar você esteja.

Isso, por um lado, incomoda um pouco. Mas, por outro lado, traz um certo conforto e uma sensação de nunca estar totalmente sozinho!


Entrei no elevador e saí com a expectativa de tomar um café expresso daqueles de levantar defunto e autoestima, já que a minha não estava nos seus melhores dias. 


Por mais que tentasse eu não me lembrava de quase nada da noite anterior a não ser a música muito alta e a barraca de drinks “Máquina do tempo”, onde eu tinha tomado muito mais  “rabos de galo” do que deveria.


Saí na portaria do meu prédio e tive certeza de que estava enlouquecendo! Parecia que eu tinha entrado em outra dimensão, a cidade era outra, ou melhor, era a mesma, mas em outro tempo.


Olhei para trás e o prédio de onde eu acabara de sair tinha desaparecido, em seu lugar estava o casarão abandonado do velho grupo escolar, cujas ruínas haviam permanecido ali por anos desvalorizando o centro da cidade.


Eu me lembrava daquele velho prédio “assombrado”, na minha adolescência eu e meus amigos nos desafiávamos a entrar lá nas madrugadas frias de sábado, depois dos bailes do clube comercial, para provar nossa coragem!


Ainda atordoado comecei a olhar em volta as pessoas em suas roupas antigas, rostos familiares que eu não via há muitos anos e que me olhavam de volta como quem olha para um estranho meio esquisito.


Sem entender o que estava acontecendo e sem saber bem o que fazer, fui acho que instintivamente recuando 1,2,3 passos até que de repente eu estava no saguão do meu prédio de novo! 

O saguão estava do mesmo jeito que eu me lembrava, só que absolutamente vazio. 


Corri para o elevador em pânico, apertei o botão do sétimo andar, (o último do prédio) e rezei para que ele subisse rápido e me levasse de volta a segurança da minha casa.


Das duas uma, ou eu estava ainda dormindo e aquilo era o pesadelo mais real da história ou por algum motivo impossível de se explicar, o tempo voltara 40 anos exceto para mim e para o meu apartamento que continuava exatamente como era (ou seria) em 2025.


Continua…

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado!