Tum, tum, tum, tchicumbum…
Tum, tum, tum, tchicumbum…
Tum, tum, tum, pararatchicumbum…
Só podia ser sonho, aquela batucada devia estar apenas na sua cabeça!
Mas não parava e o som ficava cada vez mais alto.
Tum, tum, tchicumbum…
Tum, tum, tchicumbum…
Abriu os olhos com algum esforço e viu que estava deitado numa soleira de loja, não se lembrava de como chegara ali e muito menos quanto tempo se passara depois de ter adormecido.
O sol nos olhos o fez abaixar a cabeça entre as pernas para se proteger da luz , cabeça que aliás latejava em intervalos regulares e em pulsos cada vez mais fortes.
Passaram-se alguns minutos de intensa batucada até que acordasse completamente, ainda atordoado tateou os bolsos em busca do celular e da carteira que ele imaginou estarem ali, mas não estavam.
Conseguiu finalmente se levantar e olhar em volta mas estava muito zonzo para entender qualquer coisa , era uma manhã de sol e ainda havia uma bateria tocando alto e ritmado além de muitos foliões , a maioria com cara de ter passado a noite por ali.
Começou a caminhar quase que instintivamente na direção oposta à que estavam os ritmistas.
A cabeça parecia prestes a explodir a ponto de não conseguir raciocinar direito; pensou que deveria ter tomado um porre homérico para estar naquele estado!
Enquanto andava, procurava por algum rosto ou lugar conhecido. Qualquer referência familiar cairia muito bem naquele momento, tinha a sensação de que estava em um bairro onde nunca tinha estado antes, mais que isso tinha a sensação de que estava em uma cidade desconhecida, mas como isso podia ser possível?
Pensou, já que estava sem dinheiro e documentos em ir andando para casa, só havia um problema; não fazia a menor ideia de onde morava.
Foi então que teve uma ideia, iria a uma delegacia dar queixa do roubo de seus documentos e eles certamente saberiam como ajudá-lo.
Perguntou a um dos muitos ambulantes que estavam por ali vendendo bebidas onde ficava a delegacia mais próxima, segundo o rapaz era uma caminhada de uns 15 minutos até lá.
Estava com muita sede mas de bolsos vazios, pensou então que tudo se resolveria e ele voltaria para pagar sua dívida, se aproveitou então de um descuido do ambulante para pegar uma garrafa de água e sair correndo…
Na verdade nem precisava ter corrido tanto, o vendedor aparentemente não se importara com o pequeno furto.
Percebendo isso voltou a caminhar normalmente, sua cabeça o impedia de continuar correndo.
Ao dobrar a esquina deu de cara com a delegacia, era um prédio enorme que ocupava todo um lado da rua, aliviado foi entrando sem muita cerimônia.
Para entrar precisou empurrar a pesada porta de madeira que rangeu as velhas dobradiças sob o próprio peso, ele então se deparou com um saguão vazio, estranhamente vazio, com muita poeira sobre os móveis velhos como se ninguém entrasse ali a muito tempo!
Dentro do prédio reinava um silêncio absoluto mas da rua ele ainda podia ouvir a batucada,
Tum, tum, tchicumbum…
Tum, tum, tchicumbum…
Viu sobre o balcão empoeirado uma campainha velha e empoeirada, ato contínuo se pôs a toca-lá insistentemente na esperança de que alguém aparecesse!
Atrás do balcão havia uma porta de venezianas que começou a se abrir lentamente, deixando entrar um nesga de Luz no saguão empoeirado .
Olá , você até que chegou aqui bem rápido. A água estava gelada?
Não era possível a aparência era de outra pessoa , um homem mais velho de semblante sereno ; mas mesmo assim ele sabia que era o mesmo que lhe apontara o caminho da delegacia e que o deixara levar a água mesmo sem pagar.
Sim a água estava ótima, mas o que você está fazendo aqui? E porque parece outra pessoa?
Mas eu sou o mesmo, talvez você esteja me vendo com outros olhos, não é Estandárcio?
Estandárcio! O simples som de seu nome sendo dito em voz alta o fez lembrar de tudo, de sua mãe que o batizara assim pelo fato dele ter nascido em uma terça-feira gorda e também por ser ela própria uma foliã entusiasmada, daquelas de desfilar todos os anos e na ala das passistas !
Se lembrou também do seu amigo que trabalhava para o tráfico e lhe ofereceu um servicinho extra no carnaval, ele precisava muito daquele dinheiro e afinal se não o fizesse outra pessoa faria, não dava para mudar isso. Se lembrou de ter aproveitado a noite dos desfiles para levar sua “encomenda”.
Se lembrou também que estava com muito medo e que bebeu algumas doses para conseguir cumprir sua missão.
Se lembrou de subir o morro com seu pacote e se lembrou dos tiros assim que chegou lá, muitos tiros …
Se lembrou de ter corrido muito sem olhar para trás e se lembrou de ser atingido, se lembrou da vista escurecendo, escurecendo, até não se lembrar de mais nada…
Tum, tum, tum, tchicumbum…
Tum, tum, tum, tchicumbum…
Tum, tum, tum, pararatchicumbum…
Parecia que a batucada era dentro da sua cabeça, abriu os olhos e viu que era de manhã, o sol em seus olhos o fez esconder o rosto. A cabeça doía tanto que mal podia raciocinar; sobressaltado se lembrou de passar a mão na camisa encharcada, constatou aliviado que era apenas suor e bebida derramada ali.
Saiu caminhando cambaleante e também aliviado, conferiu seus documentos e eles estavam lá onde deveriam; Estandárcio Pereira estava escrito em sua habilitação bem ao lado de uma foto sua bem recente!
Estava se sentindo muito bem apesar da ressaca, mas que sonho maluco tinha sido aquele…
Não via a hora de voltar para casa, tomar um banho e dormir até quarta-feira…
A boca continuava seca, então pediu uma garrafinha de água mineral ao primeiro ambulante que viu.
Está bem gelada ?
Perguntou o vendedor.
Estandárcio arregalou os olhos!
É você, não é? Foi com você que eu falei em meu sonho!
Que nada rapaz, eu nunca te vi antes. Isso é efeito da bebida, depois de um bom banho e uma boa noite de sono essas coisas saem da sua cabeça!
É pode ser, talvez eu só esteja mesmo precisando descansar. E quanto é a garrafinha de água?
Essa é por conta da casa…
E quando já havia uma distância segura completou.
…Estandárcio…

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