Conto "As nuvens passam..."
O miado constante naquela noite fria trouxe lágrimas para Be@triz.
Olhou para o lado e viu sua gata confortavelmente dormindo agasalhada no cobertor. Tranquila nem mexia.
Lá fora, quantos sofriam com o intenso inverno. Pensar no abandono de muitos a incomodava. Sentia-se impotente, paralisada e consciente que apenas pensar e sofrer não resolveria os problemas do mundo. O que fazer? A dor do mundo, do descaso político, do poder desenfreado, a paralisava.
O miado só despertava uma vontade de ser missionária. Porém não sentia forças. Não nascera irmã Dulce. Olhava para seu conforto e vida tão certinha e sentia-se escrava, imobilizada e impotente.
“O que fazer?” Era a constante pergunta que não calava. Foi quando decidiu desapegar dos excessos e doar. Não restos, mas exageros do capitalismo consumidor. Doar o que seria útil para os menos favorecidos. A princípio doar coisas, porém queria mais, acolher com carinho e amor os que precisassem.
Levantou-se determinada. Foi no quintal e adotou o gato sofrido e abandonado. Deu-lhe comida, carinho e cantinho quente para dormir. Mas, como acolher o mundo em sua casa?
Ajudava em obras sociais, mas era pouco. Resolveu então, a cada dia encher um saco de coisas e deixar na porta para quem passasse. Não como lixo, mas escrito : “Presente para você ou qualquer pessoa que precise”.
Numa semana Be@triz conseguiu desapegar e ajudar muitos. Mas era pouco. Queria salvar o mundo. Sabia ser impossível.
Foi quando lhe ocorreu a ideia da horta comunitária, nos bairros carentes, para dar de comer e ensinar uma alimentação orgânica, saudável. Porém, percebeu a comunidade não queria ajudar. Queria só receber.
Be@triz foi ficando triste, vendo a inércia da maioria. Ninguém queria ajudar, só papeavam e na hora da ação, todos corriam. Mas, ela não desistia. Políticos vinham em busca de votos e logo fugiam. Fiscais da prefeitura multavam e impunham normas.
Be@triz voltou ao início. Deitou-se com seus gatos e simplesmente se acolheu do frio. Seu sonho utópico ficou na imaginação.
Agora lhe surgia uma questão: “Quem eram estes humanos carentes?” Não encontrava resposta. Apenas decidiu fazer sua parte, tendo vida simples, ajudando quem lhe pedisse. “Louco mundo”-pensava.
O sol nascia a cada amanhecer. Os pássaros cantavam e as flores traziam beleza. Quando o ser humano retornasse a sua verdadeira natureza amorosa, talvez tudo mudasse. Miau!
Muito bom, Rosângela! Assim como muitos, eu me identifiquei com a Be@triz.
ResponderExcluirO sentimento é exatamente este, esta barreira que se ergue a frente de quem queira fazer o bem de uma forma que fuja aos preceitos comuns.
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