Conto "Tia Filó e a filha emprestada"
Ela se limitou a um grunhido quando ele se levantou seguindo ao banheiro. Ela ainda se aninhou mais um pouco na cama e pegou seu celular. Havia mensagens de sua mãe e, irritada, resolveu bloqueá-la. Depois virou de lado buscando mais uns minutos nos lençóis
No café, ela estava calada. Então Maicon perguntou: - O que tá pegando Giza? Tu tá com raiva de mim?
Deu de ombros: - Porque eu teria raiva de você?
- Então o que está acontecendo?
Ela mostrou seu celular: - Minha mãe está me mandando mensagens querendo falar da tia Filó. Não abri nenhuma, e como ela não parou, eu bloqueei minha mãe.
- Tu não quer saber o que tua mãe quer?
- Pra quê? É sempre a mesma coisa: “eu não devia ter feito isso; coitadinha da titia, ela não merecia!” – jogou o telefone na mesa: - Hipócritas; ninguém gosta dela! Chamavam de velha unha de fome que só queria saber de juntar dinheiro! Ela já estava com mais de oitenta anos; ia fazer o quê com o dinheiro? Forrar o caixão?
- Tu arrependeu de ter passado a mão na grana dela?
- Não! De qualquer jeito ia cair na mão da família depois que ela morresse; aí sim, ia dar muita briga! – deu de ombros novamente: - Agora não terão por que brigar, porque é tudo nosso! – ele espichou e a beijou. Depois tomou o restinho de café da xícara, e se levantou, dizendo: - Volto pro almoço amor!
Ela sorriu e Maicon saiu.
Gislaine encostou-se ao respaldar da cadeira pensando na vida boa que estava tendo, com dinheiro aplicado em ações e imóveis. – Coitadinha da titia! – sussurrou em tom de zombaria.
Então foi ao quarto se arrumar para seguir á academia quando a campainha tocou. – Ah não Maicon; esqueceu a chave outra vez? – ele sempre esquecia e voltava para buscar, tocando a campainha.
Ela abriu a porta e quase caiu para trás de susto: era sua Tia Filó acompanhada de um homem de quepe. Gislaine temeu ser um policial, até Filó falar: - Ah, então é aqui mesmo que você mora. – virou-se ao homem: - Jarbas; pode me esperar no carro. A conversa aqui será longa!
- Sim senhora Filomena. – e saiu.
As duas ficaram se olhando até Filó perguntar: - Vou poder entrar? Estou cansada! – e já foi entrando, devagar. Usava bengala: - Que apartamento porcaria! – bateu a bengala no chão: - Esse piso aqui é o mais barato que tem. Aposto que foi ponta de estoque!
- O apartamento é alugado! – respondeu.
- Mesmo assim com o dinheiro que você e seu namoradinho vigarista me roubaram, acredito que daria para alugar coisa mais decente!... Me ajude a sentar! – Gislaine foi ajudá-la a sentar numa poltrona enquanto falava: - Onde está o tal do Maicon? – riso: - Nome de pobre!
- Ele foi trabalhar.
Já ajeitada: - Eu imagino! E qual a função do moço? Roubar algodão doce na porta de escolas?
Gislaine pôs a mão nos quadris e falou: - Olha só tia; se veio aqui me ameaçar, já vou avisando que a senhora não tem como provar nada! Ainda tenho as procurações e o atestado de sanidade psiquiátrica provando que a senhora estava lúcida quando me outorgou sua procuradora e...
Cortando-a: - Pode parar por aí Giza; eu sei bem que a cilada foi bem armada pra me enganar, não precisa enumerar suas pilantragens. Além disso, estou velha demais para tolerar as barras dos tribunais! Qualquer decisão judicial demoraria tanto pra sair que teriam que me comunicar no cemitério. Não vim aqui por causa disto, fique tranquila!
- Está bem tia. O que a senhora quer então?
Filó olhou-a bem e disse: - Eu estou precisando de uma filha!
- O quê? – abanou a cabeça: - Se a senhora veio aqui atrás de uma babá, estou fora!
Ela riu: - Não tenho a menor dúvida disto Giza, mas não vim aqui atrás de pajem; estou precisando que você faça o papel de minha filha!
- Como assim?
- E quero que você finja ser minha filha!
Surpresa: - Pra quê?
- A história é a seguinte: há trinta e três anos eu conheci um rapaz na confecção em São Paulo; chamava-se Marco, era desenhista e fazia estampas para a fábrica. Moço muito bonito que gostava de coroas e eu era uma cinquentona ainda enxuta! – fez um muxoxo: - Então começamos um relacionamento. Não sei se eu me apaixonei por ele, ou se foi á vaidade de ter um garotão!
- Esta história não me é estranha, mamãe falou sobre isto.
Ela riu de novo. – Sua mãe e suas tias eram umas idiotas despeitadas! Mas, voltando ao caso: nós ficamos um ano juntos,... Até que eu fiquei grávida!
- Héim? – espantou-se.
- Isso mesmo. Eu achava que mulher da minha idade não pegava mais barriga e não tomei pílula. Então aconteceu. – suspiro: - Aí o Marco deu no pé! Deixou um bilhete pedindo perdão, e dizendo que não tinha cuca para ser pai!... Eu fiquei muito triste, e era gravidez de risco.
- A senhora tirou?
- Não precisou. Eu perdi o bebê! – abanou a cabeça: - Depois disto eu me fechei de vez ao mundo. Só que a gente esquece que este mesmo mundo dá voltas, e há uns dias Marco me encontrou. Pediu perdão por ter me abandonado, estava muito arrependido, e me procurou naquela casa de São Paulo, que você e seu namorado me roubaram! – a encarou por um instante e voltou a falar: - Como não me achou, ele arranjou um detetive, e conseguiu!
- Ah tia; pula fora! Deve estar mais velho e fudido!
- Engano seu Giza! – arregalou os olhos: - A verdade é que Marco era bilionário! – Gizlaine também arregalou os olhos, e Filó continuou: - Sabe esses garotões rebeldes que saem da mansão dos pais pra viver igual á pobre? Este era Marco Starkweather! O sobrenome lhe diz algo?
- Starkweather,... Da empreiteira?
- Esse mesmo!... – cerrou os dentes: - Esse mesmo que se enfiou na minha casa, e eu achava que era mais pobre do que Jó! – abriu os braços: - Ele está profundamente arrependido e quer reparar seu erro assumindo a filha e de quebra, quer assumir eu também! Ele não sabe que eu perdi o bebê, e nas contas dele o filho estaria com trinta e três anos, e como a única sobrinha que tenho nesta idade é você, resolvi te procurar oferecendo esta oportunidade!
Desconfiada: - E por que a senhora vem oferecer isto justamente á sobrinha que,... Acusa de tê-la roubado?
- Porque você não presta, mas não é burra, e gosta de dinheiro. Estou errada? – riso rouco: - Desde menina que eu vi a bisca que você ia virar, mas no fundo, você era minha sobrinha favorita!
- Qual é tia? Sobrinha favorita é uma pinoia; a senhora nunca me deu nada diferente do que dava á outras sobrinhas!
- E por que eu deveria dar se te achava suficientemente safa para se dar bem? E acertei né? Eu te coloquei na minha casa para me ajudar, e foi só eu cochilar para você me trair!
- Tá bem, tá bem, eu fiz isto! Mas o que a senhora ia fazer com tanto dinheiro e imóveis se não aproveitava nada?
- Então você resolveu aproveitar no meu lugar!
- Bem tia,... Mas eu não posso voltar ao passado.
Cortando-a: - Mas pode ajudar no meu futuro, e levando muita vantagem como filha de bilionário!
- Eu sou registrada como filha legítima dos meus pais; ele não vai acreditar!
- Vai sim! Eu disse que minha irmã e meu cunhado toparam assumi-la como filha para me resguardar do vexame de ser mãe solteira na meia idade!
- E se ele quiser exame de DNA?
- Minha filha; ele está tão louco pra te conhecer que se eu lhe apresentar uma chipanzé, como sendo a sua filha legítima, ele vai amar! – brincou com a bengala, e prosseguiu: - Eu estou velha. Quanto tempo você anos acha que terei pela frente; uns cinco anos á mais? Não quero passar meus últimos dias na casa da sua mãe ouvindo queixumes, ou num asilo para pobres. Ainda espero conhecer Paris, e é por isto que guardava dinheiro! – breve pausa. - E então, vai topar?
Gislaine pensou um pouco e perguntou: - Como seria isto?
- Marco possui uma ilha no litoral de São Paulo, que é seu refúgio. Nós o encontraríamos na mansão da ilha.
- Uma ilha?... Por que lá?
- Por que ele é excêntrico! Hum,... Está bem: Marco ficou um tanto obcecado pela sua aparência jovem e exagerou em operações plásticas que deram errado, então prefere ficar escondido por lá. – Gislaine a olhou de lado, e Filó concluiu. – Se quiser pode conferir nas redes sociais! Ele não gosta que lhe tirem fotos e anda com lenços cobrindo o rosto! E então. Vai aceitar? – deu de ombros: - Se não quiser eu posso arranjar outra mulher que o faça, mas,... Apesar de tudo, você é família. Eu me sentiria mais segura!
- Eu,... Eu precisaria conversar com o Maicon primeiro. Posso responder mais tarde?
- Sim! – preparando para levantar: - Mas não demore muito porque ele está ansioso, e eu mais ainda!... Ajude-me a levantar! – a sobrinha a ajudou enquanto Filó Buscava seu celular: - Jarbas? Estou descendo!
Ao chegarem á entrada do prédio havia um imenso carro prateado. O motorista uniformizado veio ajudá-la. Gislaine quase caiu o queixo: - Nossa, que carrão!
- Sim Giza, é um Rolls Royce Phantom último tipo; não é maravilhoso? Pena que não posso mais guiar! – Jarbas abriu a porta e Filó concluiu. – Tenho seu contato e vou enviar mensagem. – Entrou no carro: - Não demore muito tá? Tenho pressa! Vamos embora Jarbas!
O carro saiu deixando Gislaine espantada.
Quando Maicon voltou, ficou abismado com o que Gislaine contou e foram direto á internet e ás redes sociais conferirem. Lá estava: Grupo Empresarial Starkweather S.A. – Caraaaca Giza: empreiteira, construtora, estaleiros, fábricas, obras no exterior! Vai ser rico assim na casa do cacete!
- Acha aí o tal do Marco! – logo o encontraram, e era do jeito que tia Filó relatou: excêntrico, avesso á badalações, solteiro e um dos homens mais ricos do Brasil cuja fortuna chegava á casa de R$2.000.000.000,00 incluindo participações em diversas empresas pelo mundo. – Virgem santa!... Isto é orçamento de cidade grande! – falou Maicon. – havia poucas fotos de Marco, quase todas o mostrando com rosto coberto por lenços, e algumas fotos antigas quando jovem: um hippie! Procurando mais um pouco, encontraram uma foto sem lenço com o rosto desfigurado por muitas cirurgias plásticas desastrosas: - Que horrível, parece um buldogue! – zombou Maicon.
- Não fale assim de papai! – riu Gislaine. Então buscou seu celular: - Tia, eu aceito! Quando podemos ir?
Em três dias Gislaine e Maicon chegavam á uma marina no Guarujá numa van negra guiada por Jarbas que os apanhou no aeroporto; tia Filó os aguardava. Estavam ansiosos pelo encontro, e Filó explicava que seguiriam á ilha numa lancha. Marco os estava aguardando.
Então o telefone de Jarbas tocou; ele falou um pouco e explicou-se pedindo desculpas: - Senhora Filomena, ocorreu um lamentável desencontro de informações, e preciso retornar ao aeroporto de Guarulhos para buscar o Emir Ibrahim Al Khaleb que está chegando de Dubai! Sou o motorista que está mais próximo. – abanou a cabeça: - O doutor Marco ficará furioso!
- Ah meu deus! – lamentou Filó. – Então consiga alguém para pilotar a lancha, ou não teremos como chegar á ilha!
Maicon interrompeu: - Eu sei pilotar embarcações; já estive na marinha! – então Jarbas lhe explicou o modelo de lancha e o trajeto que deveria seguir. Enquanto isto Gislaine falava á Filó. – Estou tão nervosa!... E se ele não acreditar?
- Relaxe, minha filha. Marquinho mal pode esperar para conhecer sua filha; a mesma que ele abandonou. Coitadinho, ele se sente tão culpado!... Trate-o com carinho e ele vai te dar o mundo!
- Tia,... Eu nem sei como agradecer depois do que fiz...
- Shhhhhh; esqueça isto! O que quero como gratidão é usufruir das benesses de ser a mãe da princesa herdeira! – aproximou-se: - Mas mostre-se arredia pelo abandono do seu pai. Um pouco de culpa cairá bem agora!
Jarbas pediu desculpas mais uma vez e seguiu á van enquanto Maicon vinha dizendo que a lancha estava ancorada ao final do píer, e chamava Paradiso.
O trio seguia pelo píer ladeado por iates luxuosos quando tia Filó parou: - Ai,... Esta maldita artrite! Ajudem-me, por favor!
Gislaine e Maicon se colocaram lado a lado ajudando-a até chegarem á embarcação. – Lancha? – exclamou Maicon: - Uau!... É um iate!
Filó riu: - Não, fofo. Esta é a lancha! O iate é aquele! - apontou a outra embarcação luxuosa e imensa ao lado. – Para translado á ilha, Marquinho prefere este, que acha mais simples.
Os três embarcaram, e Maicon foi direto ao leme; tinha um quepe de comandante que ele não se furtou em colocar com um sorriso nos lábios carnudos. – É isto aí senhoras, bem vindas ao S.S. Paradiso! – e riu: - A ilha se chama Sunrise! – enquanto Maicon levantava a âncora, Gislaine ajudava Filó a se ajeitar enquanto olhava em torno com seus olhos brilhando.
Logo cruzavam o mar, e em minutos enxergaram a ilha onde despontavam os telhados de uma mansão atrás do arvoredo. Ao aproximarem, já foram avistando um pequeno píer onde duas figuras os aguardavam. – O mais alto é seu papai. A outra é a governanta. Fique de olho Giza; eu não gostei dela. É intrometida! – alertou Filó.
O iate se aproximou e aportou. Gislaine olhava seu pai de mentira: era alto calvo, usava uma espécie de túnica púrpura até os pés e trazia um lenço cobrindo o rosto. Era uma figura estranha. Ao lado, a governanta trajada á maneira inglesa, com cabelos pretos ajeitados num coque, olhava-os com semblante sério e desconfiado.
Gislaine ajudou Filó no desembarque, que foi fazendo a apresentação: - Aí está nossa filha Marquinho; como eu lhe prometi. – aproximou-se: - Dê tempo ao tempo. Ela tem mágoas pelo abandono. – olhou Gislaine. – Venha meu bem. Vamos passar uma borracha no passado; lembre-se do nome que esta ilha evoca: Sunrise, um novo nascer do sol nas suas vidas!
Ela desembarcou com olhos fixos no homem, que colocou as mãos em sinal de prece: - Meu deus do céu!... É a cara de mamãe jovem! – dirigindo-se á governanta: - Olhe Maureen. Não é incrível a semelhança?
- Eu não posso afirmar senhor. – fez um muxoxo: - Não conheci a falecida senhora Abigail quando jovem.
Marco se aproximou de Gislaine: - Minha filha,... Creio que a palavra perdão é muito pequena para compensar todos esses anos de abandono! Eu era apenas um jovem irresponsável,... Mas não há outra. – ajoelhou-se: - Perdão, minha filha! Perdão!
Ela se emocionou de verdade: - Não precisa fazer isto... Pai! – segurou-o pelas mãos: - Olhe; vamos fazer como a t... A mamãe falou: uma nova vida! – sorriu, dominando a emoção: - Não vai ser fácil, mas,... Vamos tentar!
Então Filó interviu: - Porque não entramos? Este sol quente não vai te fazer bem Marquinho. – dirigiu-se á Maureen. – Traga a bagagem de Gislaine e seu marido!... Por favor.
- Sim senhora Filomena! – respondeu rangendo os dentes.
Então seguiram por um passadiço de pedras ladeado por jardins belíssimos. Por trás das arvores, era possível ver quadras de tênis, futsal e uma piscina. Subiram por uma escadaria que dava numa ampla varanda cheia de plantas exóticas, e á entrada da mansão. Gislaine e Maicon não sabiam nem para onde olhar ante tanto luxo: legítimas cadeiras Barcelona; tapeçarias persas; lustres de cristal Bacarat coloridos e maçanetas douradas, folheadas a ouro! Aproximaram-se de uma mesa repleta de joias e relógios: - Olhe minha filha; sei bem que coisas materiais, não podem comprar amor e nem reparar mágoas, mas,... – pegou uma caixa cheia de colares: - Também sei que quando moças fazem quinze anos, ganham colares de pérolas, e aqui tem alguns!... Faça de conta que eu os dei no seu baile de debutante! – Gislaine mal acreditava: - E aqui, filha!... Eu não sei em que você se formou, mas sei que os pais devem oferecer anéis de grau aos filhos formados. Então, aqui tem uma joia para cada curso; medicina, direito, engenharia... Tem de tudo! E aqui,... Você é casada, e sei que é dever dos pais, ofertarem as alianças de noivado, e casamento!...
Maureen, carregada de malas, interferiu: - Não senhor! É o noivo que deve providenciar as alianças.
- Ah é? – falou Marco um tanto perdido: - Ah, mas a gente muda um pouco a tradição. Fique com todas elas meu amor! – olhou Maicon. – E você, meu genro! Olhe,... – pegou um estojo com vários relógios: - Acho que presente de sogro, é relógio, né? Fique com todos. São de ouro; nada de folheado! – Maicon arregalou os olhos naquela coleção onde o mais barato era um Rolex!
Marco colocou a mão no peito: - Estou tão feliz! Nunca imaginei que teria uma filha tão linda, e que ainda veio com um genro,... Que considero como um filho! – e abraçou Maicon, que retribuiu já com vários relógios nos pulsos.
Então Filó sugeriu: - Por que não deixamos nossos filhos descansarem um pouco? A viajem foi longa e cansativa.
- Oh sim,... Eu imagino! Maureen; leve-os á suíte, que já está pronta pare recebê-los nesta casa,... – olhou Gislaine. – Que agora é sua, minha filha:...Mas, vou lhe pedir algo. Dê-me um beijo!... Um beijo da minha filha. – ele levantou de leve o lenço, mostrando uma bochecha flácida e salpicada de pelos grossos, á qual ela não se furtou em oscular. – Muito obrigado meu amor! Descansem, e depois lhes mostrarei a Sunrise Island! – e passou a mão na bochecha sob o lenço: - Acho que nunca mais lavo meu rosto!
Ao chegarem á suíte, depois que Maureen saiu, Gislaine correu ao vaso para vomitar enquanto Maicon se debruçava sobre as joias na cama.
Á tarde andaram pela ilha. Marco ia mostrando as arvores e plantas raras trazidas de varias partes do mundo. A piscina abastecida com um poço artesiano; as saunas e todo um mundo de luxo que para ele somente agora teria significado, pois encontrou sua filha, que abraçava. Gislaine ainda sentia certa náusea do beijo, e torcia para que ele não quisesse outro. Depois seguiram á uma área que continha ruínas encravadas numa parte rochosa: - Nesta ilha teve uma fortificação no século XVIII! – explicava Marco: - Que foi destruída numa batalha contra piratas. E sobrou apenas esta ameia em ruínas. – apontou á uma elevação projetada sobre um rochedo. Aproximaram-se e Filó se desequilibrou, caindo ao chão. Marco foi socorrê-la; - Oh, que perigo! Machucou-se?
- Ela mostrou o joelho com um corte. – Ah droga!... Que velha desastrada sou eu! – Marco ajudou-a enquanto apoiava a mão no muro. – Ah não!... Sujei meu xale!... Meu preferido!
- Não se preocupe! Maureen!... Leve o xale á lavanderia imediatamente!
- Sim senhor! – respondeu apanhando-o com certo asco, enquanto Marco falava: - Está tudo bem, foi só um susto. Vamos fazer um curativo neste machucado, e lhes mostrarei a estufa! Tenho uma coleção de orquídeas maravilhosa! Depois iremos jantar, que tal?
Era inicio de noite quando um restante da luz crepuscular dourada ainda invadia o salão de jantar, onde uma farta mesa os aguardava: - Bem,... Como eu não sei o que vocês gostam, mandei fazer um pouco de tudo que tinha na cozinha! – explicava Marco: - Aqui tem faisão; frutos do mar; lagosta; caviar russo, iraniano; trufas francesas; este jamón espanhol defumado, hum, delícia! Arroz negro, vermelho, japonês,... Doces cerejas,... E bebidas: champanhe, uísque escocês; cervejas alemãs, holandesas e americanas,... Ah, esse aguardente do Vale do São Francisco que nem o santo recusaria! – riso: - Sirvam-se! – Maicon e Gislaine nem sabiam realmente o que escolher, então fizeram pratos com se fazem em comida á quilo, com um pouco de cada.
Era um tanto repugnante ver Marco comendo, usando uma mascara veneziana em forma de bico, enfiando colheradas por baixo e bebendo de canudinho. Filó se contentava com salmão grelhado enquanto trocava olhares afiados com Maureen.
Após a refeição, entre considerações culinárias, Marco falou: - Vocês trouxeram seus passaportes, não é? – eles assentiram: - Faremos uma viagem, direto á Modena, na Itália! – apontou á Maicon: - Quero levar meu genro á fábrica,... Ou melhor: ao templo da Ferrari!
- O quê? – Maicon até engasgou.
- Meu genro terá o privilégio de escolher a maquina que quiser, e da cor que desejar! – riu: - Ah não ser que meu genro não goste de Ferrari!
- Não!... Eu amo, eu amo!
Todos riram, e após rodadas de uísque Filó ensejou: - Poderíamos aproveitar, e falar do assunto do reconhecimento de Gislaine como sua filha legítima! Aliás, nossa filha.
- Sim Filó! Oh, só de pensar no vexame que fiz você passar, meu coração se despedaça de culpa! – olhou a governanta: - Maureen; traga os documentos!
- Se me permite senhor: talvez seja um assunto um tanto enfadonho para servir de sobremesa á um jantar tão magnífico! Não seria melhor deixar para amanhã quando os advogados estarão aqui?
Filó se irritou e falou: - Querida; obedeça ao seu patrão e traga os documentos! Meu genro é advogado e pode verificá-los.
Marco deu um arroto e, constrangido, falou: - Uh, perdão! Mas talvez Maureen tenha razão Filó. Estamos todos um pouco bêbados, e é uma leitura jurídica chata pra caralho! – riso: - Desculpem. – olhou Gislaine: - Mas,... Se você fizer questão, filha... Podemos passar ao escritório.
Ela hesitou, mas respondeu: - Ah pai,... Acho que podemos deixar para amanhã. – apontou Maicon já debruçado na mesa: - Meu marido agora não lê nem o bê-á-bá!
Ainda irritada. Filó respondeu: - Bem, vocês é que sabem; deixemos para amanhã então! Eu acho que vou me recolher. Estou muito cansada e, confesso que comi e bebi além da conta.
- Sim! – respondeu Marco. – Também estou exausto! – olhou Gislaine: - Mas não exausto de alegria. Esta é a noite mais feliz da minha vida! – estendeu á mão: - Seja bem vinda á minha vida, filha querida!
Ela a segurou: - Obrigada,... Papai! – mas temeu que ele quisesse outro beijo, e bocejou: - Nós também estamos com sono, não é Maicon?
- Hânnn? Sim, eu estou.
Então se levantaram, e antes de seguir á sua suíte, Marco falou: - Amanhã será um dia cheio!... Meus amores!
Filó chegou perto de Gislaine para desejar boa noite, e cochichou: - Você me deve isto héim? Não esqueça que fui eu que a coloquei aqui! - olhou Maureen. – Esta piranha aí não perde por esperar!
- Claro, tia,... Quero dizer, mamãe. – e a beijou no rosto.
Depois Maicon e Gislaine seguiram á sua suíte entre risos e tropeços. Ainda passaram por Maureen que lhes desejou boa noite. Gislaine até arrepiou!
Entraram, fecharam a porta e caíram na cama aos risos! – Nunca vi tanta boia boa! – Falou Maicon enquanto abriu a calça: - A braguilha tá até arrebentando! – levou á mão para o alto da cabeceira, e havia um cesto: - Que porra é essa?
Gislaine a buscou: - É uma cesta cheinha de chocolate suíço!... Do bom!
- Não sei se aguento!
- Aguenta sim! – ela deu uma mordida: - Tem licor; prova amor! – ele comeu: - Puta que pariu: isso e maldade! Adoro chocolate! – e pegou outro e comeu de uma vez; - Putz,... A gente que nasceu no miserê, quando vê isso, nem acredita!
- Agora a fase de catar migalhas acabou amor,... – comeu mais um chocolate: - Amanhã o advogado vem aí, e me transformo na mulher mais rica do Brasil, iupiiii!
- E sua titia, a mamãe mais rica também!
- Hum,... A titia pode criar caso depois,... Vai querer mandar no dinheiro; eu conheço a peça!... Acho que poderemos colocá-la numa casa de repouso, dessas que parece SPA! – riu e se levantou para tirar a roupa.
Maicon também riu e buscou seu celular, - Ué,... Tá sem sinal!
- Ah,... Aqui tem que ser com Wi-Fi... Mas não peguei a porra da senha! ... – ela se jogou na cama, nua, já colocando a mão por dentro da calça de Maicon. – Larga essa merda de celular e vem trepar!
Ele deu um longo bocejo, mas respondeu: - Sim minha senhora,... Porra, que sono!
Ela o agarrou: - Esse barulho das ondas,... Ah meu deus...
A luz solar da manhã invadia o quarto quando irromperam batidas á porta: - Eles estão aí. Abram! – ouvia-se outra voz e mais batidas: - Abram esta porta!
Gislaine levantou a cabeça, que doía: - Ai,... Hum...?
- Abram a porta! – mais batidas.
- O quê? – despertou Maicon. - ouviram-se mais vozes: - Eu trouxe a chave mestra! – a fechadura destrancou e entraram homens uniformizados e um policial. Gislaine se assustou e gritou: - Ah!... O que é isso?
Maicon também se ergueu e ameaçou: - Hei, saiam daqui ou dou porrada!
Um dos homens respondeu: - Nós fazemos as perguntas por aqui; quem são vocês?
Ela se ergueu desnudando os seios, e rápido buscou o lençol para se cobrir. – Eu sou a filha do dono desta ilha,... Saiam do meu quarto ou eu chamo meu pai!
Os homens se entreolharam, e o policial perguntou: - Pai? Você é filha de quem?
- De Marco Starkweather; o dono de tudo isto aqui!...
Os homens se entreolharam até um homem de terno e usando um lenço na face entrar. Imediatamente Gislaine falou: - Papai; mande esses homens embora; eles invadiram meu quarto!
- Que diabo é isto de papai? – respondeu o homem irritado. – Está doida?
- Ela não é sua filha? – perguntou o policial.
- Eu lá tenho filha!
- Mas,... Mas...! – então ela notou que o homem tinha porte robusto, e mais cabelo: - Não,... Este homem é um impostor! Cadê meu pai?
- Então ela não é sua filha, doutor Starkweather?
- Eu já falei que não!
Gislaine retrucou: - Ele não é o verdadeiro Marco Starkweather, é um impostor!... Chame a tia Filó que ela vai confirmar!
- Quem? – perguntou o homem.
- Quero dizer, a senhora Filomena Cândida Costa, a mamãe!... – gritou: - Mamãe venha cá! Invadiram meu quarto! – enquanto isto outro policial entrou trazendo alguma coisa às mãos. – Tenente; veja o que encontramos: papelotes de cocaína. – outros policiais entraram e começaram a vasculhar as malas do casal, até que um alertou: - Tem mais aqui!
- isto não é nosso! – gritou Maicon. – Sou advogado, tenho meus direitos!
Outro homem uniformizado entrou: - Doutor Starkweather; fizeram uma limpa na joalheria do hotel. Levaram joias, relógios, alianças e os colares de pérolas!
- Hotel? – perguntou Gislaine: - Isto aqui é um hotel?
O homem do lenço respondeu. – Vou fazer de conta que a senhorita não sabe, ou está com a cuca cheia de droga, e vou responder: sim, é o Sunrise Island Resort, de minha propriedade! – seu lenço até inflava pelo bufar furioso. – E a senhorita, quem é?
Um policial respondeu com documentos na mão: - Ela é Gislaine Maria da Costa; e o distinto aí é Maicon,... – riso: - Maicon Jackson Cunha!... Hei, espere!... – verificou no seu celular: - Há um mandato de prisão preventiva contra o doutor Maicon Jackson, por estelionato!
Gislaine olhou-o: - Que merda é essa? – ele respondeu: - É... É um processo em andamento,... Mas é calúnia! – o policial perguntou: - Qual nome de sua mãe, que a senhorita falou?
- Filomena Cândida da Costa! – olhou Marco: - O senhor a conheceu, não é?... Teve um caso com ela?
Ele foi enfático: - Caso? Eu deitei com muitas mulheres na vida, mas nunca ouvi falar desta pessoa!
O policial observou: - Há uma queixa de desaparecimento da senhora Filomena registrada na cidade mineira de Santos Dumont, feita pela sua irmã, a senhora Helenice Cândida da Costa, há uma semana! – imediatamente Gislaine lembrou: - Ah meu deus!... É isto que mamãe queria me dizer nas mensagens! – o policial completou: - Ih! Tem mais coisa: A senhora Filomena está movendo um processo que acusa sua sobrinha Gislaine Maria da Costa de apropriação indébita, roubo e estelionato! – apontou-a; - A sobrinha é esta mulher!
Assustada: - Ãh?... Ela disse que não ia mover!... – outro policial entrou no quarto trazendo o xale xadrez de tia Filó: - Tenente; encontramos esta peça com manchas de sangue presa á rochas na orla da ilha, e algumas pessoas afirmaram terem visto o casal aí andando no píer com uma idosa que usava um xale xadrez, que entraram no iate e depois zarpou rumo á esta ilha! – outro funcionário completou: - Há manchas de sangue naquele muro das ruínas, á beira dos rochedos! – todos olharam o casal na cama.
Gislaine colocou as mãos na cabeça e resmungou rangendo os dentes: -... Velha filha da puta!
Dias depois...
Um vetusto Citroën DS 19 vintage seguia pela Avenue Foch em Paris.
No banco traseiro, Filomena olhava os transeuntes na calçada lembrando-se do golpe de mestre que aplicou na sobrinha com ajuda de seu antigo namorado hippie, que realmente a encontrou ao abandono, e foi seu cúmplice perfeito na vingança, com auxílio de atores.
– Ah Marquinho,... – suspirou: - Nunca é demais reencontrar um velho amor, e saber que era um bilionário! – e sorriu ao ver as torres de Notre Dame ao longe.
FIM!
Juvenal era Papai Noel; não o verdadeiro, é claro, mas o bom velhinho das festas de fim de ano de empresas, associações sindicatos, e particulares. Preferia festas de adultos porque eram mais rentáveis. Papai Noel de shopping? Nem pensar!
Era madrugada quando conduzia seu vetusto VW Santana, ainda com seu traje de Papai Noel, depois de mais uma festa num clube cheinho de empresários bêbados, assim como ele, que carregava o perfume de uma mulher que absolutamente embriagada o arrastou para um canto, dizendo: - Quero ver o que tem na sacola do Papai Noel! – ele riu e respondeu: - Tá meio vazio, só tem um boneco!
Festa boa e bem paga, regada a uísque e mesa farta; assim Juvenal conduzia seu possante entoando a canção “Happy Xmas” de John Lennon num inglês bem fuleiro. O para brisa do carro começou a embaçar e ele tentou limpá-lo esfregando a manga do casaco tornando-o ainda mais turvo. – Droga!... Limpa, porcaria! – reclamou enquanto ia ficando nervoso, e pisando mais fundo. Então o carro começou a seguir em zigue-zague sem ele dar conta. Adiante havia uma rotatória, a qual o veiculo galgou num salto, seguindo aos solavancos. Juvenal não conseguia ver adiante e nem deter o carro sem direção até se chocar em algo. Agarrado ao volante, ele olhou através do para-brisa embaçado; havia luzes piscando. – Ih!... Será que eu bati numa árvore de Natal? – ao abrir a porta viu que se tratava do giroflex de um carro patrulha e dois policiais olhavam-no com cara de poucos amigos. Juvenal saiu do seu carro aos tropeços e num ato sem noção lhes disse. –... Feliz Natal. – e vomitou em seguida.
Foi detido por direção perigosa, embriaguês ao volante e dano ao patrimônio público.
Dias depois estava na audiência com o juiz, que dizia ao seu advogado: - Seu cliente caprichou; poderia ter resultado numa tragédia!
- Meritíssimo; - respondeu: - Meu cliente está ciente da gravidade do seu erro e está disposto a arcar com as consequências. – Juvenal o cutucou: - Peraí, não! Assim você vai me ferrar! – ele respondeu: - Cala a boca idiota!
O juiz interveio: - Por favor, senhores, vamos parar com esta audiência paralela! Já decidi o veredito: - olhou Juvenal firme: - Eu o condeno ao pagamento de uma multa de cinquenta salários mínimos, ou reclusão por um ano!
- O quê?... Eu não tenho este dinheiro, e não quero ser preso...
O advogado interviu: - Meritíssimo; meu cliente é réu primário! Esta multa não poderia ser revestida em trabalho comunitário ou doação de cestas básicas?
O juiz sorriu: - É evidente doutor! – olhou Juvenal: - O senhor é Papai Noel de festas; certo? Todos os anos há dificuldade em encontrar pessoas que façam Papai Noel em escolas públicas e outros locais de auxilio á crianças carentes. Faltam vinte e um dias para o Natal; então eu proponho como pena alternativa, que o senhor faça o Papai Noel em vinte festas em diferentes locais da cidade.
- Festas... Para crianças? – perguntou Juvenal.
- Sim!
-Oh Meritíssimo. – falou o advogado: - Meu cliente fará com todo o carinho e dedicação!
Juvenal só pensava: - Que droga!
Assim, sem ter escolha, naquela mesma tarde ele seguiu á uma escola municipal num bairro de periferia. Um lugar que Juvenal nem sabia que existia! Arranjaram-lhe uma poltrona ao lado de uma árvore de natal magrinha de enfeites e uma fila de crianças. Ele entrou com o tradicional “Ho, ho, ho” e se sentou. As crianças vinham com pedidos diversos: de carrinhos e bonecas, passando por vídeo games e notebooks chegando a cestas básicas e empregos para os pais. Alguns mais atrevidos puxavam sua barba e ele odiava isto.
Juvenal tinha sido garoto rico com várias idas á Disney; assim, aquele universo de periferia lhe parecia estranho e incômodo. Ouvir pedidos de pacotes de arroz ou que livrasse o pai da cadeia o colocava em contato com a miséria só conhecida em adulto depois que seu pai faliu e a bonança acabou. Isto congelou seu coração; não achava justo! Contudo, Seu biótipo de homem de meia idade branco, cabelo e barba grisalhos, olhos azuis e cintura fora de forma, o levou a buscar no papel do bom velhinho um bom reforço no orçamento de fim de ano. Assim, começava a deixar crescer a barba alva em setembro, e a aparava em janeiro. No fundo, não gostava daquilo; era pelo dinheiro. Portanto, fazer aquele papel de graça ainda que por obrigação judicial, não lhe parecia justo!
As filas eram intermináveis e a cada festa vinha o desejo que aquilo acabasse rápido. Ás vezes não sabia o que era pior: os pedidos impossíveis das crianças, ou as tiradas cretinas das suas mamães e papais!
E finalmente veio a última festa no último centro comunitário no bairro onde o vento fazia a curva. A última criança saiu e ele olhou no relógio: dezessete horas; á noite teria mais uma festa de adultos. – Pronto, acabou! – levantou da cadeira com a perna esquerda dormente de servir á banco á tanta criança. Deu uma alongada e tirou o gorro, limpando a testa escorrida de suor com as costas da mão. Já ia saindo quando escutou uma voz: - Ele ainda tá aí pai?
- Sim, filho, ele ainda está aqui! – era um homem magro, trajando uniforme de trabalho e trazendo seu filho pela mão.
Ao se aproximarem, Juvenal, cansado e ansioso para ir embora, abanou a cabeça ao falar: - Sinto muito, mas... - o homem lhe lançou um olhar de súplica que parecia dizer: “por tudo de mais sagrado, atende a gente?”. Então se apiedou e concluiu: -... Oh, sim, sim! – colocou o gorro e se sentou: - Ho, ho, ho! Venha aqui no Papai Noel, garoto! – abrindo os braços.
O homem conduziu o filho que buscou o braço de Juvenal e o segurou. Ele o pegou o pôs sobre a perna: - Upa! Você é um meninão! Como se chama?
- Fábio!
- Oh, Fabinho! Quantos anos você tem?
- Tenho sete! Faço oito anos em março!
- Você estuda, está em que ano?
- Segundo ano! Faço contas e já sei ler em braile!
- Braile? – olhou o pai do menino fazendo um gesto indicativo que Fábio era cego. – Ah,... Sim, que coisa boa! – respondeu notando que os olhos castanhos do garoto não estavam direcionados a ele. Era assustador, mas ele se segurou: – Hum,... Você tem cara de levado! Tem obedecido ao seu papai e sua mamãe?
- Minha mãe morreu; mas eu obedeço, não é pai?
- Sim; meu filho é um bom garoto e estudioso. O senhor precisa ver as notas dele!
- Mas que beleza! – Juvenal respondia em meio á varias emoções: – E... O que você quer ganhar de presente de Natal Fabinho?
- Uma bicicleta!
- Bicicleta?... Mas,... Você sabe andar de bicicleta?
- Não! – riu. – E nem dá, né Papai Noel? Eu caio, não vou poder andar!
- Ora, então porque você quer uma bicicleta? Tem muito brinquedo que você pode brincar.
- Ah, mas eu posso montar nela parada mesmo. – riu: - Meu pai disse que põe o ventilador na minha frente, aí fica parecendo que estou andando! - Juvenal achou aquela lógica ingênua e tocante. - Só de eu saber que ela está ali, já tá bom!
- Sim Fabinho, de fato! – mas se perguntava: “será que o pai desse garoto pode comprar?”.
Então o pai falou: - Fábio; eu acho que o Papai Noel deve estar cansado! Vamos embora?
- Só mais uma coisa! – virou-se á Juvenal: - Posso pedir um negócio?
- Claro meu filho! O que é? – riu: - Mas só pode pedir um presente!
- Não é presente não! Eu posso pegar sua barba?
- Sim, pode! – delicadamente ele buscou as mãos do garoto, e levou-as a sua barba. Fábio a tocou como quem tocasse algo sagrado: - Pai! É macia que nem algodão!... É de verdade!
Era um toque suave e carinhoso. As mãozinhas foram subindo e começaram a lhe contornar as linhas do seu rosto: boca, nariz, olhos, sobrancelhas e testa onde pendia uma franja por baixo do gorro.
Juvenal sentia-se tomado de uma emoção muito forte, como se tudo aquilo estivesse envolto numa aura de magia e ternura. Logo ele, que nunca deu importância ao papel que desempenhava além do pagamento. Agora ele recebia de graça um carinho que poucas vezes tivera, e menos ainda oferecera.
- Agora chega Fábio. – falou seu pai: - O Papai Noel precisa descansar, e nós também!
- Sim pai! – ele sorriu: - Posso te dar um beijo Papai Noel?
- Sim!... Venha aqui! – e lhe deu a face recebendo o beijinho.
- Venha filho! – o pai buscou-o pela mão, e Juvenal pensou: “Já vão?... Fiquem mais!”.
- Tchau Papai Noel!
- Tchau, meu filho!
O pai de Fábio olhou-o com uma gratidão infinitamente superior a aquilo que foi dado em troca. Ainda ouviu o menino dizer antes de saírem: - É de verdade pai! É macia que nem algodão!
Juvenal ficou sentado na cadeira; a perna nem doía mais. A dor agora era outra; da solidão, do abandono e do arrependimento. Então ouviu a voz de uma mulher: - O senhor está bem?
Ele a olhou: - Ah,... Sim estou. Quem é esse homem, pai do garoto cego?
- O nome dele é Marcos. Coitado,... Trabalha muito e ainda cuida do filho cego, sozinho!
- O que o Fabinho tem na vista?
- Não sei direito, mas parece que não nasceu cego; Foi uma doença. – suspirou: - Bem. O senhor vai embora com esta roupa?
Deu de ombros: - Não sei!... Acho que não.
Na noite de Natal a comemoração era modesta na casa de Marcos e seu filho.
- A dona da padaria nos deu um bolo de laranja; tem guaraná e castanhas.
- É bom, pai. – falava Fábio mexendo no carrinho que ganhou na festa da escola.
- Que foi filho? Você está calado.
- Ah... É que, aquele dia que a gente foi no Papai Noel, eu acreditei que ele existia. Mas sei que é de mentira, né?
Marcos coçou a cabeça em busca de uma resposta: - Olhe Fábio; Não é que não existe de verdade; existe como vontade,... Sabe; vontade de acreditar!
- Como assim pai?
- É a vontade de acreditar que as coisas boas, existem!
- Então se eu acreditar com força, Papai Noel existe?
- Em algum lugar, sim, meu filho.
- Então eu vou acreditar com muita força! – e fechou seus olhinhos cegos.
Marcos segurava a vontade de chorar quando alguém bateu á porta: - Ho, ho, ho! Tem gente em casa?
Fábio abriu os olhos e disse: - É o Papai Noel! Ele veio! Abre a porta pai!
Um tanto perdido, ele correu para abrir a porta: - Pensaram que eu não vinha?
- Papai Noel! – exultou Fábio se levantando: - Onde o senhor está?
- Aqui! Venha! – ele foi ao seu encontro guiado por um guizo que o bom velhinho balançava, e o abraçou forte: - Oh, Fabinho, que abraço gostoso!
- Eu fiquei com medo do senhor não existir!
- Bem,... Eu existo, tanto que vim aqui, e trouxe o presente que você pediu!
- A bicicleta?
- Sim! Está aí na porta!
Confuso, Marcos se aproximou e sussurrou: - O senhor é o Papai Noel da festa, não é?
- Sim, e de muitas outras festas! Mas venham ver!
Na entrada da casa de vila onde viviam, havia uma bicicleta de dois lugares, com selim traseiro especial dotado de cintos. O Papai Noel conduziu Fábio ao presente, que o tocou. – É de verdade!... Minha bicicleta!
- Sim! – pegou-o no colo o colocou no selim. Prendeu o cinto e ajudou-o a colocar capacete e protetores se joelhos e cotovelos. O garoto segurou firme o guidão e alcançou os pedais. – Que irado! Mas eu vou poder andar?
- É evidente! Seu pai irá ao lugar da frente guiando, porque você não tem carteira de motorista! – e riu.
O pai se aproximou: ainda estava incrédulo: - Não sei o que dizer,... E nem como agradecer.
- Eu é que tenho muito a agradecer á vocês dois! Agora coloque o capacete, monte na bike e vá levar esse menino maravilhoso para seu primeiro passeio!... Ah, mais uma coisa: - tirou um cartão do bolso: - Ligue para esse médico; é um oftalmologista muito bom! É só dizer que é o amigo do Papai Noel que ele consultará Fabinho de graça e depois fará o que for preciso!
- Meu Deus,... Papai Noel então existe!
- Bah! Agora vá, Fabinho está esperando!
Marcos montou na bicicleta e falou: - Segure-se filho! – e começou a pedalar a bicicleta, primeiro devagar para acostumar, depois seguiu pela vila sob o aplauso de vizinhos e com a criançada correndo atrás. Fábio vibrava de alegria.
Emocionado, Juvenal olhava-os. Poucas vezes se sentiu tão leve e gratificado. Então foi cercado por crianças que o abraçaram e tocaram sua barba.
Finalmente ele encontrou algo que julgava perdido: a sua fé!
Fim.
O pássaro respondeu: - Foi sem querer!
E a onça ficou sem jantar de novo.
Mendonça chegou naquela mata andando de floresta em floresta á procura de outras onças, e nada encontrou. A solidão o deixava triste: - Será que os homens acabaram com todas da minha espécie, e só sobrei eu? – Tito era amigo, mas zombava dele. – Você é bobo! Aqui mesmo tem muitas onças! – ele olhava em volta e não via nenhuma outra, e voltava a ficar triste.
Uma noite, Mendonça estava á beira do rio e do outro lado ficava a cidade. Ás vezes ia lá procurar comida no lixo; era ruim, mas matava a fome. Então olhou as luzes da Avenida Brasil e algo chamou sua atenção. Mendonça não acreditou no que seus olhos viam: uma onça pintada como ele andava de um lado á outro. – Tito, olhe ali! Uma onça, igual a mim!
O passarinho olhou e disse: - Pois eu não te falei que tinha muita onça aqui?
Seus olhos brilhavam; finalmente encontrou um de sua espécie; e sem pensar duas vezes ele saltou nas águas, cruzando o rio como se fosse um campeão olímpico de natação. Já do outro lado ele olhou a janela do prédio, e lá estava a onça andando, se lambendo e olhando para ele. - É uma fêmea! – falou Mendonça, que logo se apaixonou. Mas tinha muitos homens perto. Então, de repente a onça saiu da janela. – Uai? Cadê ela?
– Deve ter ido dormir!- respondeu Tito.
Vendo mais homens se aproximando, Mendonça resolveu voltar á mata, saltando na água de retorno.
Nas noites seguintes ele não viu a outra onça na janela. E se ela tivesse ido embora sem ao menos conhecê-lo?
Mas numa noite Tito veio chamá-lo: - A onça está na janela te chamando! Vai lá! – Mendonça correu feito uma flecha, saltando nas águas do rio para chegar logo á outra margem. Lá estava ela na janela, andando, se lambendo e olhando para ele, que estava com o coração disparado de emoção. Então atravessou a avenida e foi chegando devagarzinho perto da janela, vendo sua amada andando com aquele rebolado que só os felinos têm. Ele apoiou as patas dianteiras no peitoril e falou: – Oi! Meu nome é Mendonça; qual o seu? – ela apenas o olhava sem responder. – Oh,... Será que ela não gostou de mim?
Tito começou a rir muito, e disse: - Você é a onça mais boba que eu já vi! Não tá vendo que é só uma imagem?
Olhando melhor ele percebeu que sua amada era só uma imagem naquilo que os homens chamam de televisão. Isso o deixou muito triste e seus olhos se encheram de lágrimas.
Ei amigo,... Não precisa chorar. Foi só uma brincadeira. – falou Tito.
Ele já ia responder quando sentiu uma pontada forte na coxa traseira, era um dardo. Olhou em volta e viu muitos homens rodeando, trazendo uma rede. Ele rugiu, tentou fugir e ameaçou-os; mas começou a sentir muito sono. Ainda tentou se debater quando foi coberto pela rede; mas vencido pelo sedativo, foi capturado. Colocaram-no numa jaula, depois num carro e saíram.
Então foi Tito que chorou: - Que droga; perdi meu amigo.
Dias depois Mendonça acordou numa mata, lembrando que os homens o levaram á aquele lugar. Ele levantou, olhou em volta e viu que era outra floresta, o cheiro era diferente. Então saiu em reconhecimento daquele lugar novo: tinha caça; água e era longe dos homens; – Grande coisa; ainda estou sozinho. Dá saudade até do Tito! – resmungou.
Numa manhã, Mendonça andava de cabeça baixa, triste e solitário, quando ouviu alguém chamar: - Oi! Você é novo por aqui?
Ele olhou, e era uma onça pintada fêmea. Desconfiado, ele aproximou e perguntou: - Você é de verdade ou é outra imagem de televisão pra me enganar?
Ela estranhou: - O que você falou?
Então escutaram uma voz estridente e conhecida: - Ele disse que é um prazer te conhecer, garota! – era Tito que vinha voando até pousar nas costas de Mendonça falando-lhe ao ouvido. – Não estrague tudo, deu trabalho encontrá-la! – riso. – Pensou que ia se livrar de mim?
Mendonça abriu um largo sorriso e perguntou. – Meu nome é Mendonça, qual o seu?
Ela olhou de lado e respondeu: - Me chamo Belinha! Venha, vou te mostrar como é esta floresta; tem uma cachoeira por ali.
E saíram os três pela mata. Mendonça agora estava feliz, pois finalmente encontrou uma companheira.
Fim.
Giorgio coordenava os trabalhos de remoção de entulhos menores em caminhões enquanto empilhadeiras removiam maquinários para poderem iniciar a demolição, quando um operário o chamou para ver algo num cômodo dentro de um dos galpões: uma espécie de caixa de alvenaria lacrada com tijolos que ao ser aberta trouxe uma velha motocicleta á luz. O empresário se abaixou, viu a lente trincada da lanterna dianteira, e examinou a moto mais um pouco limpando o emblema da sua marca: "Indian". Ele tinha certo conhecimento de motocicletas antigas e falou: - Posso estar enganado, mas é uma Indian Chief americana!
Por se tratar uma raridade valiosa ele ligou ao corretor que intermediou a negociação do imóvel informando sobre a descoberta, mas ele disse que não se preocupasse porque o antigo proprietário assinou termo de venda com tudo que estivesse lá, sem restrições. Isto naturalmente incluiria a antiga motocicleta
Naquele mesmo dia, ele fez contato com Jairo, um mecânico de motos que ao examina-la falou: - É uma motocicleta Chief Big Twin 80 1953, raríssima! - olhou-a mais um pouco: - Veja isto: o odômetro mostra que ela não rodou quase nada! Coisa fácil de arrumar.
Giorgio ficou feliz pelo achado e imaginava-a restaurada quando um dos operários lhe trouxe uma fotografia encontrada no cubículo onde estava a moto, mostrando um adolescente ao lado da Indian com uma data escrita à caneta: 1955, mas não havia seu nome. Devia ter sido seu antigo dono.
Dias depois ele foi à oficina conferir os reparos. Jairo o recebeu explicando que foi preciso desmontá-la inteiramente, mas a restauração não seria difícil porque estava tudo praticamente intacto. Lubrificação troca de algumas peças, verificação de freios e parte elétrica, troca de pneus, que estavam ressecados e a velha Big Twin voltaria a rodar.
Ao seu turno, Giorgio procurou saber mais sobre o adolescente da foto, mas o corretor não sabia responder e nem conseguia falar com os antigos donos da tecelagem. O empresário deu ombros e se concentrou no trabalho.
Numa volta á oficina, Jairo veio recebê-lo com um colar cervical, explicando que devia ter sido algum mau jeito, mas podia ficar tranquilo que os reparos estavam em andamento. Giorgio olhou a moto suspensa no cavalete e sorriu satisfeito.
Nas semanas que se seguiram ele foi à oficina várias vezes conferir o andamento da restauração, e ficava feliz ao ver a rápida evolução. - Estou louco para dar a primeira volta! - Jairo respondeu: - dentro de,... Duas semanas... Desculpe doutor Giorgio; essa coluna está me matando! - queixou-se.
Ele comentava com Ingrid, sua esposa, sobre a Big Twin, como se referia a ela, que seria uma grande surpresa ao seu filho Diego, que estava na Europa em estudos e era aficionado em motocicletas. - Já pensou quando ele voltar e der com esta beleza na garagem? - Ingrid sorriu.
Numa ida à oficina Jairo não estava e seu sócio Américo o recebeu explicando: - Fique sossegado, doutor; sua moto será entregue na data prometida. Estamos virando a noite! - ele agradeceu e viu um mecânico trabalhando na Big Twin. Isto o tranquilizou. Américo também se queixava de dores no pescoço, mas dizia que era causada pela posição do corpo no trabalho: - Ossos do ofício, doutor!
Naquela noite, ele segurava a antiga foto na mão: o adolescente devia ter uns quinze ou dezesseis anos e estava em pé segurando o guidão com as duas mãos. Tinha cabelos claros e curtos. Se detendo mais na foto, percebeu que algo tinha sido escrito a lápis num canto, mas se apagou na superfície brilhante da foto. Giorgio posicionou a foto obliquamente à luz para tentar ver ranhuras feitas pelo lápis. No dia seguinte pediria auxílio para examiná-la com algum recurso digital.
Sempre ia à oficina e a encontrava vazia, apenas com serventes, mas sempre havia um mecânico trabalhando na moto. Ele aproximou e perguntou: - E então, tudo bem aí? - o rapaz respondeu fazendo sinal positivo com a cabeça sem olha-lo. Então Giorgio se afastou para não perturbá-lo. Sabia que alguns mecânicos não eram afeitos a conversas, e achou bom, porque estes eram os melhores.
Em uma semana a moto ficou pronta e ele podia buscá-la. Porém, Diego chegou de viagem de surpresa e o pai logo lhe falou da Indian, mostrando fotos com etapas da sua restauração. O rapaz se entusiasmou e disse: - Eu quero ser o primeiro a pilotar esta relíquia, pai! - e saíram rumo à oficina.
Lá estava a Indian Chief Big Twin amarela brilhando como nova, com cromados e raios das rodas reluzentes. - Que fantástico Américo! Parabéns! - olhou em torno: - Onde está Jairo? - ele ia responder, mas Diego logo montou na moto e ligou seu motor com um ronco vigoroso. - Que máquina! - Giorgio sorriu e notou algo: - A lente do farol dianteiro ainda está trincada? - Américo olhou: - É mesmo! Puxa vida, doutor; perdão, eu não notei que quebrou novamente. Vamos ter que esperar mais uns dias, porque esta peça tem que vir dos Estados Unidos.
Diego retrucou: - Ah não!... Quero ir para casa nela agora! Depois trago de volta para arrumar.
- Está bem, filho! - respondeu Giorgio enquanto o rapaz punha o capacete e acelerava, mas antes de sair à rua deu voltas no pátio da oficina para se acostumar a maneira de guiá-la.
Américo se desculpava: - Foi um vacilo!... Ah, mas depois do que aconteceu, perdemos um pouco o prumo e tivemos que virar noites nos serviços para dar conta, e o do senhor tinha prioridade!
- Sim, eu vi que sempre havia um mecânico mexendo na moto sempre que vinha aqui, muito calado!... Mas o que aconteceu?
- Bem doutor; evitamos comentar porque foi algo muito triste; Jairo morreu!... Cometeu suicídio!
- Como é?... Suicídio?
- Sim. - apontou uma viga. - Se enforcou ali. Não sabemos o que o levou a isto. - Giorgio se espantou enquanto ele prosseguiu: - Como trabalho noutra coisa de dia, eu tive que trabalhar na sua moto apenas à noite!
Ele retrucou: - Mas sempre havia um mecânico mexendo na Big Twin todas as vezes que vim aqui de dia!
- Isto é impossível!... Mesmo o Jairo, só trabalhava nela ao fim do expediente, na tardinha.
- Não, eu vinha sempre por volta do meio dia. Tenho fotos, veja! - ia mostrá-las no celular, mas para sua surpresa, só aparecia a moto sobre o cavalete.
Neste momento Diego saiu à rua dizendo: - Estou craque pai!... Te vejo em casa!
Ele não o ouviu. - Mas,... Havia um rapaz sempre mexendo nela! Era loiro e,... - subitamente ouviu-se o eco grave de uma freada brusca de caminhão, e gritos...
No sepultamento de Diego, seu pai era um homem destruído. Ingrid sequer conseguiu ia ao cemitério e teve uma crise nervosa acusando Giorgio pela tragédia. Nem precisava, por que ele se sentia terrivelmente culpado.
Dias depois, no escritório da construtora, ele era a própria imagem da desolação e já pensava em fazer uma reunião de acionistas para comunicar que sairia da presidência do grupo empresarial, pois já não se sentia capaz. Sua esposa já falava em separação e o mundo desmoronava ao seu redor.
Numa tarde ele tentava se concentrar no trabalho quando a secretária lhe entregou um envelope enviado pelo designer gráfico que examinou a foto de 1955. Irritado, ele o jogou na mesa. - Que importa isto agora? - pensou. Mas depois se acalmou e o abriu. O designer tinha conseguido resgatar os escritos apagados da foto, e era uma espécie de ameaça: "Ninguém jamais poderá possuir esta máquina. Ela é minha e eu amaldiçoo quem ousar tentar.". Assustado Giorgio largou o papel na mesa e lembrou-se das fotos que fez da Indian no cavalete com o mecânico loiro trabalhando nela, que trazia apenas a moto. Ele ficou um bom tempo na solidão da sua sala tentando compreender aquilo. Então fez uma ligação ao corretor e lhe ordenou que encontrasse os donos da antiga tecelagem e descobrisse quem era o proprietário da moto em 1955. Pagaria o que fosse preciso por esta informação!
Uma semana depois Giorgio chegava à entrada de uma casa em Nova Lima, cidade próxima a Belo Horizonte. Era ali que vivia Roberto Santos, homem idoso que foi o dono da tecelagem na década de 1950: - Por favor, entre senhor Giorgio e não repare a bagunça. - Giorgio sorriu um tanto sem graça e Roberto perguntou: - O senhor é o comprador da tecelagem; há algum problema no negócio?
- Não, absolutamente! Vou ser direto, senhor Roberto! - mostrou-lhe a foto de 1955. O velho empresário se assustou, e perguntou: - Onde o senhor conseguiu isto? - Giorgio começou a explicar o caso da motocicleta Indian emparedada que pretendia restaurar, e relatou passo a passo todo o ocorrido até o trágico desfecho. Ao final, abaixou a cabeça e disse: - Perdi meu único filho,... Eu preciso de respostas senhor Roberto. Leu o que está escrito na foto?
- Sim! Eu confesso que estou surpreso e confuso. Nunca imaginei que a Indian estivesse escondida na tecelagem.
Giorgio olhou-o e suplicou: - Por favor, eu estou passando o pior momento de toda minha vida, e nem, sei como isto aconteceu. Só sei que tem a ver com esta maldita motocicleta!
Roberto andou pela sala segurando a foto e falou: - Eu sabia que havia algo errado,... O rapaz que está na foto, era Pedro, meu único filho no dia do seu aniversário de dezesseis anos. Ele morreu dois anos depois, num sanatório. Pedro era psicótico! - então se sentou e começou a relatar trajetória de seu filho único, um menino introspectivo e isolado que colecionava qualquer coisa relacionada a motocicletas: de recortes em jornais e revistas á brinquedos. - A princípio parecia algo inocente, mas foi se tornando mais e mais obsessivo a ponto dele ficar o tempo todo trancado no quarto onde afirmava ouvir vozes! Minha mulher era espiritualista e julgou que fosse alguma manifestação mediúnica. Ah, quanta besteira, devíamos tê-lo levado a um psiquiatra! - ele prosseguiu falando das sessões espíritas realizadas em casa, que faziam Pedro se considerar uma pessoa especial. - Foi um grande erro que potencializou seus delírios. - ele disse que a obsessão por motocicletas aumentava, então tiveram a pior ideia de suas vidas: compraram-lhe uma moto real: a Indian Chef Twin Bean 80, em 1953. Mas havia uma condição: Pedro só poderia possuí-la de fato depois dos dezoito anos. - Ele aceitou, e levamos a moto para a garagem da tecelagem, onde aguardaria. Nosso filho estava com quatorze anos e começou ir à tecelagem todos os dias, passando todo o tempo na garagem limpando-a. - olhou para o alto com lágrimas rolando a face: - Mas, como eu disse, havia algo muito errado acontecendo. Alguns empregados ouviram-no falando com a moto na garagem, como se fosse uma pessoa viva! Eu me apavorei quando Pedro disse: "querem que eu pilote a moto, pai!" - Roberto lembrou-lhe o que haviam combinado, mas o filho se mostrava irredutível ao dizer: "Foram eles que mandaram!", e ao lhe perguntar: "Eles, quem?", ele ria e dizia: "Eles!". Se passou um ano e Pedro cada vez mais obcecado pela moto. Então Roberto cometeu o segundo erro ao permitir que o filho a conduzisse apenas nas instalações da fábrica aos finais de semana. - Foi muito estranho. Chamei um instrutor para lhe ensinar a guiar a moto, mas Pedro já sabia e com muita desenvoltura! - abanou a cabeça: - Instaurou-se o inferno na tecelagem! - Roberto prosseguiu, explicando que Pedro ia à tecelagem de manhã à tarde e ficava dando voltas com a moto entre os galpões e isto começou a incomodar empregados e seus sócios que, irritados, ordenaram que aquilo tivesse fim. - Eu o chamei e fui duro, discutimos e acabei ameaçando-o, dizendo que venderia a moto! A reação dele foi violenta; empurrou-me e proferiu a frase que está nesta foto: "Ninguém mais poderá possuir esta máquina. Ela é minha e eu amaldiçoo quem ousar tentar!" E terminou dizendo que eram "ordens dos mestres" antes de acelerar e sair à rua. Desesperado eu entrei no carro e saí atrás dele, mas não o encontrei, e voltei à firma. No dia seguinte recebemos a notícia que Pedro foi preso em flagrante, acusado de homicídio! Ele matou um empregado da tecelagem e só dizia: "fiz da maneira que eles ordenaram pai. Está tudo bem!" e não disse mais nada. - suspirou: - Foi diagnosticado como portador de psicose e esquizofrenia, e como era menor de idade foi enviado á um sanatório para crianças e jovens com distúrbios mentais graves, Dois anos depois ele cometeu suicídio no sanatório, se enforcando com tiras dos lençóis que usou como corda,... Ele tinha só dezoito anos!
Giorgio ficou abismado e perguntou: - Então, foi o senhor que emparedou a moto na tecelagem?
- Não fui eu! Mas agora, várias coisas começam a fazer sentido: a moto havia desaparecido, e quando eu perguntava seu paradeiro a Pedro, ele dava de ombros e não respondia O operário morto era pedreiro e trabalhava em obras na fábrica. Era o único que conversava com Pedro e o ajudava com a moto, e certamente o ajudou a escondê-la atrás da parede falsa. Na sua loucura Pedro o matou para guardar o segredo. E faz sentido também a onda de doenças e até suicídios que acometeu aos funcionários da tecelagem. Isto contribuiu para a decadência que levou à falência da empresa anos depois. Como vê senhor Giorgio, esta é a história de uma sucessão de equívocos. Não sei o que dizer. Apenas peço perdão pela fraqueza que me impediu de fazer a coisa certa a tempo! Sinto muito que tenha perdido seu filho.
O empresário respondeu: - Ambos perdemos senhor Roberto. - levantou-se para sair. - Obrigado, e desculpe tê-lo feito recordar de coisas tão tristes.
- Não esqueço um só dia! O que o senhor vai fazer com a moto?
- Vou destruí-la!
O dono do ferro velho olhava a Indian que, mesmo trazendo arranhões pelo acidente, brilhava a luz do sol na carroceria de um das camionetes da construtora. - O doutor quer mesmo que eu coloque a motocicleta no triturador de metais, e a destrua?
- Exatamente isto, senhor Teixeira.
- Mas,... É uma moto antiga, uma relíquia muito rara! Se não a quer, me venda!
Impacientou-se: - Olhe senhor Teixeira; eu não vim aqui atrás de conselhos e nem como negociante de antiguidades. Vou pagar para o senhor destruí-la até o ultimo parafuso; mas se não quiser, eu vou a outro lugar!
- Oh não! Claro doutor. Vou atendê-lo. - Teixeira seguiu para trás da maquina que consistia numa caixa alta, de aço, onde peças cilíndricas e dentadas em aço maciço giravam conseguindo reduzir qualquer peça metálica a fragmentos. Teixeira subiu num guindaste, que apanhou a moto com garras e a ergueu, colocando-a na caixa. Depois acionou a máquina, que emitiu barulhos ensurdecedores de metal sendo amassado e quebrado. Em seguida, fragmentos seguiam por uma esteira, caindo numa caçamba que seria levada á siderúrgica. - Pronto doutor! - falou Teixeira se aproximando: - Deu pena, mas se o senhor queria assim!
Giorgio lhe entregou o pagamento e respondeu antes de entrar na camioneta; - Obrigado. Tenha a certeza que fiz a coisa certa, porém tarde demais! - e saiu do ferro velho.
Teixeira apenas esperou que saísse para subir uma escada atrás da trituradora, onde havia uma caixa cheia de lã de metal rente a maquina. Ele olhou dentro e riu.
Meses depois em Denver, no estado norte americano do Colorado, um jovem falava ao telefone:
- Yes, the bike was deliverd, and is wonderful! Deposited the rest of the payment to your account, Mr. Teixeira. Thank you! - ele desligou e falou à namorada: - It is amazing! They were going to destroy this rare Indian Chief Twin Bean '53 in a junkyard! Mr. Teixeira rescued it in time, and now it's here, with me!
Ela perguntou: - This bike has not value in Brazil?
Ele respondeu: - I don't know! The important thing is that I made como true dream! - olhava-a e ao alisar o para lamas dianteiro, exclamou: - Oh shit!
- What's happen?
- The headlight is broken! Maybe the shipping. - deu de ombros: - Not everything is perfect! Come on baby, let´s take a ride on the oldfashioned way!...
Tradução do dialogo em inglês:
- Sim, a moto foi entregue. É maravilhosa! Depositei o restante do pagamento na sua conta, Senhor Teixeira. Obrigado! - ele desligou e falou à namorada: - É incrível! Eles iam destruir esta rara Indian Chief Big Twin 1953 num ferro velho! O senhor Teixeira a resgatou a tempo, e agora ela está aqui, comigo!
- Esta moto não tem valor no Brasil?
- Eu não sei! O importante é que eu realizei um sonho! Oh, merda!
- Que foi?
- O farol dianteiro está quebrado! Deve ter sido no transporte. Nem tudo é perfeito! Venha amor, vamos dar um passeio á moda antiga!...
Fim (?)
Naqueles anos dourados, quando o presidente Kubitscheck iniciava seu mandato com a bandeira do progresso e o Sputnik dava suas primeiras voltas á terra, o chique era fazer roupas nas modistas como eram designadas as costureiras e o ateliê de Madame Raymonda ficava no terceiro andar de um distinto prédio comercial no Centro de Juiz de Fora.
– Que tecido maravilhoso; a senhora teve muito bom gosto! – ela acabava marcar a bainha num vestido com a delicadeza de um violinista e elogiou a freguesa, que sorriu. Na sala de espera havia mais duas senhoras aguardando-a, indicando á prosperidade do seu negócio.
Sua residência ficava numa rua sem saída ao final da via sem vizinhos próximos, o que lhe garantia muita privacidade. Aliás, esta era uma das características de Madame Raymonda: extrema descrição de sua vida particular. Sabia-se apenas que ela vivia sozinha naquela bela casa em estilo neocolonial com muros altos e uma grande porta de garagem em madeira pintada de verde musgo.
No lado oposto havia uma casa modesta com jardim frontal e varanda. Ali vivia uma adolescente de quatorze anos chamada Sofia, a mais nova de três irmãs. Sua saída á escola coincidia com a de Madame Raymonda ao ateliê, e ela sempre observava seus trajes que pareciam diretamente vindos das telas do cinema ou dos figurinos de Alceu Penna nas paginas da revista “O Cruzeiro”. E ainda havia aquele cabelo negro que lhe caía aos ombros em ondas perfeitamente simétricas. Tão diferente das suas irmãs, sempre metidas em vestidos fora de moda e de cabelos ressecados emaranhados em grampos e lenços.
Um dia, Sofia folheava um jornal quando viu anúncio do Ateliê de Madame Raymonda com o desenho de um vestido assinado pela própria. Então veio a curiosidade de conhecê-lo.
A garota inventou compra de material escolar para ir á cidade, e foi fácil encontrar o ateliê no prédio na Rua Halfeld, pois havia um manequim de corpo inteiro com uma das criações de Madame Raymonda á recepção. Seus olhos captavam os detalhes daquela saleta que parecia um cenário de filme; abajures, tapeçarias, um grande espelho com moldura dourada e um sofá em couro vermelho onde uma senhora aguardava.
Sofia não entrou, apenas ficou á porta observando, e em instantes, outra senhora muito elegante e perfumada saiu com um embrulho ás mãos. - Tudo tão lindo! – pensou; mas como não daria para ficar contemplando aquele cenário de sonhos o resto do dia, teve que voltar para casa.
Uma noite Sofia saiu á varanda para ver os vagalumes na primavera, quando ouviu o ronco de um motor; era um automóvel azul com capota preta que parou diante da casa de Madame Raymonda. Um homem de terno e chapéu saiu do carro abriu a porta da garagem entrou com o veículo e tornou a fechá-la. Isto a deixou intrigada, pois, até onde se sabia Madame Raymonda não era casada! Mas deu de ombros e voltou aos vagalumes.
As idas ao ateliê se tornaram constantes á qualquer saída á cidade. Numa tarde, a recepção estava vazia e Sofia entrou sentindo o leve perfume de lavanda no ar e vendo sua imagem refletir no belíssimo espelho. Subitamente a porta do ateliê abriu e Madame Raymonda espiou a saleta: – Olá, você está me esperando?
-... Não. Estava só olhando! – e foi saindo ao que a modista perguntou: - Espere; você é minha vizinha de frente! – e sorriu: - Eu te vejo todos os dias seguindo á escola quando venho trabalhar e percebo que me olha sempre; por quê?
- Eu acho a senhora muito elegante!
Ela riu: - Obrigada querida, é uma obrigação do meu ofício! – e a olhou: - É uma moça! Quantos anos você tem?
- Quatorze anos. Vou fazer quinze daqui dois meses!
- Ah, que coisa linda! Vai ter festa?
- Só no colégio para as meninas que farão quinze anos este semestre. Mas eu não irei!
- Por que não?
- Eu não tenho roupa para ir e não quero passar vergonha!
Raymonda á olhou um instante, e falou com o dedo indicador nos lábios: - Venha comigo, querida! - a pegou pela mão e entraram no ateliê. Ela buscou um cabide com um vestido e o posicionou no corpo de Sofia, dizendo: - Creio que vai servir! Mude de roupa no provador.
- Não posso ficar com esse vestido, não teremos como pagar!
- Eu não falei nada em pagamento! Este vestido foi encomenda de uma freguesa que, depois de pronto decidiu fazer outro modelo para a filha! – deu de ombros: - Pagou e não o levou. Hoje nem serve mais na garota, e é melhor que seja usado do que mofar aqui, não é? – e já foi buscando fita métrica e alfinetes para os ajustes. Era um vestido em cetim de seda rosa com bordados no corpete e saia rodada tipo “guarda chuva” com anágua em tafetá.
Sofia sorriu e voltou para casa radiante.
Assim que entrou ela contou para os pais. Dona Neide ficou contente, mas ressalvou: - Faremos questão de pagar pelo vestido!
Oswaldo, seu pai confirmou: - Evidente! Ah, vou gostar muito de dançar a valsa com minha filha caçula!
Agnes, sua irmã dez anos mais velha protestou: - Essa é boa! Quando eu fiz quinze anos só teve uma festinha roscofe aqui em casa e nada de vestido novo!
Dona Neide reagiu: - Aqueles eram outros tempos Agnes; não estávamos em condições de gastar e fizemos o melhor possível!
Ela respondeu irritadiça: - Sei! Mas mesmo assim estou achando estranha esta mulher querer dar um vestido á Sofia! Por acaso você foi lá pedir?
- Não! Ela me ofereceu por que quis!
- Estão vendo? – abanou a cabeça: - Acho que não devemos aceitar esse presente sem mais nem menos!
- Não! – protestou Sofia: - Eu quero o vestido!
- Cala a boca, sua pirralha, que você não sabe de nada da vida!
Dona Neide a cortou: - Chega Agnes, pare de implicar com a vizinha! Amanhã mesmo eu irei ao ateliê dela para ver melhor esse negócio do vestido.
- Vocês são muito bobos; essa mulher engana todo mundo, mas a mim, não! – e saiu pisando duro.
Sem se dar por vencida, Agnes começou a buscar aliados na sua cruzada contra Raymonda. Primeiro no pai, que a princípio gostou da ideia de dançar valsas com a filha caçula no baile, mas deu certa razão a filha mais velha. A irmã do meio, Mariana, foi fácil dobrar porque sempre acompanhava as ideias de Agnes. Em pouco tempo a campanha de antipatia á Raymonda tomava a vizinhança, pois a achavam esnobe e uma costureira careira demais para seus bolsos. Começou circular fofocas sobre a sua vida pessoal: uma mulher solteira que vivia sozinha numa casa de luxo? Uma vizinha reclamou que ela se insinuava aos homens ao caminhar na rua, e mais de uma vez apanhou o marido debruçado na janela vendo-a passar. Uma manhã, o acaso se encarregou de criar mais factoides, pois Raymonda seguia ao trabalho a pé carregando uma sacola que arrebentou a alça. Um vizinho, homem casado, ajudou-a, e isto bastou para insurgir uma onda de veneno contra a destruidora de lares, que sempre retornava á casa tarde da noite num carro de luxo, um Thunderbird conversível, com um homem.
Uma madrugada alguém atirou uma pedra na janela da casa de Raymonda, que apenas mandou trocar o vidro sem emitir comentários.
Agnes insistia para a mãe recusar o presente, mas Dona Neide se mostrava irredutível: Sofia teria sua noite de debutante!
Numa tarde a garota estava na sala estudando e escutou Agnes conversando com as vizinhas e planejando uma espécie de emboscada para Raymonda á porta de sua casa quando retornasse de carro. Elas se colocariam diante da porta da garagem impedindo-os de entrar e assim revelar a identidade do homem misterioso, certamente o amante que bancava sua vida de luxo.
Sofia se assustou e correu ao ateliê para alertá-la.
Raymonda ouviu tudo em silêncio, apenas abanando a cabeça em desaprovação. Ao final, Sofia falou: - Elas viram a senhora chegando á sua casa de carro, com um homem,... Eu também vi esse homem, mas acho que ninguém tem nada com isto!...
Ela interrompeu e disse. – Sim, mas as pessoas pensam o contrário! – apanhou um embrulho amarelo com laço rosa: - Este é o seu vestido, querida; leve-o! E não se preocupe comigo. Certas coisas são inevitáveis! – Sofia não compreendeu bem aquelas palavras, mas obedeceu.
Passava das 21hs quando o Thunderbird azul e preto chegava á entrada da garagem e foi imediatamente detido pelas mulheres que fecharam sua passagem. O homem de chapéu saiu e perguntou: - O que está acontecendo por aqui? – Agnes respondeu: - Nada! Só estamos preocupadas com a reputação da nossa vizinhança!
- É mesmo? Podem me explicar?
Uma vizinha espiou dentro do carro e falou: - A tal da Raymonda nem veio junto! Mandou o homem dela para nos afrontar!
O homem riu e disse: - Não! Ela não mandou homem nenhum! – e tirou seu chapéu, revelando seus cabelos negros e ondulados lhe caindo nos ombros. – Eu sou o homem, e vim de peito aberto para lhes mostrar o que sou: apenas uma mulher que vive e pensa diferente!
As mulheres fizeram “Ooooh” em uníssono, algumas se benzendo enquanto Agnes gritou. – Eu não falei que ela era uma esquisita? Uma mulher que se veste de homem e certamente deve gostar de mulheres. Isto é uma aberração que afronta á Deus!
Raymonda chegou perto e a desafiou: - Eu sei do que eu gosto, e você? – riu. – Tu não me enganas nem um minuto, querida. E se eu me encostar á você agora?... O-ho! Aposto que vai gostar!
Furiosa Agnes se afastou, apanhou uma pedra e atirou-a, ferindo Raymonda na testa. Outras mulheres fizeram o mesmo, obrigando-a buscar refúgio dentro de casa, que foi apedrejada, assim como seu carro. Chamaram a policia, e isto acabou sendo o estopim do escândalo da modista que se vestia de homem á noite para beber nos bares e frequentar cabarés na parte baixa da cidade, como afirmaram várias testemunhas. Até seu ateliê foi vandalizado.
Era o fim de Madame Raymonda que não teve alternativa, senão deixar Juiz de Fora.
Da varanda da casa Sofia espiava o Thunderbird azul repleto de arranhões na lataria levando-a embora quando Agnes chegou triunfante: - Depravados como esta aí não podem viver perto de pessoas decentes! – atirou o pacote amarelo ao chão: o vestido de Sofia estava todo retalhado á tesouradas: - Ás vezes isto ainda serve como estopa! – falou com ar de deboche.
Furiosa, Sofia voou em Agnes, puxando-lhe o cabelo e as duas se engalfinharam.
Dona Neide chegou para apartá-las: - Chega, parem com isto!
- Olha o que ela fez mãe! – falou Sofia chorando e mostrando os trapos.
- Essa garota boba ficou indo no antro daquela esquisita todo dia mãe! – bradou Agnes apontando-lhe o dedo. – Vai ver que aconteciam coisas lá que a gente nem sabia!
Ao ouvir isto a mãe lhe deu dois bofetões no rosto: - Cala essa boca sua burra! – sacudindo-a: - A gente tem é que torcer para esse veneno não se voltar contra nós! – e arrastou-a para dentro de casa debaixo de tapas.
Sofia ficou chorando e segurado os retalhos do vestido junto ao peito enquanto Mariana observava de longe.
Mas Dona Neide estava certa, pois Mariana tinha contado ás colegas de colégio que sua irmã frequentava o ateliê de Madame Raymonda todos os dias, e tinha ganhado um vestido novo.
Numa manhã Sofia chegava ao colégio e seus colegas foram se afastando com cochichos e risinhos: - É esta aí mãe! – ouviu alguém falar, ao que a mãe respondeu: - Não quero que você ande com ela!
No recreio Sofia acabou brigando com uma colega. Dona Neide foi chamada á secretaria e recebeu repreensões por ter permitido que a filha frequentasse e até ganhasse presentes de uma pervertida.
Os jornais viram uma chance de espichar a história, e saiu uma matéria sobre o escândalo da garota seduzida pela costureira lésbica, sem citar nomes, mas todos sabiam que era Sofia. Até Oswaldo teve problemas no trabalho por conta de comentários maldosos de colegas e do patrão. A família foi assediada pela imprensa e estigmatizada por vizinhos e amigos a tal ponto que não tiveram outra coisa a fazer senão se mudarem de Juiz de Fora. Agnes se desligou da família permanecendo na cidade e foi viver sozinha num bairro afastado na periferia.
Final.
FIM!
Conto "Um encontro no Natal"
Era madrugada quando conduzia seu vetusto VW Santana, ainda com seu traje de Papai Noel, depois de mais uma festa num clube cheinho de empresários bêbados, assim como ele, que carregava o perfume de uma mulher que absolutamente embriagada o arrastou para um canto, dizendo: - Quero ver o que tem na sacola do Papai Noel! – ele riu e respondeu: - Tá meio vazio, só tem um boneco!
Festa boa e bem paga, regada a uísque e mesa farta; assim Juvenal conduzia seu possante entoando a canção “Happy Xmas” de John Lennon num inglês bem fuleiro. O para brisa do carro começou a embaçar e ele tentou limpá-lo esfregando a manga do casaco tornando-o ainda mais turvo. – Droga!... Limpa, porcaria! – reclamou enquanto ia ficando nervoso, e pisando mais fundo. Então o carro começou a seguir em zigue-zague sem ele dar conta. Adiante havia uma rotatória, a qual o veiculo galgou num salto, seguindo aos solavancos. Juvenal não conseguia ver adiante e nem deter o carro sem direção até se chocar em algo. Agarrado ao volante, ele olhou através do para-brisa embaçado; havia luzes piscando. – Ih!... Será que eu bati numa árvore de Natal? – ao abrir a porta viu que se tratava do giroflex de um carro patrulha e dois policiais olhavam-no com cara de poucos amigos. Juvenal saiu do seu carro aos tropeços e num ato sem noção lhes disse. –... Feliz Natal. – e vomitou em seguida.
Foi detido por direção perigosa, embriaguês ao volante e dano ao patrimônio público.
Dias depois estava na audiência com o juiz, que dizia ao seu advogado: - Seu cliente caprichou; poderia ter resultado numa tragédia!
- Meritíssimo; - respondeu: - Meu cliente está ciente da gravidade do seu erro e está disposto a arcar com as consequências. – Juvenal o cutucou: - Peraí, não! Assim você vai me ferrar! – ele respondeu: - Cala a boca idiota!
O juiz interveio: - Por favor, senhores, vamos parar com esta audiência paralela! Já decidi o veredito: - olhou Juvenal firme: - Eu o condeno ao pagamento de uma multa de cinquenta salários mínimos, ou reclusão por um ano!
- O quê?... Eu não tenho este dinheiro, e não quero ser preso...
O advogado interviu: - Meritíssimo; meu cliente é réu primário! Esta multa não poderia ser revestida em trabalho comunitário ou doação de cestas básicas?
O juiz sorriu: - É evidente doutor! – olhou Juvenal: - O senhor é Papai Noel de festas; certo? Todos os anos há dificuldade em encontrar pessoas que façam Papai Noel em escolas públicas e outros locais de auxilio á crianças carentes. Faltam vinte e um dias para o Natal; então eu proponho como pena alternativa, que o senhor faça o Papai Noel em vinte festas em diferentes locais da cidade.
- Festas... Para crianças? – perguntou Juvenal.
- Sim!
-Oh Meritíssimo. – falou o advogado: - Meu cliente fará com todo o carinho e dedicação!
Juvenal só pensava: - Que droga!
Assim, sem ter escolha, naquela mesma tarde ele seguiu á uma escola municipal num bairro de periferia. Um lugar que Juvenal nem sabia que existia! Arranjaram-lhe uma poltrona ao lado de uma árvore de natal magrinha de enfeites e uma fila de crianças. Ele entrou com o tradicional “Ho, ho, ho” e se sentou. As crianças vinham com pedidos diversos: de carrinhos e bonecas, passando por vídeo games e notebooks chegando a cestas básicas e empregos para os pais. Alguns mais atrevidos puxavam sua barba e ele odiava isto.
Juvenal tinha sido garoto rico com várias idas á Disney; assim, aquele universo de periferia lhe parecia estranho e incômodo. Ouvir pedidos de pacotes de arroz ou que livrasse o pai da cadeia o colocava em contato com a miséria só conhecida em adulto depois que seu pai faliu e a bonança acabou. Isto congelou seu coração; não achava justo! Contudo, Seu biótipo de homem de meia idade branco, cabelo e barba grisalhos, olhos azuis e cintura fora de forma, o levou a buscar no papel do bom velhinho um bom reforço no orçamento de fim de ano. Assim, começava a deixar crescer a barba alva em setembro, e a aparava em janeiro. No fundo, não gostava daquilo; era pelo dinheiro. Portanto, fazer aquele papel de graça ainda que por obrigação judicial, não lhe parecia justo!
As filas eram intermináveis e a cada festa vinha o desejo que aquilo acabasse rápido. Ás vezes não sabia o que era pior: os pedidos impossíveis das crianças, ou as tiradas cretinas das suas mamães e papais!
E finalmente veio a última festa no último centro comunitário no bairro onde o vento fazia a curva. A última criança saiu e ele olhou no relógio: dezessete horas; á noite teria mais uma festa de adultos. – Pronto, acabou! – levantou da cadeira com a perna esquerda dormente de servir á banco á tanta criança. Deu uma alongada e tirou o gorro, limpando a testa escorrida de suor com as costas da mão. Já ia saindo quando escutou uma voz: - Ele ainda tá aí pai?
- Sim, filho, ele ainda está aqui! – era um homem magro, trajando uniforme de trabalho e trazendo seu filho pela mão.
Ao se aproximarem, Juvenal, cansado e ansioso para ir embora, abanou a cabeça ao falar: - Sinto muito, mas... - o homem lhe lançou um olhar de súplica que parecia dizer: “por tudo de mais sagrado, atende a gente?”. Então se apiedou e concluiu: -... Oh, sim, sim! – colocou o gorro e se sentou: - Ho, ho, ho! Venha aqui no Papai Noel, garoto! – abrindo os braços.
O homem conduziu o filho que buscou o braço de Juvenal e o segurou. Ele o pegou o pôs sobre a perna: - Upa! Você é um meninão! Como se chama?
- Fábio!
- Oh, Fabinho! Quantos anos você tem?
- Tenho sete! Faço oito anos em março!
- Você estuda, está em que ano?
- Segundo ano! Faço contas e já sei ler em braile!
- Braile? – olhou o pai do menino fazendo um gesto indicativo que Fábio era cego. – Ah,... Sim, que coisa boa! – respondeu notando que os olhos castanhos do garoto não estavam direcionados a ele. Era assustador, mas ele se segurou: – Hum,... Você tem cara de levado! Tem obedecido ao seu papai e sua mamãe?
- Minha mãe morreu; mas eu obedeço, não é pai?
- Sim; meu filho é um bom garoto e estudioso. O senhor precisa ver as notas dele!
- Mas que beleza! – Juvenal respondia em meio á varias emoções: – E... O que você quer ganhar de presente de Natal Fabinho?
- Uma bicicleta!
- Bicicleta?... Mas,... Você sabe andar de bicicleta?
- Não! – riu. – E nem dá, né Papai Noel? Eu caio, não vou poder andar!
- Ora, então porque você quer uma bicicleta? Tem muito brinquedo que você pode brincar.
- Ah, mas eu posso montar nela parada mesmo. – riu: - Meu pai disse que põe o ventilador na minha frente, aí fica parecendo que estou andando! - Juvenal achou aquela lógica ingênua e tocante. - Só de eu saber que ela está ali, já tá bom!
- Sim Fabinho, de fato! – mas se perguntava: “será que o pai desse garoto pode comprar?”.
Então o pai falou: - Fábio; eu acho que o Papai Noel deve estar cansado! Vamos embora?
- Só mais uma coisa! – virou-se á Juvenal: - Posso pedir um negócio?
- Claro meu filho! O que é? – riu: - Mas só pode pedir um presente!
- Não é presente não! Eu posso pegar sua barba?
- Sim, pode! – delicadamente ele buscou as mãos do garoto, e levou-as a sua barba. Fábio a tocou como quem tocasse algo sagrado: - Pai! É macia que nem algodão!... É de verdade!
Era um toque suave e carinhoso. As mãozinhas foram subindo e começaram a lhe contornar as linhas do seu rosto: boca, nariz, olhos, sobrancelhas e testa onde pendia uma franja por baixo do gorro.
Juvenal sentia-se tomado de uma emoção muito forte, como se tudo aquilo estivesse envolto numa aura de magia e ternura. Logo ele, que nunca deu importância ao papel que desempenhava além do pagamento. Agora ele recebia de graça um carinho que poucas vezes tivera, e menos ainda oferecera.
- Agora chega Fábio. – falou seu pai: - O Papai Noel precisa descansar, e nós também!
- Sim pai! – ele sorriu: - Posso te dar um beijo Papai Noel?
- Sim!... Venha aqui! – e lhe deu a face recebendo o beijinho.
- Venha filho! – o pai buscou-o pela mão, e Juvenal pensou: “Já vão?... Fiquem mais!”.
- Tchau Papai Noel!
- Tchau, meu filho!
O pai de Fábio olhou-o com uma gratidão infinitamente superior a aquilo que foi dado em troca. Ainda ouviu o menino dizer antes de saírem: - É de verdade pai! É macia que nem algodão!
Juvenal ficou sentado na cadeira; a perna nem doía mais. A dor agora era outra; da solidão, do abandono e do arrependimento. Então ouviu a voz de uma mulher: - O senhor está bem?
Ele a olhou: - Ah,... Sim estou. Quem é esse homem, pai do garoto cego?
- O nome dele é Marcos. Coitado,... Trabalha muito e ainda cuida do filho cego, sozinho!
- O que o Fabinho tem na vista?
- Não sei direito, mas parece que não nasceu cego; Foi uma doença. – suspirou: - Bem. O senhor vai embora com esta roupa?
Deu de ombros: - Não sei!... Acho que não.
Na noite de Natal a comemoração era modesta na casa de Marcos e seu filho.
- A dona da padaria nos deu um bolo de laranja; tem guaraná e castanhas.
- É bom, pai. – falava Fábio mexendo no carrinho que ganhou na festa da escola.
- Que foi filho? Você está calado.
- Ah... É que, aquele dia que a gente foi no Papai Noel, eu acreditei que ele existia. Mas sei que é de mentira, né?
Marcos coçou a cabeça em busca de uma resposta: - Olhe Fábio; Não é que não existe de verdade; existe como vontade,... Sabe; vontade de acreditar!
- Como assim pai?
- É a vontade de acreditar que as coisas boas, existem!
- Então se eu acreditar com força, Papai Noel existe?
- Em algum lugar, sim, meu filho.
- Então eu vou acreditar com muita força! – e fechou seus olhinhos cegos.
Marcos segurava a vontade de chorar quando alguém bateu á porta: - Ho, ho, ho! Tem gente em casa?
Fábio abriu os olhos e disse: - É o Papai Noel! Ele veio! Abre a porta pai!
Um tanto perdido, ele correu para abrir a porta: - Pensaram que eu não vinha?
- Papai Noel! – exultou Fábio se levantando: - Onde o senhor está?
- Aqui! Venha! – ele foi ao seu encontro guiado por um guizo que o bom velhinho balançava, e o abraçou forte: - Oh, Fabinho, que abraço gostoso!
- Eu fiquei com medo do senhor não existir!
- Bem,... Eu existo, tanto que vim aqui, e trouxe o presente que você pediu!
- A bicicleta?
- Sim! Está aí na porta!
Confuso, Marcos se aproximou e sussurrou: - O senhor é o Papai Noel da festa, não é?
- Sim, e de muitas outras festas! Mas venham ver!
Na entrada da casa de vila onde viviam, havia uma bicicleta de dois lugares, com selim traseiro especial dotado de cintos. O Papai Noel conduziu Fábio ao presente, que o tocou. – É de verdade!... Minha bicicleta!
- Sim! – pegou-o no colo o colocou no selim. Prendeu o cinto e ajudou-o a colocar capacete e protetores se joelhos e cotovelos. O garoto segurou firme o guidão e alcançou os pedais. – Que irado! Mas eu vou poder andar?
- É evidente! Seu pai irá ao lugar da frente guiando, porque você não tem carteira de motorista! – e riu.
O pai se aproximou: ainda estava incrédulo: - Não sei o que dizer,... E nem como agradecer.
- Eu é que tenho muito a agradecer á vocês dois! Agora coloque o capacete, monte na bike e vá levar esse menino maravilhoso para seu primeiro passeio!... Ah, mais uma coisa: - tirou um cartão do bolso: - Ligue para esse médico; é um oftalmologista muito bom! É só dizer que é o amigo do Papai Noel que ele consultará Fabinho de graça e depois fará o que for preciso!
- Meu Deus,... Papai Noel então existe!
- Bah! Agora vá, Fabinho está esperando!
Marcos montou na bicicleta e falou: - Segure-se filho! – e começou a pedalar a bicicleta, primeiro devagar para acostumar, depois seguiu pela vila sob o aplauso de vizinhos e com a criançada correndo atrás. Fábio vibrava de alegria.
Emocionado, Juvenal olhava-os. Poucas vezes se sentiu tão leve e gratificado. Então foi cercado por crianças que o abraçaram e tocaram sua barba.
Finalmente ele encontrou algo que julgava perdido: a sua fé!
Fim.
Conto "A Onça Mendonça"
Ele vinha sorrateiro, pisando nas folhas secas sem fazer ruídos. Sua pelagem amarela salpicada de pintas negras era o aviso para que os bichos da mata se escondessem, pois a onça Mendonça estava á espreita. O nome, ele ouviu um dia e achou bonito; assim passou a ser Mendonça! Estava de olho numa capivara distraída, perfeita para a refeição; mas o pardal Tito a espantou com um grito: - Pega ela, pega ela, Mendonça! – alertada, ela saltou dentro do rio e sumiu.
Mendonça resmungou: - Por que você não fica com esse biquinho fechado? Olha o que fez! O pássaro respondeu: - Foi sem querer!
E a onça ficou sem jantar de novo.
Mendonça chegou naquela mata andando de floresta em floresta á procura de outras onças, e nada encontrou. A solidão o deixava triste: - Será que os homens acabaram com todas da minha espécie, e só sobrei eu? – Tito era amigo, mas zombava dele. – Você é bobo! Aqui mesmo tem muitas onças! – ele olhava em volta e não via nenhuma outra, e voltava a ficar triste.
Uma noite, Mendonça estava á beira do rio e do outro lado ficava a cidade. Ás vezes ia lá procurar comida no lixo; era ruim, mas matava a fome. Então olhou as luzes da Avenida Brasil e algo chamou sua atenção. Mendonça não acreditou no que seus olhos viam: uma onça pintada como ele andava de um lado á outro. – Tito, olhe ali! Uma onça, igual a mim!
O passarinho olhou e disse: - Pois eu não te falei que tinha muita onça aqui?
Seus olhos brilhavam; finalmente encontrou um de sua espécie; e sem pensar duas vezes ele saltou nas águas, cruzando o rio como se fosse um campeão olímpico de natação. Já do outro lado ele olhou a janela do prédio, e lá estava a onça andando, se lambendo e olhando para ele. - É uma fêmea! – falou Mendonça, que logo se apaixonou. Mas tinha muitos homens perto. Então, de repente a onça saiu da janela. – Uai? Cadê ela?
– Deve ter ido dormir!- respondeu Tito.
Vendo mais homens se aproximando, Mendonça resolveu voltar á mata, saltando na água de retorno.
Nas noites seguintes ele não viu a outra onça na janela. E se ela tivesse ido embora sem ao menos conhecê-lo?
Mas numa noite Tito veio chamá-lo: - A onça está na janela te chamando! Vai lá! – Mendonça correu feito uma flecha, saltando nas águas do rio para chegar logo á outra margem. Lá estava ela na janela, andando, se lambendo e olhando para ele, que estava com o coração disparado de emoção. Então atravessou a avenida e foi chegando devagarzinho perto da janela, vendo sua amada andando com aquele rebolado que só os felinos têm. Ele apoiou as patas dianteiras no peitoril e falou: – Oi! Meu nome é Mendonça; qual o seu? – ela apenas o olhava sem responder. – Oh,... Será que ela não gostou de mim?
Tito começou a rir muito, e disse: - Você é a onça mais boba que eu já vi! Não tá vendo que é só uma imagem?
Olhando melhor ele percebeu que sua amada era só uma imagem naquilo que os homens chamam de televisão. Isso o deixou muito triste e seus olhos se encheram de lágrimas.
Ei amigo,... Não precisa chorar. Foi só uma brincadeira. – falou Tito.
Ele já ia responder quando sentiu uma pontada forte na coxa traseira, era um dardo. Olhou em volta e viu muitos homens rodeando, trazendo uma rede. Ele rugiu, tentou fugir e ameaçou-os; mas começou a sentir muito sono. Ainda tentou se debater quando foi coberto pela rede; mas vencido pelo sedativo, foi capturado. Colocaram-no numa jaula, depois num carro e saíram.
Então foi Tito que chorou: - Que droga; perdi meu amigo.
Dias depois Mendonça acordou numa mata, lembrando que os homens o levaram á aquele lugar. Ele levantou, olhou em volta e viu que era outra floresta, o cheiro era diferente. Então saiu em reconhecimento daquele lugar novo: tinha caça; água e era longe dos homens; – Grande coisa; ainda estou sozinho. Dá saudade até do Tito! – resmungou.
Numa manhã, Mendonça andava de cabeça baixa, triste e solitário, quando ouviu alguém chamar: - Oi! Você é novo por aqui?
Ele olhou, e era uma onça pintada fêmea. Desconfiado, ele aproximou e perguntou: - Você é de verdade ou é outra imagem de televisão pra me enganar?
Ela estranhou: - O que você falou?
Então escutaram uma voz estridente e conhecida: - Ele disse que é um prazer te conhecer, garota! – era Tito que vinha voando até pousar nas costas de Mendonça falando-lhe ao ouvido. – Não estrague tudo, deu trabalho encontrá-la! – riso. – Pensou que ia se livrar de mim?
Mendonça abriu um largo sorriso e perguntou. – Meu nome é Mendonça, qual o seu?
Ela olhou de lado e respondeu: - Me chamo Belinha! Venha, vou te mostrar como é esta floresta; tem uma cachoeira por ali.
E saíram os três pela mata. Mendonça agora estava feliz, pois finalmente encontrou uma companheira.
Fim.
Conto "INDIAN CHIEF"
O empresário da construção civil Giorgio Del Nero estava contente, pois conseguira comprar um conjunto de instalações industriais abandonadas á décadas num bairro nobre de Belo Horizonte. Não eram prédios antigos de interesse histórico, apenas velhos galpões e escritórios que adquiriu de "porteira fechada", ou seja, incluindo tudo que estava dentro: teares industriais obsoletos e enferrujados além de cacarecos cheios de cupins. Iriam direto para o ferro velho e o lixo.
Giorgio coordenava os trabalhos de remoção de entulhos menores em caminhões enquanto empilhadeiras removiam maquinários para poderem iniciar a demolição, quando um operário o chamou para ver algo num cômodo dentro de um dos galpões: uma espécie de caixa de alvenaria lacrada com tijolos que ao ser aberta trouxe uma velha motocicleta á luz. O empresário se abaixou, viu a lente trincada da lanterna dianteira, e examinou a moto mais um pouco limpando o emblema da sua marca: "Indian". Ele tinha certo conhecimento de motocicletas antigas e falou: - Posso estar enganado, mas é uma Indian Chief americana!
Por se tratar uma raridade valiosa ele ligou ao corretor que intermediou a negociação do imóvel informando sobre a descoberta, mas ele disse que não se preocupasse porque o antigo proprietário assinou termo de venda com tudo que estivesse lá, sem restrições. Isto naturalmente incluiria a antiga motocicleta
Naquele mesmo dia, ele fez contato com Jairo, um mecânico de motos que ao examina-la falou: - É uma motocicleta Chief Big Twin 80 1953, raríssima! - olhou-a mais um pouco: - Veja isto: o odômetro mostra que ela não rodou quase nada! Coisa fácil de arrumar.
Giorgio ficou feliz pelo achado e imaginava-a restaurada quando um dos operários lhe trouxe uma fotografia encontrada no cubículo onde estava a moto, mostrando um adolescente ao lado da Indian com uma data escrita à caneta: 1955, mas não havia seu nome. Devia ter sido seu antigo dono.
Dias depois ele foi à oficina conferir os reparos. Jairo o recebeu explicando que foi preciso desmontá-la inteiramente, mas a restauração não seria difícil porque estava tudo praticamente intacto. Lubrificação troca de algumas peças, verificação de freios e parte elétrica, troca de pneus, que estavam ressecados e a velha Big Twin voltaria a rodar.
Ao seu turno, Giorgio procurou saber mais sobre o adolescente da foto, mas o corretor não sabia responder e nem conseguia falar com os antigos donos da tecelagem. O empresário deu ombros e se concentrou no trabalho.
Numa volta á oficina, Jairo veio recebê-lo com um colar cervical, explicando que devia ter sido algum mau jeito, mas podia ficar tranquilo que os reparos estavam em andamento. Giorgio olhou a moto suspensa no cavalete e sorriu satisfeito.
Nas semanas que se seguiram ele foi à oficina várias vezes conferir o andamento da restauração, e ficava feliz ao ver a rápida evolução. - Estou louco para dar a primeira volta! - Jairo respondeu: - dentro de,... Duas semanas... Desculpe doutor Giorgio; essa coluna está me matando! - queixou-se.
Ele comentava com Ingrid, sua esposa, sobre a Big Twin, como se referia a ela, que seria uma grande surpresa ao seu filho Diego, que estava na Europa em estudos e era aficionado em motocicletas. - Já pensou quando ele voltar e der com esta beleza na garagem? - Ingrid sorriu.
Numa ida à oficina Jairo não estava e seu sócio Américo o recebeu explicando: - Fique sossegado, doutor; sua moto será entregue na data prometida. Estamos virando a noite! - ele agradeceu e viu um mecânico trabalhando na Big Twin. Isto o tranquilizou. Américo também se queixava de dores no pescoço, mas dizia que era causada pela posição do corpo no trabalho: - Ossos do ofício, doutor!
Naquela noite, ele segurava a antiga foto na mão: o adolescente devia ter uns quinze ou dezesseis anos e estava em pé segurando o guidão com as duas mãos. Tinha cabelos claros e curtos. Se detendo mais na foto, percebeu que algo tinha sido escrito a lápis num canto, mas se apagou na superfície brilhante da foto. Giorgio posicionou a foto obliquamente à luz para tentar ver ranhuras feitas pelo lápis. No dia seguinte pediria auxílio para examiná-la com algum recurso digital.
Sempre ia à oficina e a encontrava vazia, apenas com serventes, mas sempre havia um mecânico trabalhando na moto. Ele aproximou e perguntou: - E então, tudo bem aí? - o rapaz respondeu fazendo sinal positivo com a cabeça sem olha-lo. Então Giorgio se afastou para não perturbá-lo. Sabia que alguns mecânicos não eram afeitos a conversas, e achou bom, porque estes eram os melhores.
Segundo capítulo:
Lá estava a Indian Chief Big Twin amarela brilhando como nova, com cromados e raios das rodas reluzentes. - Que fantástico Américo! Parabéns! - olhou em torno: - Onde está Jairo? - ele ia responder, mas Diego logo montou na moto e ligou seu motor com um ronco vigoroso. - Que máquina! - Giorgio sorriu e notou algo: - A lente do farol dianteiro ainda está trincada? - Américo olhou: - É mesmo! Puxa vida, doutor; perdão, eu não notei que quebrou novamente. Vamos ter que esperar mais uns dias, porque esta peça tem que vir dos Estados Unidos.
Diego retrucou: - Ah não!... Quero ir para casa nela agora! Depois trago de volta para arrumar.
- Está bem, filho! - respondeu Giorgio enquanto o rapaz punha o capacete e acelerava, mas antes de sair à rua deu voltas no pátio da oficina para se acostumar a maneira de guiá-la.
Américo se desculpava: - Foi um vacilo!... Ah, mas depois do que aconteceu, perdemos um pouco o prumo e tivemos que virar noites nos serviços para dar conta, e o do senhor tinha prioridade!
- Sim, eu vi que sempre havia um mecânico mexendo na moto sempre que vinha aqui, muito calado!... Mas o que aconteceu?
- Bem doutor; evitamos comentar porque foi algo muito triste; Jairo morreu!... Cometeu suicídio!
- Como é?... Suicídio?
- Sim. - apontou uma viga. - Se enforcou ali. Não sabemos o que o levou a isto. - Giorgio se espantou enquanto ele prosseguiu: - Como trabalho noutra coisa de dia, eu tive que trabalhar na sua moto apenas à noite!
Ele retrucou: - Mas sempre havia um mecânico mexendo na Big Twin todas as vezes que vim aqui de dia!
- Isto é impossível!... Mesmo o Jairo, só trabalhava nela ao fim do expediente, na tardinha.
- Não, eu vinha sempre por volta do meio dia. Tenho fotos, veja! - ia mostrá-las no celular, mas para sua surpresa, só aparecia a moto sobre o cavalete.
Neste momento Diego saiu à rua dizendo: - Estou craque pai!... Te vejo em casa!
Ele não o ouviu. - Mas,... Havia um rapaz sempre mexendo nela! Era loiro e,... - subitamente ouviu-se o eco grave de uma freada brusca de caminhão, e gritos...
No sepultamento de Diego, seu pai era um homem destruído. Ingrid sequer conseguiu ia ao cemitério e teve uma crise nervosa acusando Giorgio pela tragédia. Nem precisava, por que ele se sentia terrivelmente culpado.
Dias depois, no escritório da construtora, ele era a própria imagem da desolação e já pensava em fazer uma reunião de acionistas para comunicar que sairia da presidência do grupo empresarial, pois já não se sentia capaz. Sua esposa já falava em separação e o mundo desmoronava ao seu redor.
Numa tarde ele tentava se concentrar no trabalho quando a secretária lhe entregou um envelope enviado pelo designer gráfico que examinou a foto de 1955. Irritado, ele o jogou na mesa. - Que importa isto agora? - pensou. Mas depois se acalmou e o abriu. O designer tinha conseguido resgatar os escritos apagados da foto, e era uma espécie de ameaça: "Ninguém jamais poderá possuir esta máquina. Ela é minha e eu amaldiçoo quem ousar tentar.". Assustado Giorgio largou o papel na mesa e lembrou-se das fotos que fez da Indian no cavalete com o mecânico loiro trabalhando nela, que trazia apenas a moto. Ele ficou um bom tempo na solidão da sua sala tentando compreender aquilo. Então fez uma ligação ao corretor e lhe ordenou que encontrasse os donos da antiga tecelagem e descobrisse quem era o proprietário da moto em 1955. Pagaria o que fosse preciso por esta informação!
Terceiro capítulo:
- Não, absolutamente! Vou ser direto, senhor Roberto! - mostrou-lhe a foto de 1955. O velho empresário se assustou, e perguntou: - Onde o senhor conseguiu isto? - Giorgio começou a explicar o caso da motocicleta Indian emparedada que pretendia restaurar, e relatou passo a passo todo o ocorrido até o trágico desfecho. Ao final, abaixou a cabeça e disse: - Perdi meu único filho,... Eu preciso de respostas senhor Roberto. Leu o que está escrito na foto?
- Sim! Eu confesso que estou surpreso e confuso. Nunca imaginei que a Indian estivesse escondida na tecelagem.
Giorgio olhou-o e suplicou: - Por favor, eu estou passando o pior momento de toda minha vida, e nem, sei como isto aconteceu. Só sei que tem a ver com esta maldita motocicleta!
Roberto andou pela sala segurando a foto e falou: - Eu sabia que havia algo errado,... O rapaz que está na foto, era Pedro, meu único filho no dia do seu aniversário de dezesseis anos. Ele morreu dois anos depois, num sanatório. Pedro era psicótico! - então se sentou e começou a relatar trajetória de seu filho único, um menino introspectivo e isolado que colecionava qualquer coisa relacionada a motocicletas: de recortes em jornais e revistas á brinquedos. - A princípio parecia algo inocente, mas foi se tornando mais e mais obsessivo a ponto dele ficar o tempo todo trancado no quarto onde afirmava ouvir vozes! Minha mulher era espiritualista e julgou que fosse alguma manifestação mediúnica. Ah, quanta besteira, devíamos tê-lo levado a um psiquiatra! - ele prosseguiu falando das sessões espíritas realizadas em casa, que faziam Pedro se considerar uma pessoa especial. - Foi um grande erro que potencializou seus delírios. - ele disse que a obsessão por motocicletas aumentava, então tiveram a pior ideia de suas vidas: compraram-lhe uma moto real: a Indian Chef Twin Bean 80, em 1953. Mas havia uma condição: Pedro só poderia possuí-la de fato depois dos dezoito anos. - Ele aceitou, e levamos a moto para a garagem da tecelagem, onde aguardaria. Nosso filho estava com quatorze anos e começou ir à tecelagem todos os dias, passando todo o tempo na garagem limpando-a. - olhou para o alto com lágrimas rolando a face: - Mas, como eu disse, havia algo muito errado acontecendo. Alguns empregados ouviram-no falando com a moto na garagem, como se fosse uma pessoa viva! Eu me apavorei quando Pedro disse: "querem que eu pilote a moto, pai!" - Roberto lembrou-lhe o que haviam combinado, mas o filho se mostrava irredutível ao dizer: "Foram eles que mandaram!", e ao lhe perguntar: "Eles, quem?", ele ria e dizia: "Eles!". Se passou um ano e Pedro cada vez mais obcecado pela moto. Então Roberto cometeu o segundo erro ao permitir que o filho a conduzisse apenas nas instalações da fábrica aos finais de semana. - Foi muito estranho. Chamei um instrutor para lhe ensinar a guiar a moto, mas Pedro já sabia e com muita desenvoltura! - abanou a cabeça: - Instaurou-se o inferno na tecelagem! - Roberto prosseguiu, explicando que Pedro ia à tecelagem de manhã à tarde e ficava dando voltas com a moto entre os galpões e isto começou a incomodar empregados e seus sócios que, irritados, ordenaram que aquilo tivesse fim. - Eu o chamei e fui duro, discutimos e acabei ameaçando-o, dizendo que venderia a moto! A reação dele foi violenta; empurrou-me e proferiu a frase que está nesta foto: "Ninguém mais poderá possuir esta máquina. Ela é minha e eu amaldiçoo quem ousar tentar!" E terminou dizendo que eram "ordens dos mestres" antes de acelerar e sair à rua. Desesperado eu entrei no carro e saí atrás dele, mas não o encontrei, e voltei à firma. No dia seguinte recebemos a notícia que Pedro foi preso em flagrante, acusado de homicídio! Ele matou um empregado da tecelagem e só dizia: "fiz da maneira que eles ordenaram pai. Está tudo bem!" e não disse mais nada. - suspirou: - Foi diagnosticado como portador de psicose e esquizofrenia, e como era menor de idade foi enviado á um sanatório para crianças e jovens com distúrbios mentais graves, Dois anos depois ele cometeu suicídio no sanatório, se enforcando com tiras dos lençóis que usou como corda,... Ele tinha só dezoito anos!
Giorgio ficou abismado e perguntou: - Então, foi o senhor que emparedou a moto na tecelagem?
- Não fui eu! Mas agora, várias coisas começam a fazer sentido: a moto havia desaparecido, e quando eu perguntava seu paradeiro a Pedro, ele dava de ombros e não respondia O operário morto era pedreiro e trabalhava em obras na fábrica. Era o único que conversava com Pedro e o ajudava com a moto, e certamente o ajudou a escondê-la atrás da parede falsa. Na sua loucura Pedro o matou para guardar o segredo. E faz sentido também a onda de doenças e até suicídios que acometeu aos funcionários da tecelagem. Isto contribuiu para a decadência que levou à falência da empresa anos depois. Como vê senhor Giorgio, esta é a história de uma sucessão de equívocos. Não sei o que dizer. Apenas peço perdão pela fraqueza que me impediu de fazer a coisa certa a tempo! Sinto muito que tenha perdido seu filho.
O empresário respondeu: - Ambos perdemos senhor Roberto. - levantou-se para sair. - Obrigado, e desculpe tê-lo feito recordar de coisas tão tristes.
- Não esqueço um só dia! O que o senhor vai fazer com a moto?
- Vou destruí-la!
Quarto capítulo:
- Exatamente isto, senhor Teixeira.
- Mas,... É uma moto antiga, uma relíquia muito rara! Se não a quer, me venda!
Impacientou-se: - Olhe senhor Teixeira; eu não vim aqui atrás de conselhos e nem como negociante de antiguidades. Vou pagar para o senhor destruí-la até o ultimo parafuso; mas se não quiser, eu vou a outro lugar!
- Oh não! Claro doutor. Vou atendê-lo. - Teixeira seguiu para trás da maquina que consistia numa caixa alta, de aço, onde peças cilíndricas e dentadas em aço maciço giravam conseguindo reduzir qualquer peça metálica a fragmentos. Teixeira subiu num guindaste, que apanhou a moto com garras e a ergueu, colocando-a na caixa. Depois acionou a máquina, que emitiu barulhos ensurdecedores de metal sendo amassado e quebrado. Em seguida, fragmentos seguiam por uma esteira, caindo numa caçamba que seria levada á siderúrgica. - Pronto doutor! - falou Teixeira se aproximando: - Deu pena, mas se o senhor queria assim!
Giorgio lhe entregou o pagamento e respondeu antes de entrar na camioneta; - Obrigado. Tenha a certeza que fiz a coisa certa, porém tarde demais! - e saiu do ferro velho.
Teixeira apenas esperou que saísse para subir uma escada atrás da trituradora, onde havia uma caixa cheia de lã de metal rente a maquina. Ele olhou dentro e riu.
Meses depois em Denver, no estado norte americano do Colorado, um jovem falava ao telefone:
- Yes, the bike was deliverd, and is wonderful! Deposited the rest of the payment to your account, Mr. Teixeira. Thank you! - ele desligou e falou à namorada: - It is amazing! They were going to destroy this rare Indian Chief Twin Bean '53 in a junkyard! Mr. Teixeira rescued it in time, and now it's here, with me!
Ela perguntou: - This bike has not value in Brazil?
Ele respondeu: - I don't know! The important thing is that I made como true dream! - olhava-a e ao alisar o para lamas dianteiro, exclamou: - Oh shit!
- What's happen?
- The headlight is broken! Maybe the shipping. - deu de ombros: - Not everything is perfect! Come on baby, let´s take a ride on the oldfashioned way!...
Tradução do dialogo em inglês:
- Sim, a moto foi entregue. É maravilhosa! Depositei o restante do pagamento na sua conta, Senhor Teixeira. Obrigado! - ele desligou e falou à namorada: - É incrível! Eles iam destruir esta rara Indian Chief Big Twin 1953 num ferro velho! O senhor Teixeira a resgatou a tempo, e agora ela está aqui, comigo!
- Esta moto não tem valor no Brasil?
- Eu não sei! O importante é que eu realizei um sonho! Oh, merda!
- Que foi?
- O farol dianteiro está quebrado! Deve ter sido no transporte. Nem tudo é perfeito! Venha amor, vamos dar um passeio á moda antiga!...
Fim (?)
Conto "Madame Raymonda"
– Que tecido maravilhoso; a senhora teve muito bom gosto! – ela acabava marcar a bainha num vestido com a delicadeza de um violinista e elogiou a freguesa, que sorriu. Na sala de espera havia mais duas senhoras aguardando-a, indicando á prosperidade do seu negócio.
Sua residência ficava numa rua sem saída ao final da via sem vizinhos próximos, o que lhe garantia muita privacidade. Aliás, esta era uma das características de Madame Raymonda: extrema descrição de sua vida particular. Sabia-se apenas que ela vivia sozinha naquela bela casa em estilo neocolonial com muros altos e uma grande porta de garagem em madeira pintada de verde musgo.
No lado oposto havia uma casa modesta com jardim frontal e varanda. Ali vivia uma adolescente de quatorze anos chamada Sofia, a mais nova de três irmãs. Sua saída á escola coincidia com a de Madame Raymonda ao ateliê, e ela sempre observava seus trajes que pareciam diretamente vindos das telas do cinema ou dos figurinos de Alceu Penna nas paginas da revista “O Cruzeiro”. E ainda havia aquele cabelo negro que lhe caía aos ombros em ondas perfeitamente simétricas. Tão diferente das suas irmãs, sempre metidas em vestidos fora de moda e de cabelos ressecados emaranhados em grampos e lenços.
Um dia, Sofia folheava um jornal quando viu anúncio do Ateliê de Madame Raymonda com o desenho de um vestido assinado pela própria. Então veio a curiosidade de conhecê-lo.
A garota inventou compra de material escolar para ir á cidade, e foi fácil encontrar o ateliê no prédio na Rua Halfeld, pois havia um manequim de corpo inteiro com uma das criações de Madame Raymonda á recepção. Seus olhos captavam os detalhes daquela saleta que parecia um cenário de filme; abajures, tapeçarias, um grande espelho com moldura dourada e um sofá em couro vermelho onde uma senhora aguardava.
Sofia não entrou, apenas ficou á porta observando, e em instantes, outra senhora muito elegante e perfumada saiu com um embrulho ás mãos. - Tudo tão lindo! – pensou; mas como não daria para ficar contemplando aquele cenário de sonhos o resto do dia, teve que voltar para casa.
Segundo capítulo
As idas ao ateliê se tornaram constantes á qualquer saída á cidade. Numa tarde, a recepção estava vazia e Sofia entrou sentindo o leve perfume de lavanda no ar e vendo sua imagem refletir no belíssimo espelho. Subitamente a porta do ateliê abriu e Madame Raymonda espiou a saleta: – Olá, você está me esperando?
-... Não. Estava só olhando! – e foi saindo ao que a modista perguntou: - Espere; você é minha vizinha de frente! – e sorriu: - Eu te vejo todos os dias seguindo á escola quando venho trabalhar e percebo que me olha sempre; por quê?
- Eu acho a senhora muito elegante!
Ela riu: - Obrigada querida, é uma obrigação do meu ofício! – e a olhou: - É uma moça! Quantos anos você tem?
- Quatorze anos. Vou fazer quinze daqui dois meses!
- Ah, que coisa linda! Vai ter festa?
- Só no colégio para as meninas que farão quinze anos este semestre. Mas eu não irei!
- Por que não?
- Eu não tenho roupa para ir e não quero passar vergonha!
Raymonda á olhou um instante, e falou com o dedo indicador nos lábios: - Venha comigo, querida! - a pegou pela mão e entraram no ateliê. Ela buscou um cabide com um vestido e o posicionou no corpo de Sofia, dizendo: - Creio que vai servir! Mude de roupa no provador.
- Não posso ficar com esse vestido, não teremos como pagar!
- Eu não falei nada em pagamento! Este vestido foi encomenda de uma freguesa que, depois de pronto decidiu fazer outro modelo para a filha! – deu de ombros: - Pagou e não o levou. Hoje nem serve mais na garota, e é melhor que seja usado do que mofar aqui, não é? – e já foi buscando fita métrica e alfinetes para os ajustes. Era um vestido em cetim de seda rosa com bordados no corpete e saia rodada tipo “guarda chuva” com anágua em tafetá.
Sofia sorriu e voltou para casa radiante.
Assim que entrou ela contou para os pais. Dona Neide ficou contente, mas ressalvou: - Faremos questão de pagar pelo vestido!
Oswaldo, seu pai confirmou: - Evidente! Ah, vou gostar muito de dançar a valsa com minha filha caçula!
Agnes, sua irmã dez anos mais velha protestou: - Essa é boa! Quando eu fiz quinze anos só teve uma festinha roscofe aqui em casa e nada de vestido novo!
Dona Neide reagiu: - Aqueles eram outros tempos Agnes; não estávamos em condições de gastar e fizemos o melhor possível!
Ela respondeu irritadiça: - Sei! Mas mesmo assim estou achando estranha esta mulher querer dar um vestido á Sofia! Por acaso você foi lá pedir?
- Não! Ela me ofereceu por que quis!
- Estão vendo? – abanou a cabeça: - Acho que não devemos aceitar esse presente sem mais nem menos!
- Não! – protestou Sofia: - Eu quero o vestido!
- Cala a boca, sua pirralha, que você não sabe de nada da vida!
Dona Neide a cortou: - Chega Agnes, pare de implicar com a vizinha! Amanhã mesmo eu irei ao ateliê dela para ver melhor esse negócio do vestido.
- Vocês são muito bobos; essa mulher engana todo mundo, mas a mim, não! – e saiu pisando duro.
Terceiro Capítulo
Sem se dar por vencida, Agnes começou a buscar aliados na sua cruzada contra Raymonda. Primeiro no pai, que a princípio gostou da ideia de dançar valsas com a filha caçula no baile, mas deu certa razão a filha mais velha. A irmã do meio, Mariana, foi fácil dobrar porque sempre acompanhava as ideias de Agnes. Em pouco tempo a campanha de antipatia á Raymonda tomava a vizinhança, pois a achavam esnobe e uma costureira careira demais para seus bolsos. Começou circular fofocas sobre a sua vida pessoal: uma mulher solteira que vivia sozinha numa casa de luxo? Uma vizinha reclamou que ela se insinuava aos homens ao caminhar na rua, e mais de uma vez apanhou o marido debruçado na janela vendo-a passar. Uma manhã, o acaso se encarregou de criar mais factoides, pois Raymonda seguia ao trabalho a pé carregando uma sacola que arrebentou a alça. Um vizinho, homem casado, ajudou-a, e isto bastou para insurgir uma onda de veneno contra a destruidora de lares, que sempre retornava á casa tarde da noite num carro de luxo, um Thunderbird conversível, com um homem.
Uma madrugada alguém atirou uma pedra na janela da casa de Raymonda, que apenas mandou trocar o vidro sem emitir comentários.
Agnes insistia para a mãe recusar o presente, mas Dona Neide se mostrava irredutível: Sofia teria sua noite de debutante!
Numa tarde a garota estava na sala estudando e escutou Agnes conversando com as vizinhas e planejando uma espécie de emboscada para Raymonda á porta de sua casa quando retornasse de carro. Elas se colocariam diante da porta da garagem impedindo-os de entrar e assim revelar a identidade do homem misterioso, certamente o amante que bancava sua vida de luxo.
Sofia se assustou e correu ao ateliê para alertá-la.
Raymonda ouviu tudo em silêncio, apenas abanando a cabeça em desaprovação. Ao final, Sofia falou: - Elas viram a senhora chegando á sua casa de carro, com um homem,... Eu também vi esse homem, mas acho que ninguém tem nada com isto!...
Ela interrompeu e disse. – Sim, mas as pessoas pensam o contrário! – apanhou um embrulho amarelo com laço rosa: - Este é o seu vestido, querida; leve-o! E não se preocupe comigo. Certas coisas são inevitáveis! – Sofia não compreendeu bem aquelas palavras, mas obedeceu.
Passava das 21hs quando o Thunderbird azul e preto chegava á entrada da garagem e foi imediatamente detido pelas mulheres que fecharam sua passagem. O homem de chapéu saiu e perguntou: - O que está acontecendo por aqui? – Agnes respondeu: - Nada! Só estamos preocupadas com a reputação da nossa vizinhança!
- É mesmo? Podem me explicar?
Uma vizinha espiou dentro do carro e falou: - A tal da Raymonda nem veio junto! Mandou o homem dela para nos afrontar!
O homem riu e disse: - Não! Ela não mandou homem nenhum! – e tirou seu chapéu, revelando seus cabelos negros e ondulados lhe caindo nos ombros. – Eu sou o homem, e vim de peito aberto para lhes mostrar o que sou: apenas uma mulher que vive e pensa diferente!
As mulheres fizeram “Ooooh” em uníssono, algumas se benzendo enquanto Agnes gritou. – Eu não falei que ela era uma esquisita? Uma mulher que se veste de homem e certamente deve gostar de mulheres. Isto é uma aberração que afronta á Deus!
Raymonda chegou perto e a desafiou: - Eu sei do que eu gosto, e você? – riu. – Tu não me enganas nem um minuto, querida. E se eu me encostar á você agora?... O-ho! Aposto que vai gostar!
Furiosa Agnes se afastou, apanhou uma pedra e atirou-a, ferindo Raymonda na testa. Outras mulheres fizeram o mesmo, obrigando-a buscar refúgio dentro de casa, que foi apedrejada, assim como seu carro. Chamaram a policia, e isto acabou sendo o estopim do escândalo da modista que se vestia de homem á noite para beber nos bares e frequentar cabarés na parte baixa da cidade, como afirmaram várias testemunhas. Até seu ateliê foi vandalizado.
Era o fim de Madame Raymonda que não teve alternativa, senão deixar Juiz de Fora.
Quarto capítulo
Da varanda da casa Sofia espiava o Thunderbird azul repleto de arranhões na lataria levando-a embora quando Agnes chegou triunfante: - Depravados como esta aí não podem viver perto de pessoas decentes! – atirou o pacote amarelo ao chão: o vestido de Sofia estava todo retalhado á tesouradas: - Ás vezes isto ainda serve como estopa! – falou com ar de deboche.
Furiosa, Sofia voou em Agnes, puxando-lhe o cabelo e as duas se engalfinharam.
Dona Neide chegou para apartá-las: - Chega, parem com isto!
- Olha o que ela fez mãe! – falou Sofia chorando e mostrando os trapos.
- Essa garota boba ficou indo no antro daquela esquisita todo dia mãe! – bradou Agnes apontando-lhe o dedo. – Vai ver que aconteciam coisas lá que a gente nem sabia!
Ao ouvir isto a mãe lhe deu dois bofetões no rosto: - Cala essa boca sua burra! – sacudindo-a: - A gente tem é que torcer para esse veneno não se voltar contra nós! – e arrastou-a para dentro de casa debaixo de tapas.
Sofia ficou chorando e segurado os retalhos do vestido junto ao peito enquanto Mariana observava de longe.
Mas Dona Neide estava certa, pois Mariana tinha contado ás colegas de colégio que sua irmã frequentava o ateliê de Madame Raymonda todos os dias, e tinha ganhado um vestido novo.
Numa manhã Sofia chegava ao colégio e seus colegas foram se afastando com cochichos e risinhos: - É esta aí mãe! – ouviu alguém falar, ao que a mãe respondeu: - Não quero que você ande com ela!
No recreio Sofia acabou brigando com uma colega. Dona Neide foi chamada á secretaria e recebeu repreensões por ter permitido que a filha frequentasse e até ganhasse presentes de uma pervertida.
Os jornais viram uma chance de espichar a história, e saiu uma matéria sobre o escândalo da garota seduzida pela costureira lésbica, sem citar nomes, mas todos sabiam que era Sofia. Até Oswaldo teve problemas no trabalho por conta de comentários maldosos de colegas e do patrão. A família foi assediada pela imprensa e estigmatizada por vizinhos e amigos a tal ponto que não tiveram outra coisa a fazer senão se mudarem de Juiz de Fora. Agnes se desligou da família permanecendo na cidade e foi viver sozinha num bairro afastado na periferia.
Final.
Aquele episódio foi um trauma para Sofia, que a partir daquele momento entendeu que os chamados “anos dourados” eram apenas folheados á ouro numa camada tão fina, que bastava um leve risco para rompê-la mostrando sua base em metal barato, corroído de preconceitos.
Passaram-se muitos anos, décadas, e Sofia vivia no Rio de Janeiro. Tornou-se advogada especialista em questões de intolerância racial ou de gênero. Era divorciada e tinha dois filhos. Mariana continuou sendo uma “Maria vai com ás outras”, agora metida num casamento por interesse, mas parecia feliz. Agnes não se casou, e entrava e saía das mais variadas religiões e seitas de todos os matizes em busca algo que nunca encontrou.
As três irmãs se encontravam apenas nas festas de fim de ano onde mantinham atitudes amistosas para não aborrecer os pais idosos. Ainda havia muitas cicatrizes!
Sofia nunca mais ouviu falar de Madame Raymonda. Procurou-a nas redes sociais, mas como não sabia se aquele era seu nome de fato ou um pseudônimo, suas pesquisas nunca chegavam á uma resposta coesa. Mesmo depois de tantos anos sentia-se culpada pelo ocorrido. Talvez se nunca tivesse dado vazão á curiosidade em torno da modista, se aproximando, nada daquilo tivesse acontecido!
Uma manhã ela folheava o jornal quando a encontrou sem querer, nos obituários: “Raimunda Einseman (Madame Raymonda)”. O sepultamento ocorreria naquela mesma manhã no Cemitério do Caju, zona portuária do Rio. Sofia nem perdeu tempo; pegou as chaves do carro e seguiu á capela onde o corpo estava sendo velado.
Ao chegar, entrou com cerimônia, como que pedindo perdão por algo tão distante quanto presente. Aproximou-se da urna e hesitou um pouco até que a olhou. Era ela mesma, mais enrugada, porém com a expressão plácida da sua memória. O que dizer? Fazer uma oração? Pensou. Havia um homem de cabelos grisalhos ao lado do caixão que Sofia ouviu se apresentar como o filho de Madame Raymonda. Mais uma vez a curiosidade tomou as rédeas e Sofia se aproximou: - Com licença,...
Ele se virou com olhos vermelhos: - Sim?
Ela o cumprimentou: - Meus sentimentos. Eu a conheci há muito tempo. Era sua mãe?
- Sim! Mãe adotiva. – ele sorriu e falou com sotaque italiano: - Eu tive duas mães e agora estão as duas no céu. – aproximou-se. – Era um casal homoafetivo como se diz hoje, mas foi bem mais que afeto: foi um lar com muito amor! – suspirou. – Vivíamos na Toscana, mas mamãe fez questão que a trouxesse de volta. Ela queria morrer no solo brasileiro! Ah,... Mamãe foi grande em tudo! Era estilista, sabia que trabalhou no ateliê de Gianni Versace? – alguém o chamou: -... Acho que é a hora do sepultamento. Com licença,... Como é o nome da senhora?
- Sofia
- Oh,... – olhou para frente e pensou um pouco: - Mamãe falava de uma menina chamada Sofia; era a senhora? – mas aos se virar, ela já havia se retirado.
Ao chegar á sua casa, Sofia foi direto ao armário, buscando uma caixa onde guardou os retalhos do vestido de cetim rosa por todos aqueles anos, e suspirou aliviada. Então apanhou uma sacola de lixo, pois finalmente poderia sepultar sua culpa junto á aqueles trapos.
FIM.
Passaram-se muitos anos, décadas, e Sofia vivia no Rio de Janeiro. Tornou-se advogada especialista em questões de intolerância racial ou de gênero. Era divorciada e tinha dois filhos. Mariana continuou sendo uma “Maria vai com ás outras”, agora metida num casamento por interesse, mas parecia feliz. Agnes não se casou, e entrava e saía das mais variadas religiões e seitas de todos os matizes em busca algo que nunca encontrou.
As três irmãs se encontravam apenas nas festas de fim de ano onde mantinham atitudes amistosas para não aborrecer os pais idosos. Ainda havia muitas cicatrizes!
Sofia nunca mais ouviu falar de Madame Raymonda. Procurou-a nas redes sociais, mas como não sabia se aquele era seu nome de fato ou um pseudônimo, suas pesquisas nunca chegavam á uma resposta coesa. Mesmo depois de tantos anos sentia-se culpada pelo ocorrido. Talvez se nunca tivesse dado vazão á curiosidade em torno da modista, se aproximando, nada daquilo tivesse acontecido!
Uma manhã ela folheava o jornal quando a encontrou sem querer, nos obituários: “Raimunda Einseman (Madame Raymonda)”. O sepultamento ocorreria naquela mesma manhã no Cemitério do Caju, zona portuária do Rio. Sofia nem perdeu tempo; pegou as chaves do carro e seguiu á capela onde o corpo estava sendo velado.
Ao chegar, entrou com cerimônia, como que pedindo perdão por algo tão distante quanto presente. Aproximou-se da urna e hesitou um pouco até que a olhou. Era ela mesma, mais enrugada, porém com a expressão plácida da sua memória. O que dizer? Fazer uma oração? Pensou. Havia um homem de cabelos grisalhos ao lado do caixão que Sofia ouviu se apresentar como o filho de Madame Raymonda. Mais uma vez a curiosidade tomou as rédeas e Sofia se aproximou: - Com licença,...
Ele se virou com olhos vermelhos: - Sim?
Ela o cumprimentou: - Meus sentimentos. Eu a conheci há muito tempo. Era sua mãe?
- Sim! Mãe adotiva. – ele sorriu e falou com sotaque italiano: - Eu tive duas mães e agora estão as duas no céu. – aproximou-se. – Era um casal homoafetivo como se diz hoje, mas foi bem mais que afeto: foi um lar com muito amor! – suspirou. – Vivíamos na Toscana, mas mamãe fez questão que a trouxesse de volta. Ela queria morrer no solo brasileiro! Ah,... Mamãe foi grande em tudo! Era estilista, sabia que trabalhou no ateliê de Gianni Versace? – alguém o chamou: -... Acho que é a hora do sepultamento. Com licença,... Como é o nome da senhora?
- Sofia
- Oh,... – olhou para frente e pensou um pouco: - Mamãe falava de uma menina chamada Sofia; era a senhora? – mas aos se virar, ela já havia se retirado.
Ao chegar á sua casa, Sofia foi direto ao armário, buscando uma caixa onde guardou os retalhos do vestido de cetim rosa por todos aqueles anos, e suspirou aliviada. Então apanhou uma sacola de lixo, pois finalmente poderia sepultar sua culpa junto á aqueles trapos.
FIM.





Essa onça Mendonça tem uma sorte, rsrsrs
ResponderExcluirÓtimo conto
Adorei Ramon. E com uma linguagem muito atraente para leitores de todas as idades.
ResponderExcluirNossa, Ramon, o conto da moto é surpreendente! Sinistro!!!
ResponderExcluirSensacional Ramon!
ResponderExcluirA moto do...
Sinistro!
ResponderExcluirCaiu um cisco no meu olho. Madame Raymonda, descanse em paz...
ResponderExcluirInfelizmente, ainda convivemos com o preconceito e as “fofocas” dos mal amados, fazendo vítimas como Madame Raymonda. Muito bom, Ramon 👏👏👏
ResponderExcluirQue emocionante o encontro no Natal, Ramón! Uma lição para nós. Estamos precisando dessa fé. Parabéns!!!
ResponderExcluirObrigada pela parceria no conto da Tia Filó, Ramón! Ficou sensacional essa reviravolta rsrsrs. Parabéns!
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