Marisa Timponi

Conto "Mascarenhas, meu amor"


Estava resolvido: o grupo se concentraria em frente ao Cine Theatro Central para a passeata. Os meninos do Abre Alas, com megafone em punho, e a turma toda da cultura, inclusive eu, nos apressávamos para organizar o trajeto. A faixa fica na frente de tudo! Mascarenhas, meu amor! Ao meu lado, Rubem Fonseca, em visita à cidade, engrossava as fileiras da philia, do amor/amizade que reivindicava a fábrica de tecidos como a fábrica dos sonhos. Teatro, salas de exposição, biblioteca municipal, oficinas de criação aguardavam o resultado de nossa ousadia, de nossas convicções transformadas em ação. O escritor, de inúmeros cursos ministrados e estudados, estava bem ali ao meu lado e eu intimidada e exultante puxava conversa: Rubem, por que tanto tempo longe da cidade? Juiz de Fora tem orgulho de você.

Nada de carro que massacra para desanuviar o dia tenso. Nada da difícil vida fácil de Marilyn Monroe. Nada de bandidos que lêem. Nada de carnavais sexualizados. A narrativa de Rubem não era o centro da conversa e nem objeto de análise: antes o afeto pela cidade origem é que estava em questão! Mascarenhas, meu amor!

Naquela tarde, saí de casa resolvida a empunhar a bandeira de luta pelo patrimônio de minha cidade do coração, Juiz de Fora. Acima das marquises, a história da cidade nos mirava, da cabeça aos pés, toda engalanada de “belle époque”. Debaixo das mesmas marquises, a história triste da pedinte que tricota, do ex-músico de olhos fundos e chorosos suplicando por umas moedas, do pipoqueiro que aguarda os comensais da noite esgueirando-se pelo afunilamento da Rua Halfeld, passagem necessária para a Getúlio Vargas da Mascarenhas, meu amor. Já não há mais brisa das três da tarde: só os olhos vigilantes, os bichos-grilos, os feirantes da madrugada, os vendedores de corpos e almas na expectativa do pão nosso de cada dia, razão onde Deus der.

Aff, a cidade merece, mas que dia! Quando chegamos à antiga fábrica, as chaminés não mais fumegavam, mas as histórias eram contadas como se num final de dia em que as máquinas de tecelagem paravam para recarregar as energias para a próxima etapa de produção. Nós também! A todo vapor investíamos. Na passeata de 30 de julho de 1983, Henrique Simões, Walter Sebastião e Guilherme Bernardes eram os organizadores. Além de Rubem Fonseca, outros nomes de reconhecido valor nas letras e artes nacionais: João Guimarães Vieira (nosso estimado Guima), Affonso Romano de Sant’Anna e sua companheira Marina Colassanti, Rachel Jardim, os irmãos Bracher (Carlos, Nívea, Décio e também Fani Bracher), Dnar Rocha, além do deputado João Batista dos Mares Guia, presidente da Comissão do Patrimônio Histórico da Assembléia Legislativa de Minas, como também um bando de convictos militantes da cultura, entre poetas, professores, jornalistas. Mais tarde, em 21 de agosto, a nossa luta ganha as páginas do Jornal do Brasil: “Juiz de Fora quer transformar velha fábrica em centro de arte e cultura”, mostrando a importância da preservação, como um dos três pontos sobre os quais a cultura se ampara: a produção, a divulgação e a preservação. A fábrica vira um emblema da cidade. E em 31 de maio de 1987, em homenagem ao pioneiro que trouxe a luz elétrica à cidade, a Bernardo Mascarenhas traz nova luz à cultura local: foi transformada num moderno centro cultural, administrado pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage – Funalfa. E o Espaço Cultural ainda hoje reflete nossa ousadia aliada ao poder público que propiciou a restauração e a modificação do objeto de trabalho da fábrica, dedicada doravante às artes, aos livros e outras atividades que fazem dela o centro de nossas atenções em pleno século XXI: ela segue a todo vapor...

3 comentários:

  1. Excelente, Marisa! Sempre nos enriquecendo com seus conhecimentos. Parabéns!!!

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  2. Que texto bom de ler, Marisa! E, pra mim, com boas novidades desse momento na vida cultural e política de Juiz de Fora. Se por aqui estivesse, com certeza, estaria entre vocês. Cheguei em final de 1984...Abraços.
    Doroti Mira.

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