Conto "Aurora"
Vicente se debruçou sobre o parapeito e achatou o nariz contra o vidro que o separava do tempo desconhecido que viria. Tentou repassar, passo a passo, o caminho que o levara até lá.
Estava com 54 anos, um literato premiado, idealista e, até então, convicto de que o programa traçado para sua vida seguia seu curso e era perfeito.
Desde muito jovem, sempre soubera o que queria e o que queria era sucesso, fama e liberdade. Não que fosse um libertino, isso não, mas gostava da independência que sua vida de solteiro lhe proporcionava. Desfrutava da companhia de um gato vira-lata, chamado Ramsés, que resgatara há alguns anos, de uma briga com cães. E essa presença lhe bastava.
Tinha prazer em ficar sozinho em meio dos seus livros, papéis, computador e criar e viver cada personagem que escapava por entre seus dedos. Gostava do processo de revisão, das dificuldades de editoração, dos lançamentos, das noites de autógrafo, do contato com seu público fiel. Apreciava os momentos de elucubração com seus discos, antigos vinis que rastreava nos sebos. E adorava, também, estar pelos bares no início das noites de sexta-feira, a jogar conversa fora, abraçar os amigos, arranhar um violão e se envolver com alguém que lhe deliciasse as horas.
Quando Maia entrara na sua vida? Em uma tarde qualquer a encontrara na livraria e conversaram sobre o autor a que ambos buscavam. Ulteriormente, abrigara-lhe sob o seu guarda-chuva em um encontro casual a caminho do metrô. Conversaram pouco, mas o suficiente para saberem nome e telefone. Tempos depois, descobriram um amigo comum. Marcaram um jantar e terminaram a noite no apartamento dela. Alguns encontros mais e, porque Vicente percebera que a relação estava se estreitando demais, distanciaram-se.
Não a vira ou falara com ela novamente até a ligação daquela madrugada. Maia, súplice, pedira-lhe que fosse ao seu encontro. Dera-lhe um endereço que o fizera arrepiar. Ele foi. E, ao chegar, a surpresa!
Agora estava ali. Embasbacado. Vencido. Porque, minutos antes, recebera nos braços a maior preciosidade que nunca sonhara conceber. E, rosto colado ao vidro do berçário, lágrimas a escorrer barba abaixo, completamente apaixonado, tornara-se outro homem. O pai de Aurora!
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ResponderExcluirSer pai é a maior experiência que um homem pode viver!
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