Mariana Alves

Conto "O que as cartas não podem contar"


Era uma sexta-feira de sol, meados dos anos 1950, Mister Jhon Smith Peter Bold já se encontrava subindo os degraus do sobrado cujas paredes apresentavam uma pintura verde-chá meio envelhecida pela ação do tempo. Naquele local, residia Madame Magnólia, a cartomante mais famosa da cidade de Spring Town. Vestido em seu terno azul marinho, a cor sóbria e o material de tweed garantiam a Mister Jhon um estilo conservador de se vestir muito comum para a época, algo que ele não abria mão nem sequer em dias mais quentes como aquele.

Como se lhe quisesse conduzir, a sombra de Mister Jhon já apresentava a porta ao homem, cuja muleta era acessório indispensável para desenvolver a importante missão de alcançar cada degrau daquela antiga construção, visto que as constantes dores nas costas que vinha sentindo, só o prejudicavam neste sentido.

Ao meio-dia, conforme previamente combinado entre eles, a porta se abriu e atrás dela se materializou a senhora com a qual Mister Jhon ansiava por encontrar naquele dia. Naquela sala sombria, Madame Magnólia dá as boas vindas e o convida a entrar, em seguida se dirige a sua mesa de trabalho, enquanto ele, o cliente comum de cada dia aos olhos dela, fica parado observando, apesar da pouca luz, cada passo da mulher em direção às descobertas relacionadas a sua vida.

Ao perceber-se entorpecido, naquele instante, Mister Jhon sacudiu sua cabeça, como numa tentativa de disseminar os pensamentos que ali estavam a rondar diante da presença daquela esguia mulher de pele morena e grandes olhos verdes. Em um canto da sala destinado a guarda de chapéus, casacos e bolsas dos clientes daquela renomada cartomante, Mister Jhon retirou e pendurou sua cartola, presente recebido de sua filha Miss Daisy, pouco tempo antes de sua prematura morte.

Madame Magnólia, sentada do lado oposto a cadeira reservada para Mister Jhon, já o aguardava e se preparava, organizando-se com cautela e retirando de uma pequena caixinha bordada de madrepérolas, seu baralho de cartas do oráculo cigano, com as quais, dizia ela, poderia rever o passado, descrever o presente e prever o futuro de cada cliente que recebia em suas consultas.

Mister Jhon se mostrava ansioso por estar ali, o que poderia parecer estranho, uma vez que não eram raras suas consultas à mediunidade de Madame Magnólia. Com um certo frio na barriga sentou-se a frente da cartomante e olhava-a fixamente, observando cada detalhe: o turbante de cor bonina, contrastando com o verde folha-seca dos olhos dela, os trajes de cigana em cores terrosas, o batom que aperfeiçoava ainda mais o contorno de sua boca e as inúmeras pulseiras e penduricalhos que adornavam seus pulsos chamando ainda mais atenção para as enormes unhas pintadas de vermelho escarlate.

E com suas delicadas mãos, Madame Magnólia acendeu 3 velas que representavam cada tempo da vida de seu cliente: o passado, o presente e o futuro. Sussurrou uma pequena oração e logo começou a embaralhar e retirar uma a uma as cartas que desvendariam o que ela acreditava que Mister Jhon procurava descobrir. Mas o que a cartomante jamais descobriria por meio daquela leitura, é que enquanto ela relatava suas visões e previsões, Mister Jhon não ouvia sequer uma palavra que ela dizia, ele não estava lá para isso, ele sequer acreditava em videntes, previsões, mediunidade, astrologia e afins. O único propósito daquele homem, naquele momento, era o de estar mais perto da mulher por quem sempre nutriu uma grande e secreta paixão.



Conto "Insônia"


- Ai Deus, por que eu não consigo dormir?! Questionava Cachico enquanto rolava de um lado para o outro na cama, incomodando também o sono de Rosinha. 

- Ô bênção, reza que o sono vem!

- Ave Maria cheia de graça... ah, pelo amor de Deus Rosinha, faz dias que eu não durmo e você acha que falar uma dúzia de palavras decoradas vai me curar? Eu vou é pra sala, acho que eu tô é estranhando esse colchão novo.

Partiu para a sala exalando revolta, pois mal adentrou o corredor, já ouviu o ronco fino de Rosinha. “Que inveja”, pensou. No fundo Cachico sabia que também não seria aquele velho sofá de couro que lhe traria a tão sonhada noite de sono. Deitou-se tentando acomodar seu pescoço no braço do sofá, estava cansado da maratona de insônia que vinha sofrendo, o corpo chegava a dar espasmos, o estômago constantemente embrulhado e a cabeça latejando de dor e de preocupação: “Será que está chegando meu fim?”. Já era tão corriqueiro passar as noites em claro que até inventou algumas distrações para desperceber a longa passagem do tempo enquanto a cidade toda dormia. Brincava consigo mesmo de adivinhar as horas, apostava quantos carros iam passar na rua naquela noite, ou simplesmente ficava de ouvido colado no bom e velho rádio curtindo suas canções favoritas.

Cachico nunca foi um homem de ostentar sorrisos, mas o pouco do bom humor que poderia restar em sua essência, a insônia vinha lhe roubando, dia após dia. E não raro, um amigo ou conhecido trazia uma receita infalível ou um truquezinho para acabar de vez com aquele mal. Traziam também, em sua maioria, um excesso de simpatia tanto desprezado por Cachico, porque certeza ele tinha de que tudo não passava de interesse por parte de quem receitava:

- Toma suco de maracujá antes de deitar, é tiro e queda - Receitava Toninho das Frutas.

- Vai no culto do Pastor Erivelton na quarta-feira, ele sempre faz uma oração pra trazer sono tranqüilo pros irmãos - Aconselhava irmã Regina.

- O senhor não dorme? Ah, é fácil, vem pra nossa academia, vai movimentar bastante o corpo durante o dia e a noite vai estar esgotado e dormirá como uma pedra - Instigava Professor de Educação Física Vinícius.

- Não dorme porque ta com a consciência pesada, há quanto tempo não se confessa? - Provocava Padre Jorge.

Apesar de achar que todos aqueles conselhos não passavam de asneiras, ele chegou a tentar seguir alguns deles, com a certeza que daria errado, e como toda ação tem uma reação, as de Cachico não foram as melhores: Num dia tomou três copos de suco de maracujá antes de dormir, o que só lhe rendeu ainda mais falta de sono, pois a cada meia hora precisava se deslocar até o banheiro. No culto do Pastor Erivelton, os irmãos oravam tão alto, que agravou ainda mais a dor de cabeça latejante de Cachico. Voltou xingando pra casa e nada de dormir! No outro dia, matriculou-se sem muita esperança na Academia Vida em Forma, mas passou a noite espraguejando pois voltou cheio de dores no corpo devido a musculação pesada que o Professor Vinícius passou logo no primeiro dia. Na manhã seguinte, foi a Igreja se confessar com o Padre Jorge, mas voltando para casa, a consciência ficou ainda mais pesada “que droga, eu não devia ter contado aquilo, se esse Padre contar pra alguém eu o mato!”. Enfim, várias tentativas sem sucesso. Até seu netinho de seis anos, Francisco, tentou fazer sua parte para curar o Vô Cachico:

- Vamos deitar Vô, vou contar carneirinhos e o senhor vai dormir rapidinho!

Mas quem dormiu já no décimo segundo carneirinho foi Francisco, e o que restou a Cachico foi apenas a missão de velar o sono do netinho.

***

Dizem que os homens vivem menos que as mulheres porque não gostam de se consultar com médicos, quando adoecem querem parecer durões, dizem que não tem tempo a perder e que procurar um médico é sinal de fraqueza. Cachico também compartilhava desse pensamento e comportamento. Não se lembrava a última vez que tivesse entrado num consultório médico, nem mesmo para acompanhar Rosinha. Para ele, aquilo era território inimigo. Mas a essa altura do campeonato, já não havia outra escolha, precisaria correr o risco, embora o medo de descobrir uma doença grave fosse avassalador. Marcou então um horário com o Doutor Klabin, era clínico geral, poderia fazer uma avaliação inicial sobre o estado de saúde de Cachico e caso fosse preciso, o encaminharia para um especialista.

O dia da consulta chegou e após passar por uma triagem, já na sala do médico, Cachico começa a relatar tudo que vinha se passando com ele nas últimas semanas. Doutor Klabin se sentiu interessado por aquele caso clínico e escutou atentamente cada detalhe de seu paciente, enquanto anotava algumas informações que considerava importantes para seu diagnóstico. Em seguida, submeteu Cachico a alguns exames comuns como análise da saliva, do reflexo, aferição da pressão arterial e com o estetoscópio realizou a famosa auscultação, popularmente conhecida pelo “diga 33”. Doutor Klabin se sentia confuso, aparentemente estava tudo normal com Cachico, então resolveu partir para o interrogatório:

- O senhor tem feito atividade física? E tem consumido alimentos com propriedades calmantes como o maracujá?

- Oxi, nem me lembre! Já fiz de tudo um pouco, Doutor, e nada disso me valeu, até simpatia a Rosinha fez, colocou um ramo de alecrim debaixo do meu travesseiro, o cheiro era tão forte que o incômodo causado foi maior que o poder de cura da planta. Tentei também terapia, acupuntura, escalda-pés, exercício de respiração, fiz reza e também oração, me confessei, até colchão novo comprei, tentei dormir na rede, no sofá e no tapete, abraçado com o gato, tentei dormir de meia e sapato, bebi leite morno com mel, reservei quarto de hotel, e outros tantos artifícios que já nem me lembro mais. Cada dia um candango vem me dar receita nova, mas eu não caio mais em conversa fiada, sou um homem vivido e cheio das minhas desconfianças, com essa gente eu fico é de olho bem aberto!

E foi nesse momento que o Doutor teve sua epifania:

-Por falar em olho aberto, Seu Cachico, o senhor já experimentou fechar os olhos?

- Mas que pergunta hein doutor, é claro, todo mundo precisa fechar os olhos pra dormir.

- Mas eu não perguntei de forma literal, seu Cachico. Todos nós carregamos conosco muitos problemas, angústias, preocupações e ansiedades que vão se acumulando com o passar do tempo. E estas coisas tomam conta de nossa mente principalmente à noite transformando-se em pensamentos perturbadores, por isso, ao se deitar, é preciso fechar os olhos para todo esse rastro de emoções negativas, só assim será possível dormir e quanto mais praticar isso, mais rápido também voltará a sonhar.

E neste momento deu-se fim àquele grande mistério. Cachico com todo seu jeito pessimista, intolerante, rabugento e descrente da humanidade havia entrado no consultório naquele dia procurando cura para seu sono, e se deu conta de que na verdade, era o sono que traria a cura para sua alma amargurada.

6 comentários:

  1. Parabéns Mariana, realmente as cartas nunca poderiam contar. Espero que ele seja feliz com ela. Rsrs
    Parabéns pela estória

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    1. Obrigada Luís! Com certeza ele já é feliz só de estar perto da mulher amada.

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  2. Tô adorando os seus contos, Mana! Continue, por favor. Todos temos dias de Cachico, não é mesmo?

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    1. Mariana Alves24/8/20 17:59

      Obrigada mana! É verdade mesmo, todos temos dias assim

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Obrigado!