José Heleno

Conto "O carro"

Num evento espetacular, lá pelos 1980, conheci uma menina. Um doce de menina. Linda, meiga... 

Foi no Parque de Exposições. Um frio, mas um frio... e lá quando esfria, esfria mesmo pra valer. Forma-se uma camada de gelo sobre a lataria do carro, que chega à espessuras incríveis. Eu já vi. já me disseram que a camada atinge, às vezes, centímetros.

Mas, vamos à história. Me encantei de cara com a tal menina, e ela também. Naquela empolgação recíproca, fomos nos envolvendo. Uma caipirinha, depois outra. Um amasso aqui, uns beijos ali. E foi rendendo, e foi rendendo. Só recuperei a noção de tempo quando o guarda me cutucou no ombro. “E aí, cara, não vai embora não? - berrou comigo - Todo mundo já foi. Tem festa aqui mais não. Leva pra comer em casa!” Esgoelou comigo, quando viu meu sanduíche ao lado, ainda intacto.
- Vamos embora, querida, carinhosamente a convidei. E tomamos a direção do estacionamento. E eu pensando na friagem que devia estar dentro do carro, e na camada de gelo que ia encontrar.
Deserto completo. Ninguém no parque. Parte da iluminação já desligada. E nós dois agarradinhos. Agora para vencer o frio também. A dois é melhor. A neblina baixa, aquelas auréolas de sereno em torno das poucas lâmpadas ainda acesas.
- Vi seu carro, meu bem. Me diz a moça.
- Vi também. Bom que ele está lá, né...
- Bege. Adoro carro bege...
- Que bege, querida? Meu carro é vermelho.
- É bege. Teimou. Estou vendo.
- Não. Não é. Você está vendo a camada de gelo que se forma com o frio e a neblina sobre a lataria. A camada de gelo dá essa impressão de cor. Expliquei.
Chegamos. O carro realmente estava lá. E a cor, ela tinha alguma razão. Parecia bege mesmo.
Enfiei a chave para abrir. Cadê a fechadura? Com a pressa, não consegui achar o buraco da chave
E ela tiritando de frio. Eu responsável por aquele quadro sofrido.
- Já vai, meu bem. A fechadura sumiu. Tenha mais um pouco de paciência. Peguei do chão uma pequena pedra no intuito de quebrar a camada de gelo e descobrir, pelo menos, a maçaneta. O buraco saiu no vazio. Nem maçaneta, nem porta. Cadê a porta? A porta também tinha sumido.
Com a pedra, batendo um pouco mais, ampliei o buraco e enfiei o braço.
Cadê o carro? O carro também tinha sumido.
O ladrão tinha levado meu carro. Tão habilidoso que era, a carcaça de gelo que envolvia o carro nem foi quebrada, ainda estava lá, inteirinha.



Conto "Conversa de aves"


- Sim, há diferença entre eles, falou o menino. - Diferença, não... respondeu Sana, bem cochichado.
- Fale mais baixo. Eles podem escutar. Ir embora.
San e Sana, irmão e irmã, confabulavam sob os pequenos arbustos, onde dois sanhaços, passarinhos meio azul-claro, se fartavam com os frutos vermelhos. Todos já tinham notado que o quintal se tornara um mundo onde podiam viver também os passarinhos. Não só os sanhaços, pois o bem-te-vi e os canários já tinham adotado o bebedouro do cachorro como banheira, desde a chegada desse tal de Corona Vírus. E o cão nem latia mais com eles.
- Qual deles você vai desenhar? Indagou San.
- Cala boca, San. É tudo igual.
- Tudo igual, para nós, discordou o menino. Aposto que são diferentes. Devem ser menino-pássaro e menina-pássara.
A iniciativa havia partido de Sana, que se dizia cansada de tanta “mesma coisa”. Convidou o irmão para fazerem desenho, mas sem pegar modelo no livro da escola e nem no Google. Estavam, pois, debaixo dos pés de jiló, exprimidos contra o chão, observando, a poucos centímetros acima, o casal de sanhaços. As folhas de papel desconfortavelmente sobre umas pedras. Embora eles não tivessem certeza, desconfiavam que os pássaros já os tinham visto, e conversavam também entre si. O que ouviam podia não ser meros piados, mas algo assim: esses meninos aqui em baixo pensam que nos enganam, mas quem os engana somos nós. De novo, Sana ralhou com o irmão. Não precisa falar. Basta pensar. Senão eles ouvem.
- Vou escrever o que eles estão falando, Sana.
- Eles não estão falando, San.
- Aquela redação da aula virtual. É isso: vou escrever a conversa deles.

4 comentários:

Obrigado!