Cida Lacerda

Conto "Hospital Colônia"




Há muitos anos, quando ainda existia, em Barbacena, o Hospital Colônia, que na verdade era um hospício, lá viveu uma mulher de nome Julieta. Não se sabia por que ela fora parar lá, naquele inferno. Nem ela nem ninguém. Não havia registros de quando chegara, com quais sintomas mentais, quem a internara, se tinha parentes ou não. Simplesmente, lá estava ela, uma mulher jovem ainda, sem referências do seu passado, sem documentos, sem esperança de um futuro. Alguém resolvera chamá-la de Julieta e assim ficou. Se ela fora parar lá por um passo em falso, dado na sua juventude, como era encarada, naqueles tempos antigos, uma gravidez na adolescência, um romance com homem casado, era um mistério. Talvez, ela só fosse dona de um temperamento forte e rebelde, qualquer coisa que fugisse ao controle dos pais ou fosse considerado um comportamento inadequado para os padrões vigentes na sociedade retrógrada e exigente com a moral e bons costumes daquela época. 

O fato é que, se Julieta chegou lá sã, lúcida, em seu juízo perfeito, rapidamente enlouqueceu. Quando ela chegou não quis falar com ninguém. Muitos pensaram que ela fosse muda. Encerrada em seu mutismo, Julieta permaneceu por muitos meses. O convívio com os outros internos, a promiscuidade, os maus-tratos, a superlotação, o frio e a fome, a falta de higiene, torturas, estupros, e as inúmeras mortes acontecidas, diariamente, a seu redor, os eletrochoques, tudo somado era um pacote preparado por demônios para iniciar a rotina do seu inferno.

Julieta ainda guardava remotamente alguns traços que revelavam uma beleza que feneceu precocemente. Mas o estrago que ela sofrera naquele lugar fora devastador. O que mais impressionava, eram seus olhos. Eles pareciam ter vida própria. Passavam da ternura para uma agressividade num passe de mágica. A suavidade era substituída por uma brutalidade, e o ódio se mostrava com toda a sua força. Nesses momentos, dava para se avaliar o quanto essa mulher carregava dentro de si os excessos de maldade cometidos contra ela por todos os que ali habitavam.

Eram os seus olhos que revelavam as suas dores, os sofrimentos e a revolta que sentia no corpo e na alma. Eles emitiam faíscas, pareciam querer saltar das órbitas e iniciar uma vida nova bem distante daquele lugar. Mas, às vezes, eles se apagavam, perdiam todo o brilho, uma sombra cobria o colorido, e davam a impressão de terem morrido antes do restante do corpo.

Quando isto acontecia, Julieta se encolhia toda num canto qualquer e se tornava como uma pedra, inerte, amorfa, apática, opaca. Passava dias, assim. Solitária. Depois, voltava, andava pelos corredores como um zumbi, ameaçava os outros internos com palavrões, brandia pedaços de pau nas mãos, atirava pedras, fazia gestos obscenos e era levada pelos enfermeiros carniceiros para uma sessão de choques elétricos, jatos de água gelada e deixada nua numa cela por dias e dias, sem água e sem comida
Julieta, certa vez se juntou a um grupo que pretendia fugir dali. Aproveitaram uma distração do guarda que ficava tomando conta do portão de entrada, passaram pelos corredores escuros durante a noite, enforcaram dois enfermeiros com as faixas dos seus jalecos, e saíram como um bando de cães raivosos. Na rua, se dispersaram. Ninguém tinha compromisso com ninguém. Não havia nenhum sentimento de amizade, solidariedade, união entre eles. Só desejavam a liberdade. Fugir do inferno, do campo de concentração. Cada qual tomou seu rumo e ninguém sabe para onde foram, se morreram, se foram recapturados, se embrenharam no mato e viveram por lá como bichos.

De todos eles, salvou-se Julieta. Foi encontrada muito longe dali, naquela fase de extrema depressão, imóvel, ausente, estática. Alguém se apiedou dela e avisou um médico da situação dramática daquela mulher. Foi levada para um hospital, cuidada, medicada, acolhida. Mas seu hiato no mundo dito normal durou pouco. Aquele hospital e seu corpo médico não estavam preparados para cuidar de Julieta na sua fase colérica. Julieta voltou para o Hospital Colônia de Barbacena, amarrada, imobilizada numa camisa de força. Foi separada dos outros internos e colocada numa cela, uma jaula para ser mais exata. E ali ficou até morrer, uivando como um lobo, chorando como uma criança, cantando como uma cotovia, rezando como uma santa, xingando como uma depravada, se automutilando com suas próprias unhas e dentes, dormindo como um anjo e, enfim, encontrando a trilha do céu…

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